A História de Ibn al-Qutiya é o título dado à obra contida no manuscrito MS 187 da Biblioteca Nacional Francesa e que é também o único actualmente existente que preserva o trabalho (James 2009, 1).
A data de nascimento de al-Qutiya não é conhecida, mas julga-se que foi em Sevilha e sabe-se que foi filho de uma mulher goda, morrendo por volta de 977 (Armistead 2003b, 418). Gramático, poeta e historiador, acresce ao seu percurso de
43 estudioso o estatuto de descendente da nobreza visigótica por via de uma neta do rei Vitiza. Era, portanto, um exemplo de integração da aristocracia pré-árabe na realidade peninsular pós-711, julgando-se, aliás, que na sua obra se encontram conservados vestígios de narrativas épicas moçárabes, hoje perdidas (Armistead 2003b, 418). Al- Qutiya iniciou os estudos na sua cidade natal, tendo eventualmente partido para Córdova, onde ensinou Gramática, Lei e Estudos Religiosos.
A datação do manuscrito preservado em Paris não é certa, suspeitando-se, pelas marcas de água no papel, que tenha sido escrito algures entre 1350 e 1450 (James 2009, 2 e 8). Um período de cem anos que dista bastante do tempo de vida de al-Qutiya e que obriga a considerar a transmissão da obra desde o século X. Neste sentido, David James, editor moderno da História, chamou a atenção para a diferença entre o texto actualmente existente e as citações que autores árabes fazem de al- Qutiya, um deles, Ibn Hayyan, cronologicamente bastante próximo. O editor nota, por exemplo, que este último cita passagens mais extensas do que as contidas na versão actual da Ta’rikh, o que coloca a hipótese de Ibn Hayyan ter recorrido às tradições orais que o próprio al-Qutiya transmitia e que nunca chegou a incluir no seu trabalho; ou, em alternativa, que a versão actualmente existente seja um resumo do trabalho original do autor sevilhano (2009, 16 e 18). A mesma possibilidade tinha já sido avançada por Armistead, que sugeriu ainda que a Ta’rikh poderá ter sido ditada por al- Qutiya a alunos seus ou, pelo menos, editada por eles (2003b, 418). Em qualquer caso, e David James conclui nesse sentido, é possível que tenham existido diferentes versões da História logo a partir do século X, das quais o texto preservado em Paris será um exemplo, e, consequentemente, que a obra de al-Qutiya nunca tenha tido um formato final (2009, 19).
O valor histórico da Ta’rikh pode, por isso, ser variável e é justo perguntar até que ponto é uma fonte fidedigna para um tema tão específico como as incursões nórdicas no ocidente da Península Ibérica. Certamente que o recurso a tradições orais e a falta de indicações explícitas nas citações não favorece a credibilidade de al-Qutiya, mas também é verdade que as suas referências a vikingues são limitadas. Isso permite que, uma vez cruzadas com outras fontes, possamos fazer uma avaliação crítica de forma a distinguir o que terá base histórica do que foi objecto de desenvolvimentos fantasiosos. Além disso, é preciso ter em mente que al-Qutiya foi um autor
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contemporâneo de parte do período das incursões, o que é uma característica relevante e não obstante o facto de se ter apenas uma versão tardia do seu trabalho.
3. Al-Muqtabis
Da autoria de Ibn Hayyan, este texto não seria tanto uma obra original, mas antes uma recolha de informação sobre o Califado Omíada de Córdova, muitas vezes retirada de trabalhos anteriores hoje total ou parcialmente perdidos. Uma antologia, por outras palavras, e com detalhes próximos de uma edição crítica moderna, na medida em que Ibn Hayyan teve o cuidado de indicar lacunas e acrescentar notas clarificadoras sobre as suas fontes.
Apesar da reputação de grande ou o maior historiador da Península Ibérica islâmica, pouco se sabe da vida do autor. Terá nascido em Córdova por volta de 987, filho de um secretário de Almançor, e teve o privilégio de uma educação cuidada. A nomeação para o cargo de escrivão do governador da sua cidade natal trouxe-lhe mais do que vantagens monetárias: permitiu-lhe juntar aos relatos do seu próprio pai o acesso a documentação útil para os seus escritos históricos, além de que aprofundou o contacto próximo com os conflitos políticos do seu tempo (Antuña 1946, 11-2). Isso e uma consciência erudita do passado áureo do Califado terão ajudado a formar os ideais pró-Omíadas de Ibn Hayyan, que foi um crítico da fragmentação do Andalus e do nascimento das taifas. Constata-se isso mesmo no Matin, uma obra de sete volumes hoje preservada apenas indirecta e parcialmente, mas onde analisava e criticava a realidade política dos seus dias. Os últimos anos da sua vida terão sido passados em recolhimento, afectado que estava pela perda de visão, morrendo em 1076 (Armistead 2003a, 413).
Se o Matin não chegou aos nossos dias, a sorte do Muqtabis não foi muito melhor. Dos dez volumes que teria, apenas sobreviveram partes do segundo e terceiro, este último guardado em Oxford (Antuña 1946, 25), assim como excertos preservados em autores posteriores que usaram a obra como fonte. São disso exemplo Ibn al-Athir (1116-1233), al-Nuwari (1278-1332) e Ibn Jaldun (1332-1406). Acresce ainda um manuscrito descoberto na cidade argelina de Constantina por volta de 1886 e do qual se fez uma cópia guardada na Biblioteca da Real Academia de História, em Madrid. Não é, no entanto, um original de Ibn Hayyan, mas uma reprodução feita a
45 partir de outra cópia de Ceuta que, segundo o texto, estaria datada de 1249 (García Gómez 1967, 26). Já o manuscrito que conserva parte do segundo volume do Muqtabis foi descoberto por Lévi-Provençal na década de 1930, dado como perdido por algum tempo e, finalmente, redescoberto e entregue à guarda da Real Academia de História em Madrid. Pelo rigor que se atribui a Ibn Hayyan e pela riqueza das fontes por ele consultadas, muitas delas hoje perdidas, o seu trabalho é tido como fidedigno e uma peça essencial para o estudo da Ibéria islâmica. É certo que, ao tratar-se de uma antologia e não de uma obra original, o rigor do compilador não assegura necessariamente o valor histórico dos textos compilados, mas também é verdade que Ibn Hayyan recolhe, por vezes, vários relatos do mesmo episódio, o que permite, em alguns casos, colocar em confronto as diferentes narrativas e fazer uma comparação crítica.
Interessa-nos, neste caso, a crónica sobre os reinados dos emires al-Hakam I e Abd al-Rahman II, contida na porção sobrevivente do segundo volume do Muqtabis, e o registo das notícias e ordens que chegavam ou saíam do palácio dos senhores do Andalus, retirado do manuscrito de Constantina. Em ambos os textos, encontramos referências a ataques ou avistamento de grupos de piratas nórdicos.