papacuanha branca e preta, das quais não remeto as
amostras nem falo em suas virtudes por serem estas bem conhecidas, e só direi que a preta tem presente- mente o merecimento de ser conhecida para fazer sa- rar as mordidas de cobra, pisada e bebida na ocasião da mordedura.
Afirmam de presente que o velame serve junta- mente para purgas feitas de modo seguinte: raspada a casca da raiz seca, pisada, e feita em pó, dada uma colher de prata em água, deita-se ao sereno, de ma- nhã se dá a beber, que serve para mil achaques, como sejam amarelos e engalicados.
Denominações originais
Nomes comuns
atuais Possível identificação
1 Angélica do mato
Guettarda platypoda DC.
Rubiaceae
2 Angélico angelicó Aristolochia trilobataAristolochiaceae L., 3 Alfavaca de
xeiro
alfavaca-de-
cheiro Ocimum fluminense Vell. Lamiaceae 4 Batatas Solanum spp. Solanaceae
5 Betonica Betonica officinalis L. Lamiaceae 6 Barbatimão Stryphnodendron barbatiman Mart.
Fabaceae
7 Bete Piper sp. Piperaceae
8 Contra erva Dorstenia brasiliensisMoraceae Lam. 9 Cajarana Spondias dulcisAnacardiaceae L. 10 Caroba Jacaranda sp. Bignoniaceae 11 Capim pé de
galinha Eleusine sp. Poaceae
12 Cardo Santo Cnicus benedictusAsteraceae L. 13 Cabacinho Luffa operculata Cogn. Cucurbitaceae 14 Capéba Pothomorphe peltataMiq. Piperaceae (L.) 15 Camapú Physalis angulata L.
Solanaceae
16 Emburana Amburana cearensis (Alemão) A. C. Smith, Fabaceae
17 Erva Moura Solanum nigrumSolanaceae L. 18 Embira
vermelha
Xylopia frutescens Aubl.
Annonaceae
Denominações originais
Nomes comuns
atuais Possível identificação
19 Erva mijona ou pimenta da água como alguns lhe chamam Polygonum hydropiper Lour. Polygonaceae
20 Gito Guarea guaraWills. Meliaceae (Jacq.) P. 21 Guabiraba
branca
Campomanesia lineatifolia
Ruiz & Pav. Myrtaceae 22 Junco brabo Cyperus articulatusCyperaceae L.
23 Jabarandim jaborandi Pilocarpus jaborandi Holmes, Rutaceae 24 Japecanga Smilax japecanga Grisebach. Cyperaceae 25 Imbe furado Monstera adansonii Schott. Araceae 26 Jurubeba Solanum paniculatumSolanaceae L. 27 João Motte
[João Morte]
28 Louco Plumbago scandens Plumbaginaceae L. 29 Lava Pratos
Cassia occidentalis L. Fabaceae
30 Lingoa de
Vaca lingua-de-vaca
Sob esta denominação existem diversas espécies de plantas exóticas e nativas, entre as quais Chaptalia
integrifolia Bak. e C. nutans Hemsl, Asteraceae 31 Mangelicão brabo manjericão Ocimum basilicum L. Lamiaceae Quadro I: As plantas medicinais do “abecedário”
Denominações originais
Nomes comuns
atuais Possível identificação
32 Mossambê mussambê Cleome affinis L. Capparaceae 33 Mucunãn mucuna Mucuna sp. Fabaceae 34 Mangabinha
ou Marfim mangaba Hancornia speciosa Gomes Apocynaceae 35 Mentrus mastruço Chenopodium ambrosioides
L. Chenopodiaceae 36 Mata pasto Senna obtusifolia& Barneby. Fabaceae (L) Irwin 37 Manacá Brunfelsia uniflora (Pohl) D. Don. Solanaceae 38 Milômes jarrinha
Aristolochia cymbifera
Mart. & Zucc. Aristolochiaceae 39 Malícia de
mulher dormideira
Mimosa pudica L. Mimosaceae
40 Matacana douradinha-do-campo Waltheria douradinha A. St.-Hil. Malvaceae 41 Murisi de
Tabuleiro murici Byrsonima crassifolia Kunth Malpighiaceae(L.) 42 Orelha de
Câm orelha-de-cachorro Matayba discolor Radlk Sapindaceae 43 Páo
Mangerioba mangerioba Senna alataFabaceae (L.) Roxb. 44 Páo Santo janaguba
Himatanthus drasticus (Mart.) Plumel. Apocynaceae 45 Páo de carne 46 Parreira Braba abutuá Chondrodendron platiphyllum (A. St.-Hil.) Miers.
Menispermaceae
Denominações originais
Nomes comuns
atuais Possível identificação
47 Guandú feijão-guandu Cajanus cajan Fabaceae (L. Millsp. 48 Quinaquina quina-quina Coutarea hexandraK. Schum. Rubiaceae (Jacq.) 49 Relogio Sida rhombifolia L. Malvaceae
50 Sanambaia samambaia 51 Sipó Cururu-
apê
Paullinia pinnata L. Sapindaceae
52 Serrote Hoffmannseggia falcaria Cav. Fabaceae 53 Sipó Guardião Melothria punctatissima Cogn. Cucurbitaceae 54 Sipó de
chumbo macarrão
Cuscuta racemosa Mart. Convolvulaceae 55 Sapê Imperata brasiliensis
Trinius Poaceae 56 Sapucaia Lecythis pisonis Cambess. Lecythidaceae 57 Timbaûba Enterolobium contortisiliquum (Vell.)
Morong Fabaceae 58 Vassoira
miúda vassourinha
Scoparia dulcis L. Plantaginaceae 59 Velâme Macrosiphonia velame (A. St.-Hil.) Müll. Arg.
Apocynaceae 60 Papacuanha
branca e preta ipeca
Cephaelis ipecacuanha
(Brot.) A. Rich. Rubiaceae
O manuscrito cujo original contém o ofício do go- vernador da capitania de Pernambuco, D. Tomás José de Melo, ao secretário de estado da Marinha e Ultra- mar, Martinho de Melo e Castro, remetendo diversas amostras vegetais de uso medicinal, procedentes da Paraíba, e um abecedário das aplicações dessas plan- tas, datada da Capitania de Pernambuco, Recife, 8 de maio de 1788 (Fonte: Projeto Resgate de Documenta- ção Histórica Barão do Rio Branco).
Embora que Silva & Santos (2011) atribuam ao na- turalista Alexandre Rodrigues Ferreira (1756-1815) o envio do material botânico no que resultou no “abe- cedário”, quem procedeu a coleta e o envio das plan- tas e foi o autor do “abecedário” permaneceu anôni- mo. Não foi citado no oficio de D. Tomás José de Melo e nem assinou o “abecedário”.
O autor do trabalho parece ter sido um estrangeiro, provavelmente português, de pouca familiaridade com as plantas medicinais brasileiras e particularmente com a rica fitoterapia indígena, que já havia sido estu- dada extensivamente por Guilherme Piso no Nordeste em meados do século XVII (PICKEL, 2008). O trabalho foi redigido numa linguagem prática e objetiva, sem maio- res preocupações botânicas e/ou terapêuticas.
Entretanto, em outro manuscrito e remessa seme- lhante relativo às plantas medicinais da “comarca das Alagoas” datado de 4 de março de 1788, acompanhando as caixas com as plantas remetidas para Lisboa, existe uma lista (“mapa”) de 23 plantas medicinais assinada por um certo D. Antonio Pio de Lucena e Castro, que na época ocupava o cargo de secretário da Capitania de Pernambuco.
Mas quem seria este personagem? A única referên- cia histórica que existe sobre ele, foi que morava na cidade do Recife, no século XVIII, uma senhora chama- da Josefa Francisca da Fonseca e Silva. Ela possuía seis extensos sítios, em Campo Grande, que iam do trecho denominado “Maduro” até Olinda. Além desses sítios, Josefa possuía, também, a maior parte dos mangues si- tuados nas proximidades de Santo Amaro, bem como uma área onde foi instalada a Fábrica de Tecidos da Ta- caruna. Por meio de uma escritura pública, datada de 16 de setembro de 1806, Josefa Francisca decide doar os sítios e mangues a D. Antônio Pio de Lucena e Castro. Quando ele faleceu, tudo o que recebeu em doação foi deixado, mediante um testamento, para o Recolhimen- to de Nossa Senhora da Glória, no bairro da Boa Vista, no Recife, criada pelas religiosas da Pia União do San- tíssimo Sacramento, em 1722 (VAINSENCHER, 2007).
Teria sido ele o autor das listas das plantas medici- nais de Alagoas e Paraíba? teria sido o autor do “abe- cedário”? durante o período colonial no século XVIII e início do século XIX no Nordeste, algumas autoridades locais (tais como juízes, corregedores, militares, ecle- siásticos, etc) eram encarregadas pela coroa do levan- tamento de “produtos naturais” nas localidades onde atuavam (MELLO, 1982).
No manuscrito do “abecedário” é evidente que o autor da remessa das plantas também o escreveu. Por outro lado, no texto não há evidências que o autor tenha aplicado ou experimentado as plantas na cura de alguma enfermidade. A sua informação é sempre de terceiros,quando usa expressões como “dizem”, “costuma-se”, “se tem visto”, “neste país”, “os boti- cários usam”, “alguns afirmam”, “ os cirurgiões”, etc. Acreditamos que o autor tenha coletado as denomi- nações e usos das plantas medicinais com moradores da região ou mesmo de boticários e cirurgiões. Assim, é provável que o autor do abecedário tenha sido o re- ferido secretário do governo da Capitania de Pernam- buco D. Antonio Pio de Lucena e Castro.
Por duas vezes o “abecedário” foi anteriormen- te publicado, mas não tendo sido comentado e nem
identificadas suas plantas: na primeira vez por Vas- concelos (2006), com arquivo do manuscrito original na forma de um apêndice na sua tese de doutora- mento e na segunda vez na forma de um encarte da- tilografado da obra sobre “O Gabinete de Curiosida- des de Domenico Vandelli” (2008).
O manuscrito é importante para se ter ideia das plantas medicinais da época, bem como para estabe- lecer estudos comparativos com as atualmente usa- das na fitoterapia popular.
Referências
ALMEIDA, A. V.; ALBUQUERQUE, A. C.; OLIVEIRA, M. A. P. Os insetos nos textos de instruções das “viagens filosficas” no século XVIII. Si-
tientibus Série Ciências Biológicas, 10(2-4): 299-305, 2010. VASCONCELOS, M. O. Curas através do Orún: rituais terapêuticos no Ilê Yemanjá Sabá Bassami (Recife). Tese de doutoramento em Antropologia, CFCH, UFPE, 2006.
FIGUEIRÔA, S. F. DE M.; SILVA, C. P. DA; PATACA, E. M. Aspectos mi- neralógicos das “viagens filosóficas” pelo território brasileiro na transição do século XVIII para o século XIX. História, Ciências,
Saúde, Manguinhos, vol. 11(3): 713-729, 2004.
O GABINETE DE CURIOSIDADES DE DOMENICO VANDELLI. Dan-
tes Editora, 2008.
MELLO, J. A. G. Estudo biográfico. In: ARRUDA DA CÂMARA, M.
Obras reunidas. Fundação de Cultura da Cidade do Recife, Recife, 1982. p. 11-74.
PICKEL, B. J. Flora do Nordeste do Brasil segundo Piso e Marc-
grave : no século XVII. Argus Vasconcelos de Almeida (ed.) Recife: EDUFRPE, 2008.
SILVA, P. R. L.; SANTOS, C. F. M. Traduzindo o mundo natural dos domínios portugueses: Vandelli e as expedições filosóficas do século XVIII. Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH, São Paulo, 2011.
VAINSENCHER, S. A. Campo Grande (bairro, Recife). Pesquisa Es- colar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: <http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/>. 2007. Acesso em: 25 de junho de 2012