A análise de conteúdo baseou-se nas transcrições das áudio-gravações subjacentes aos quatro grupos de foco realizados. No processo de transcrição fez-se a estabilização do texto com numeração automática das linhas no início de cada página (ver exemplo no Anexo II), com o objetivo de facilitar todo o processo de análise e apresentação dos resultados. Esta estratégia é sugerida por vários autores, como Flick, (2002 cit. in Anastácio, 2007), Landry (2003), Bardin (2008).
O processo de análise de conteúdo decorreu ao longo de cinco etapas (Landry, 2003; Bardin, 2008), tal como passamos a apresentar: determinação dos objetivos da análise de conteúdo (3.3.1); pré-análise (3.3.2); análise do material estudado (3.3.3); avaliação da fiabilidade dos dados (3.3.4); e análise e interpretação dos resultados (3.3.5).
3.3.1. Determinação dos objetivos da Análise de Conteúdo
O objetivo da análise de conteúdo centrou-se na produção de inferências/conclusões a partir das discussões ocorridas nos quatro grupos focais, de modo a que fossem averiguadas as conceções de sexualidade dos alunos participantes. Para se atingir este objetivo utilizou-se uma “grelha de
análise mixta”, onde uma parte das categorias analíticas deriva das teorias, enquanto a outra emerge
do material estudado (Landry, 2003).
3.3.2. Pré-Análise
Dizem-nos Landry (2003) e Bardin (2008) que pré-análise é a fase de organização e que tem por objetivo sistematizar as ideias de modo a conduzir à planificação das operações seguintes.
Neste sentido, começou-se por estabelecer contato com os documentos a analisar, de forma a conhecer os textos. Fez-se uma leitura flutuante das transcrições, para apreensão das primeiras impressões.
Posteriormente, procedeu-se à referenciação dos índices de categorias de análise. Neste âmbito, Cação (2008) defende que o sistema de categorias pode ser criado antecipadamente ou ir sendo construído ao longo do trabalho. No estudo que apresentamos, as categorias foram sendo reestruturadas ao longo do trabalho, só se tendo obtido a “versão final” durante a etapa de análise e tratamento do material estudado.
3.3.3. Análise do Material Estudado
Para analisar os dados obtidos recorreu-se a software adequado para a análise qualitativa, tendo sido selecionado o NVivo (versão 9.0).
O NVivo é um dos softwares mais aconselhado para trabalhar em análise qualitativa (QSR International, 2010), nomeadamente dados de grupos de foco, e foi já utilizado em várias investigações, entre as quais destacamos os trabalhos de Anastácio (2007) também com grupos de foco no domínio da educação sexual.
O software utilizado auxilia a pesquisa qualitativa, mas não a realiza nem a automatiza, pelo que não substituiu as investigadoras que foram as responsáveis por fazer toda a codificação. Neste contexto, Weitzman e Miles (1995), citados em Landry (2003:369), explicam que “os computadores
não fazem a análise de conteúdo; somente os humanos a fazem (…) eles [os computadores] podem ajudar-nos a pensar”. Coube então às investigadoras criar as categorias/códigos que serviram de guia
à investigação. Teixeira e Becker (2001) denominam o conjunto dos códigos como “nós”. Para estes autores “os ‘nós’ são recipientes que armazenam a codificação, ou seja, os ‘nós’ irão conter a
referência a uma porção de texto codificado. Este é o princípio básico de ação do NVivo: a codificação do texto e o armazenamento dessas referências em ‘nós’ específicos. O conjunto dos ‘nós’ formam a index tree root, ou uma árvore onde todos os ‘nós’ estão dispostos de forma hierarquizada e relacional” (p. 97).
De acordo com Anastácio (2007), os softwares de análise de dados qualitativos, assim como os processadores de texto do tipo Word, permitem, entre outras funções: organizar os textos resultantes das transcrições, facilitando a localização de segmentos de texto; a análise e contabilização das palavras ou expressões definidas como termos pivô, facto que favorece o estudo do conteúdo e as conclusões/inferências. Além disto, e segundo a mesma autora, os softwares de análise de dados qualitativos têm ainda como vantagens justificativas da sua utilização uma maior velocidade para manipular, procurar e exibir dados, assim como aumentam a transparência e objetividade do processo de pesquisa, ao mesmo tempo que favorecem a consolidação da busca, na medida em que possibilitam a concentração dos dados de todos os documentos.
Para definirmos os termos pivô (e categorias emergentes) que sustentaram a análise dos resultados, recorremos a dois critérios: a relação clara dos termos com o tema da sexualidade (“Raparigas & Rapazes”; “Amor & Paixão”; “Namorar”; “Sexy”; “Sexo”; “Engravidar”; “Bebé”) e outras ocorrências que, não estando tão diretamente relacionadas com o tema, se manifestaram mais frequentemente, tendo a si associadas informações pertinentes sobre a área em estudo (“Adultos”, “Família”, “Separar” e “Falar”). No final, totalizaram-se nove termos pivô (“Adultos”, “Família”,
“Namorar”, “Sexy”, “Sexo”, “Engravidar”, “Bebé”, “Separar” e “Falar”) e duas categorias
emergentes (“Raparigas & Rapazes” e “Amor & Paixão”).
A definição de categorias emergentes surgiu de uma necessidade de agrupar um conjunto de informações que, embora fossem veiculadas através de uma variação de termos, focavam conceções sobre o mesmo assunto. Assim, a categoria “Raparigas & Rapazes” aborda, principalmente, questões de género, entre as quais se destacam as diferenças entre os géneros e os papéis sociais atribuídos às raparigas/mulheres e aos rapazes/homens. Neste domínio, e como nenhum aluno referiu a palavra “género” durante as suas argumentações, mas sim “rapariga” e/ou “rapaz”, pareceu-nos que a melhor solução seria agrupar as duas palavras, para que a categorização contemplasse todas as
participações relacionadas com as questões de género. No que respeita ao termo “Amor & Paixão”, a junção das duas palavras deve-se ao facto destas aparecerem indiscriminadamente ao longo da discussão, mas sempre relacionadas com o mesmo contexto.
Para a apresentação dos dados analisados optamos por elaborar quadros de dupla entrada, sendo estes baseados nos quadros apresentados por Anastácio (2007). Assim, e tal como fez a autora, optou-se por incluir quatro colunas com: (i) a identificação dos participantes; (ii) a localização de cada termo pivô; (iii) a localização das reformulações do termo pivô; (iv) e os significados deduzidos a partir do contexto. Nas segunda e terceira colunas as ocorrências e reformulações dos termos pivô (respetivamente) aparecem dispostas pela ordem em que vão surgindo no texto, tal
como acontece no estudo de Anastácio (2007) e é sugerido por Maingueneau (1991)3 e Landry
(2003). Na quarta coluna, a partir dos significados contextualizados organizaram-se classes
indicadoras das conceções dos alunos. Nesta coluna, nem sempre foi possível colocar as unidades de texto que continham o termo pivô (ou as suas reformulações) pela sua ordem de ocorrência no texto, dada a necessidade de agrupar essas unidades em classes. Por último, para cada participante, contabilizaram-se em cada coluna as ocorrências dos termos pivô e das respetivas reformulações. O
mesmo foi feito, para cada grupo focal, no final da análise do termo pivô.
Importa ainda salientar que a análise de significação compreendeu dois tipos de conteúdos definidos por Landry (2003) como o conteúdo manifesto e o conteúdo latente. Segundo o autor, o conteúdo manifesto refere-se ao que é dito ou escrito explicitamente no texto, enquanto o conteúdo latente refere-se ao implícito, ao não expresso, ao sentido oculto do material analisado. Landry (2003) afirma que a interpretação conjunta destes tipos de conteúdo é crucial para a obtenção de resultados mais consistentes.
3.3.4. Avaliação da Fiabilidade dos Dados
Nesta fase da análise de conteúdo, procurou-se assegurar que as mesmas regras de codificação foram aplicadas a todos os textos transcritos. Neste domínio, procuramos averiguar o que Landry (2003:361) designa por “estabilidade”.
A “estabilidade” refere-se ao grau pelo qual os resultados continuam invariantes no tempo e constantes independentemente do codificador (Landry, 2003). Na procura dessa “estabilidade” a investigadora codificou os mesmos textos em três momentos distintos.
A primeira codificação foi realizada logo após a transcrição dos dados áudio-gravados de cada grupo. A segunda codificação ocorreu, aproximadamente, um mês depois das codificações iniciais.
Nestes dois momentos, houve diferenças na forma de codificar, em consequência de mudanças na compreensão das regras de codificação, por parte da investigadora. Essas mudanças relacionaram-se com um aprofundamento dos conhecimentos sobre o software NVivo 9 (sua utilização e funcionalidades). Assim, entre as duas primeiras codificações verificaram-se algumas variações, tendo a segunda implicado, para além das categorias de análise determinadas inicialmente, a criação de subcategorias. Desta forma, a segunda codificação revelou-se mais clara e consistente.
Perante as variações notadas, tornou-se impreterível recorrer a uma terceira codificação, o que ocorreu duas semanas após a segunda codificação. No final, o terceiro momento de codificação corroborou a categorização anterior.
3.3.5. Análise e Interpretação dos Dados
Na fase de análise e interpretação dos dados foram realizadas inferências e interpretações. Esta etapa, para além de se substanciar nos resultados obtidos, apoiou-se também na revisão da literatura e na análise documental inerente aos alunos que constituíram a amostra.