3.3 Translations attributed to Suzannah
3.3.1 Gustav Freytag's play Graf Waldemar
A compreensão da história sagrada na Época Moderna está intimamente relacio- nada com "os caminhos da sua memória…"178. Houve neste período a consciencializa- ção da importância da preservação da memória do passado o que despoletou iniciativas mais ou menos concertadas por parte dos homens de cristalizar a memória através da escrita. Esta objetivo parece ter sido concretizado quando analisada a historiografia reli- giosa dos séculos XVI, XVII e XVIII onde figuram obras de carácter hagiográfico e devoto e crónicas religiosas. Mas o conceito de 'memória sacra'179, como a apelidou a autora, seria redutoramente compreendido se nos detivéssemos apenas nos monumen- tos/documentos que resistiram ao tempo e não nos fixássemos, também, nos homens que os fizeram e nos contextos que, por sua vez, os influenciaram. Afinal, no momento da escrita o autor e, depois, o texto que compôs refletiram diversos factores externos à relação homem/texto (motivações, preocupações, objetivos, suportes, contexto político,
176 DURAND, Robert (introdução e notas) — Le Cartulaire Baio-Ferrado du Monastère de Grijó: XIe-XIIIe siècles.
Paris: Fundação Calouste Gulbenkian — Centro Cultural Português, 1971. (Fontes Documentais Portuguesas, n.º II). p.IX-LV.
177 Veja-se por exemplo CRUZ, D. Marcos da — Cronica… fl.6, fl.12, fl.17v, fls.19-19v, fl.27, etc.
178 FERNANDES, Maria de Lurdes Correia — Os templos da memória sacra barroca. In CARDIM, Pedro (coord.) —
A História: entre memória e invenção. Lisboa: Publicações Europa-América, 1998. (Cursos da Arrábida; n.º3). p.208.
social e económico, etc.) que condicionaram a tal memória que se queria perpetuar180.
A conjuntura política de inícios do século XVII em Portugal fomentou a exaltação e afirmação da identidade do reino através da utilização da História fosse ela política e militar fosse religiosa, ou melhor, hagiográfica. A identificação e exaltação dos santos portugueses foi um dos meios usados para recuperar um prestígio há muito perdido no contexto da Cristandade. A historiografia moderna ficou também caracterizada pela crítica de fontes que materializava o interesse pela veracidade e comprovação dos factos relatados, mas também viveu muito do maravilhoso e dos silêncios involuntários, fruto de uma memória que já não conseguia recuperar os factos mais antigos, mas também voluntários, omissões propositadas e convenientes de acontecimentos ou pessoas que mediante as motivações e objetivos da escrita não interessava lembrar. Não será, portan- to, demais recordar a frase proferida por Solino no diálogo I da Corte na Aldeia (1619): "[...] nas histórias a que chamam verdadeiras, cada um mente segundo lhe convém, ou a quem o informou, ou favoreceu para mentir [...]"181.
Depressa a historiografia moderna passou a privilegiar as ações mais gloriosas daqueles homens e mulheres que pelas suas ações se haviam destacado e, de certa for- ma, contribuído para o engrandecimento do reino, apresentados assim como modelos de conduta e pauta de imitação para os Homens do presente e do futuro. Os contextos e as mentalidades definiram do momento e do conteúdo das obras no prelo nos séculos XVI e XVII. A reforma da Igreja e, posteriormente, a perda de independência política traçou um panorama do qual poucas obras puderam sair. Era imperativo transmitir valores e concepções que respondessem aos apelos da época. Foi isso que aconteceu. Foi neste contexto que houve a preocupação do registo da história militar e política mais recente do reino, como também a edição das crónicas dos reis de Portugal com especial interes- se sobretudo depois de 1640. Paralelamente a estas obras de natureza e objetivos imi- nentemente políticos surgem outras, na mesma linha, que traduziam o esforço do registo da memória sacra, acompanhando os preceitos da reforma católica, assente no enalteci- mento dos exemplos do passado mas também do presente182.
180 FERNANDES, Maria de Lurdes Correia — Os templos da memória sacra barroca… p.208-211. 181 FERNANDES, Maria de Lurdes Correia — Os templos da memória sacra barroca… p.210. 182 FERNANDES, Maria de Lurdes Correia — Os templos da memória sacra barroca… p.211-212.
E se, num primeiro momento, os cronistas assumiam as suas obras como pautas de comportamento, de função eminentemente prática que passava por se afirmarem co- mo modelos de vida para os cristãos; já depois admitem que são elas os instrumentos de afirmação da identidade do reino. Efetivamente, a hagiografia e as crónicas religiosas dos séculos XVI e XVII não foram concebidas essencialmente para a "preservação e difusão da memória sacra no quadro da sua participação na formação e afirmação da identidade do reino (…)"183, mas já poderíamos vislumbrar nelas a cada vez mais notó- ria faceta histórica e de função de preservação dessa memória. A história eclesiástica, plasmada nas crónicas religiosas, parecia querer acompanhar cada vez mais a história política e, mais, fazer parte dela. Esta característica é comum nas crónicas religiosas da segunda metade do século XVII, mas este novo rumo precisa de ser compreendido no contexto político da Restauração da Independência, momento que as antigas ordens re- ligiosas não podiam desperdiçar para mostrar a sua importância184.
A tomada de consciência de que era importante preservar a memória sacra através do registo escrito já tinha acontecido antes do século XVII mercê da evolução do pró- prio conceito e função da História, contudo só neste período é que efetivamente se to- maram medidas concretas que passaram pelo aparecimento das crónicas religiosas. As- sim, podemos afirmar que a origem da historiografia sagrada portuguesa começou ver- dadeiramente no início do século XVII quando a comunidade religiosa exprimiu a preo- cupação em conservar as suas memórias. Neste contexto, começam a surgir obras de carácter hagiográfico e biografias devotas, das quais já pudemos aprofundar atrás de congregações, ordens religiosas ou dos próprios mosteiros, estas que pretendiam de- monstrar a importância da sua instituição "no plano da «santidade» e da «identidade» do Reino"185. Era portanto imperativo numa altura de mudança e de ameaça das novas or- dens religiosas, que chegavam ao reino e rivalizavam o poder e o favor dos monarcas, que as 'antigas' ordens religiosas (Beneditinos, Cistercienses, Cónegos Regrantes) crias- sem mecanismos que salvaguardassem a sua existência. Uma das estratégias foi a fixa- ção da sua participação em favor do reino e, mesmo, dos próprios monarcas numa clara
183 FERNANDES, Maria de Lurdes Correia — Os templos da memória sacra barroca… p.212. 184 FERNANDES, Maria de Lurdes Correia — Os templos da memória sacra barroca… p.212-215. 185 FERNANDES, Maria de Lurdes Correia — Os templos da memória sacra barroca… p.214.
intenção de lembrar aos seus contemporâneos a dívida que tinham para com eles, ao mesmo tempo enalteciam a sua Ordem ou mosteiro enumerando e descrevendo as ações dos santos ou leigos e religiosos virtuosos que ajudaram a formação da santidade do reino186. Progressivamente começou-se a perceber o carácter historiográfico destas cró- nicas que além de nos fornecer informações o mundo religioso impunha-se como um importante complemento à história política, militar e cultural, porque mesmo no ambi- ente religioso não havia a tradição de registar as suas próprias memórias muito pela falta de documentos e a difícil acessibilidade das fontes. A história seiscentista manifesta a sua dependência em relação às fontes de informação quando os cronistas demonstram a importância do trabalho paleográfico de pesquisa em diversos arquivos para colmatar o vazio deixado pela falta e registo de memórias. Importa salientar a preocupação destes 'historiadores' na veracidade e rigor da sua narrativa, o descobrir e a leitura de documen- tos originais, quando os houvesse, era uma prova inquestionável da verdades dos factos, daí que muitos se preocupam em identificar a fonte de onde tiraram aquela ideia187.
Mas o carácter hagiográfico desta historiografia deixava ainda muitos desconfia- dos da sua validade enquanto exercício da História. Este género pecava pela excessiva recorrência ao milagre e ao maravilhoso quer em relação a santos antigos quer aos mais recentes e não reconhecidos formalmente pela Igreja. Isto obrigou a um controlo da re- gisto hagiográfico materializado nos decretos papais (1625 e 1634), mas a dimensão sacra destas obras, mesmo mais retraída, não se pode separar do texto historiográfico. Aquando da criação da Academia Real da História em 1720 estava no prelo a redação da história eclesiástica do reino188. E do mesmo modo que as diferentes ordens e con- gregações religiosas tentaram, nas respectivas crónicas, registar, lembrar e divulgar os seus santos, beatos, veneráveis, mártires e 'varões de insigne virtude', também muitas 'regiões' quiseram mostrar os seus santos. Por seu lado, as crónicas monásticas tenderam a incluir, notando a sua importância, os santos e 'varões ilustres em virtude' mais recen- tes, como o fez Fr. António Daza na quarta parte da crónica dos Frades Menores, edita- da em 1611 (já que a crónica de Fr. Marcos de Lisboa não tinha passado dos anos 20 do
186 FERNANDES, Maria de Lurdes Correia — Os templos da memória sacra barroca… p.214-215. 187 FERNANDES, Maria de Lurdes Correia — Os templos da memória sacra barroca… p.216-217. 188 FERNANDES, Maria de Lurdes Correia — Os templos da memória sacra barroca… p.221-222.
século XVI) e Fr. Luís de Sousa na crónica de S. Domingos, tendência que cronistas posteriores e de outras ordens continuaram a cultivar...189 "revisitando, deste modo, num movimento duplo de legitimação e alguma nostalgia, o seu passado glorioso"190.