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Suzannah's relation with Ibsen, through their love story and economic issues

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2.1 Who is Suzannah?

2.1.3 Suzannah's relation with Ibsen, through their love story and economic issues

Paralelamente à edição do Martirológio Romano, de carácter geral, a Europa cris- tã dos séculos XVI e XVII vê desenvolver-se uma série de movimentos hagiográficos nacionais e regionais com o intuito de dar a conhecer os seus santos, mártires e pessoas 'ilustres em virtude'. Esta preocupação resulta, efetivamente, do amadurecimento do pensamento pós-tridentino que reafirma a necessidade de renovação da hagiografia e do incentivo ao culto dos santos na Europa católica, mas reflete igualmente o desejo de afirmação da memória e identidade de cada país ou região. À semelhança do que acon- tecia pela Europa, também em Portugal assistimos à emergência de movimentos hagio- gráficos que defendiam a necessidade de reunir e 'organizar' os santos consoante o ca- lendário cristão pois, na verdade, ainda não existia um conhecimento cabal dos santos portugueses. Álvaro Lobo foi o primeiro a editar um martirológio português onde figu- ravam todos os santos canonizados pela Igreja, mas só com Jorge Cardoso e o seu Agio-

lógio Lusitano, obra paradigmática de uma época no seu género, é que se procedeu à

recolha exaustiva e ordenada de todos os santos, mártires e outras personalidades anó- nimas que foram 'santificadas' pelas suas ações em prol da Igreja e do Cristianismo, embora não reconhecidas pelo Papado. Jorge Cardoso deu voz a estes ilustres desconhe- cidos que engrossaram a lista de personalidades veneráveis de Portugal154. O objetivo desta empresa era claro: a glorificação de Portugal enquanto 'pátria de santos'155 perante os outros países europeus cristãos, sobretudo a vizinha Espanha, evitando o esqueci- mento e a diminuição da devoção por causa da falta de registo. Jorge Cardoso cessava assim as dúvidas daqueles que viam Portugal como "esteril de Sanctos, pela limitada

154 FERNANDES, Maria de Lurdes Correia — Agiologio Lusitano: estudo e índices. Faculdade de Letras da Univer-

sidade do Porto: Porto, 2002. Tomo V. p.7-38.

155 FERNANDES, Maria de Lurdes Correia — História, santidade e identidade: o Agiologio Lusitano de Jorge Car-

doso e o seu contexto. Via Spiritus: Legendae, Vitae, Flores: formas e conteúdos da hagiografia em Portugal na

Época Moderna. Revista de História da Espiritualidade e do Sentimento Religioso. Porto: Centro Inter-Universitário

de História da Espiritualidade da Universidade do Porto, Instituto da Cultura Portuguesa - Faculdade de Letras da Universidade do Porto. N.º3 (1996), p.25-68.

noticia, que de nossas cousas tem, e pela pouca, que nós delles lhes damos (…)"156.

A posição marcada por esta obra e outras do género no estrangeiro é evidente, mas internamente, servia igualmente os propósitos reformistas ao funcionar como modelo de vida. Era essencial a afirmação da nacionalidade portuguesa de diversos santos muitos deles de culto imemorial e conhecidos por toda a Igreja, ao mesmo tempo que enfatiza- va o florescimento de outros mais recentes o que demonstra a continuidade temporal dos vários graus de santidade. À listagem de santos, beatos e virtuosos juntaram-se uma imensidão de missionários e mártires da evangelização, fenómenos da Época Moderna, potenciados pelos Descobrimentos, que ajudavam à renovação da vida cristã157.

Neste sentido, a obra de Jorge Cardoso é paradigmática das tendências e dos gos- tos da época. Responde ao repto de não deixar cair no esquecimento os santos e ao fazê- lo engrandece a sua pátria, recolhendo todas as memórias possíveis no que à história religiosa dizia respeito desde tempos antigos. A sua narrativa reunia duas funções es- senciais, ensinava e entretinha: "(…) Respondia a um gosto antigo, sempre renovado, pelo maravilhoso, pelos casos admiráveis, e instruía sob vários pontos de vista (…)"158.

Convém, no entanto, conhecer a evolução que o conceito de santidade sofreu quer no que diz respeito às suas manifestações quer quanto ao seu significado. Antes de mais devemos advertir que se tratou de um fenómeno muito complexo que marcou profun- damente a Época Moderna. A hagiografia foi alvo de críticas severas por parte dos hu- manistas, dos protestantes e, mais tarde, dos bolandistas159. Erasmo e Luis Vives, entre

outros, erguiam-se contra o exagero introduzido pelo maravilhoso nos relatos das vidas dos santos sendo que muitas vezes os milagres, que os dotavam de santidade, eram mui- to discutíveis e sem meios de comprovação. Opunham-se ao fantástico, ao maravilhoso, às efabulações e aos fingimentos que revestiam os relatos e recusavam-se a aceitar as falsidades que muitos dos textos hagiográficos continham160.

Perante estas acusações, a Igreja reconheceu a necessidade de reforma das mani-

156 FERNANDES, Maria de Lurdes Correia — História, santidade e identidade… p.25-68. 157 FERNANDES, Maria de Lurdes Correia — Agiologio Lusitano: estudo e índices… p.7-38. 158 FERNANDES, Maria de Lurdes Correia — História, santidade e identidade… p.25-68.

159 MENDES, Paula Almeida — «Vidas», «Histórias», «Crónicas», «Tratados»: sobre a escrita e a edição de hagio-

grafias e de biografias devotas em Portugal (séculos XVI-XVIII). Lusitania Sacra. N.º28 (2013) p.174-177.

festações do culto sendo que era essencial o 'controlo da santidade'161. Esse controlo não

significava o abandono da devoção, pelo contrário, Trento incentiva o culto dos santos e relíquias, mas, paralelamente, ativa mecanismos no sentido de se proteger das acusações externas. Decide-se pela publicação de um decreto — De invocatione, veneratione reli-

quiis sanctorum, et sacris imaginibus, Dezembro de 1563 —, contendo regras relativa-

mente à forma de veneração e de culto de imagens e relíquias162.

Assim, a falta de canonizações por parte do papado entre 1523 e 1588 deveu-se sobretudo à restruturação interna da Igreja no que concerne à atribuição e reconheci- mento da santidade, sendo que para isso foi criada em 1588 a Congregação dos Ritos Sacros e das Cerimónias. Os decretos publicados no pontificado de Urbano VIII nos anos de 1625 e de 1634 foram mais longe ao proibir qualquer forma de culto público, limitação que não se aplicava aos santos de culto imemorial. Estas disposições papais marcaram uma fronteira entre os santos canonizados e aqueles homens e mulheres 'ilus- tres em virtude' que engrossavam as fileiras de santos na hagiografia moderna.

Essa divisão foi especialmente sentida na literatura que passou a estar divida entre hagiografias e biografias devotas, mas que na prática expunham os mesmos conteúdos (louvor a Deus, vida ascética, mortificação, milagres, etc.) e refletiam o mesmo objeti- vo: fornecer modelos de conduta cristã. Efetivamente com Trento assiste-se a uma rede- finição do conceito de santidade por parte da Igreja, na tentativa de o regulamentar e disciplinar mas também de o valorizar e incentivar163.

De facto, os países europeus cristãos na época moderna procuraram valorizar-se através do registo hagiográfico, procurando valer-se da quantidade e importância dos seus santos. A santidade ia, deste modo, adquirindo um valor cultural e identitário mas sobretudo assumiu-se como portadora de valor histórico no Portugal dos séculos XVI e XVII. Na realidade era difícil a separação entre História e o texto hagiográfico, muitos historiadores consideravam-no uma face da História164.

O fenómeno da santidade foi usado como instrumento de afirmação quer espiritu- al quer cultural e política, sendo que o texto hagiográfico fazia a ligação entre a santida-

161 FERNANDES, Maria de Lurdes Correia — História, santidade e identidade… p.25-68. 162 FERNANDES, Maria de Lurdes Correia — História, santidade e identidade… p.25-68. 163 MENDES Paula Almeida — «Vidas», «Histórias», «Crónicas», «Tratados»… p.181-182. 164 FERNANDES, Maria de Lurdes Correia — História, santidade e identidade… p.25-68.

de e a História e a identidade do reino. Por toda a Europa durante dos séculos XVI (a partir dos anos 80) e XVII (1.ª metade) multiplicaram-se os textos hagiográficos quer de caráter geral quer de características regionais e mesmo locais, produto de um ambiente profundamente sacralizado que valorizava cada vez mais a santidade. A Roma chega- vam imensos relatos de homens e mulheres com fama de santidade e portadores dos sinais que a comprovavam como o cheiro suave, o corpo incorrupto, as visões, etc. A isto, acrescentava-se as descrições da devoção da população mercê dos milagres que teria realizado, o que contribuía para o aceleramento do processo de canonização e bea- tificação. Todos quiseram, sem exceção, mostrar os seus santos quer os reconhecidos formalmente pela Igreja quer os que tinham, apenas, 'fama' de o ser. De facto, assisti- mos ao crescendo de hagiografias que são demonstrativas de um esforço de divulgação dos santos através de martirológios, menológios ou crónicas monásticas e, consequen- temente contribuem para a exaltação dos países de origem, de morte ou onde estavam conservadas as suas relíquias165 e onde se fazia o culto166.

O alargamento do conceito de santidade e do ideal de virtude que passaram a con- templar todos aqueles, permitiu que as hagiografias passassem a incluir não só santos mas também aqueles que foram distinguidos pela sua 'virtude'. Assim, não sendo religi- osos e santos viveram santamente e se destacaram pelos exercícios ascéticos e espiritu- ais (penitências, jejuns, mortificações, fervor na oração, meditação, etc.), o que despole- tou a veneração e a atribuição de milagres a personalidades leigas. Efetivamente a de- monstração da quantidade e variedade dos santos parece ser entendida como uma forma de prestígio e, ao mesmo tempo, de fortalecimento da identidade comum dada a sua importância para a preservação da memória167.

Assumiu-se também como instrumento de reação à publicidade de obras profanas como os livros de cavalaria e as novelas. Daí que o recurso aos milagres e ao maravi- lhoso possa ser visto como uma estratégia para captar a atenção do leitor impondo, ao

165 Sobre o papel político das relíquias ver o interessante artigo de José Adriano de Freitas Carvalho: CARVALHO,

José Adriano de Freitas — Os recebimentos de relíquias em S. Roque (Lisboa 1588) e em Santa Cruz (Coimbra 1595): relíquias e espiritualidade: e alguma ideologia. Via Spiritus: relíquias e colecionismo sacro. Revista de Histó-

ria da Espiritualidade e do Sentimento Religioso. Porto: Centro Inter-Universitário de História da Espiritualidade da

Universidade do Porto, Instituto da Cultura Portuguesa — Faculdade de Letras da Universidade do Porto. N.º8 (2001), p.95-156.

166 FERNANDES, Maria de Lurdes Correia — História, santidade e identidade… p.25-68. 167 FERNANDES, Maria de Lurdes Correia — História, santidade e identidade… p.25-68.

mesmo tempo, normas de comportamento e de vida cristã, identificamos assim uma presente e manifesta função pedagógica e catequética desta literatura que reflete a espi- ritualidade pós-tridentina168.

Numa altura em que a imprensa começava a evidenciar-se era importante colocar no prelo obras que permitissem perpetuar a memória daqueles santos antigos que o tem- po podia fazer cair no esquecimento. Era urgente combater isso. Trento além das mu- danças que trouxe ao clero e às suas instituições permitiu a produção e renovação de toda uma literatura religiosa e de espiritualidade — vasta produção de catecismo, manu- ais de confissão, devocionários, obras de teologia e guias, hagiológios e martirológios, etc. — que se direcionavam aos fiéis numa tentativa de condicionar os seus interesses e comportamentos, mesmo individuais169.

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