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Sustainable societal development

Apresentação:

A Sra. A. permaneceu em silêncio durante a entrevista com o Sr.L. em atitude de concordância ao exposto pelo parceiro. Compareceu prontamente para a entrevista, mesmo levando-se em consideração as condições climáticas. É uma mulher elegante traja-se muito bem sempre que é vista. Faz questão de reforçar sua jovialidade demonstrada em movimentos e posturas. Observou-se durante o encontro que a Sra. A. tem formação cultural diferenciada, desenvolvida ao longo de sua vida. É professora.

• Por que a senhora dança?

Eu danço porque me causa muito prazer, desde pequena, isso eu já falei, mas eu fiz balé, eu sempre gostei muito de música, eu me envolvo, sou uma pessoa muito romântica, muito sentimental. Então, quando eu danço é como se... É a coisa melhor, eu sinto um prazer que não pode ser comparado a outra coisa que eu faça. é uma coisa assim de Deus, eu sinto a presença de Deus, eu não vejo ninguém, eu me envolvo. Eu não danço para aparecer, eu danço porque me faz muito bem. Sabe quando você vai para aquele mundo maravilhoso? Porque desde pequenininha fazia isto. Eu dançava no meio dos cães, meu pai punha música e eu dançava do meu jeito. A música é boa quando eu estou alegre, quando eu estou triste ela me ajuda a chorar, desabafar minhas mágoas. É uma coisa que me envolve muito.

• Por que a dançar na praça?

Eu danço na praça porque na praça sempre tem música. Também porque acho a praça um lugar bom porque não existe preconceito. Ali tem rico, tem pobre, classe média, os turistas. Acho que o mundo deveria ser assim, todo mundo igual. Acho que é por isto que eu gosto de dançar no coreto. Tem pessoas que perguntam:

-Ah, você dança no coreto?! Eu falo bem firme:

Eu me sinto bem no meio do povão. Eu gosto de povo entendeu? Eu não sou preconceituosa, jamais. Nós fomos criados lá em casa para não ser preconceituoso, para ajudar as pessoas, respeitá-las do jeito que elas são porque cada um é um, certo? É por isto.

Mas nós não dançamos só aqui não. Nós vamos a todos os bailes que nos convidam.

• Como a senhora e o Senhor L. tornaram-se parceiros de dança?

Sabe... começou assim: eu vim... eu ví... ele dançando, coisa e tal. Eu achei que ele dançava bonitinho e eu gostei logo dele. Gostei neste sentido. Isto antes da gente saber que ele era o L. que eu já conhecia.

O meu marido já tinha conversado com ele e falou se ele queria dançar uma música comigo. Aí ele dançou e eu fiquei muito feliz. Eu me senti a pessoa mais importante do mundo. No começo eu fiquei meio assim, porque é complicado. Eu só dançava com meu marido, meus filhos, então eu fiquei um pouquinho dura, mas depois eu logo relaxei. Daí em diante nós não paramos mais de dançar. Assim começou a parceria. Nós dançamos juntos há sete anos.

Ele já conhecia o meu pai. Faz muito tempo... Então, ele conheceu meu pai no Rio de Janeiro e meu pai passou mal, certo? E ele, por coincidência estava passando, ele acudiu meu pai. E ele

ficou muito amigo nosso, da minha família. Só que toda vez que ele ia visitar minha família, nós

não... eu não...não estava, estava presente. Ele ia pra casa do meu pai e tal. E por coincidência, em 99 eu mudei, noventa e...? Em 99 eu mudei pra cá e conversando com ele nós descobrimos que era ele. Aí, nossa, nós ficamos muito felizes porque minha família inteira, meu pai gostava muito dele, minha mãe e toda minha família. Então nós ficamos amigos assim de... a única casa que eu costumo fazer visitas é a dele. Gosto muito da sua esposa e ela de mim. Eu não costumo visitar ninguém, eu não tenho tempo de visitar, porque se eu visitar vou ter que receber e eu não tenho nem tempo. Eu falei pra você que agora eu não quero ter compromissos muito rígidos. Eu

ando muito, o dia inteiro, eu saio de manhã e volto à noite.

• E o seu marido?

O único lugar que ele vem com a gente é no Ano Novo. Vem ele e vem a M., esposa do L. O meu marido não gosta de dançar. Ele não sai do clube. Ele joga tênis Ele ta em outra, gosta de gravar as musiquinhas dele. Então cada um lá em casa faz o que gosta. Ele não vai me proibir porque não adianta. Ele tem uma cabeça boa. Ele é culto, é moderno. Ele não se incomoda não. Pelo contrário: ele fica contente. Quando tá chovendo ele torce pra passar a chuva e eu poder dançar.

• Como foi a sua mudança para Poços de Caldas?

Eu mudei porque vim como turista e amei. Aí meu marido também gostou. Nós morávamos em uma chácara em Campinas. Enorme. Aí eu comecei a vir para cá como turista. Meu marido um dia me perguntou:

Eu estava louca para morar aqui, mas se eu falasse e de repente não dá certo... Ele mais tarde iria cobrar. Aí eu falei:

-Ah pra mim é indiferente.

Mas não era né? Era a coisa melhor que podia acontecer na minha vida. Aí ele falou: -Ah querida, fala você porque pra mim tanto faz.

_Ah... Então tá bom- eu disse.

Nós alugamos a chácara e compramos um apartamento aqui. Mudamos pra cá. Nunca mais voltei a Campinas. Nem quero. Lá eu não saía. Eu saía assim: nós viajávamos de férias e tal. E minha vida era dar aula, fazer bolo. De repente eu achei que tem coisas melhores para a gente fazer. Eu acho que ali eu iria, desculpe a expressão, mofar. Então por isto que eu amo aqui. Porque eu tenho toda a liberdade. Lá eu não podia sair sozinha. Eu não dirijo. Aqui eu saio. Tem muita coisa pra gente fazer e eu mudei por isto.

• O que a senhora acha de estar envelhecendo e dançando?

Não sei responder. Eu acho que envelhecer é coisa de cabeça. Pelo pique que eu tenho, eu até gosto muito de mim neste sentido, eu sou muito mais feliz agora que estou fazendo coisas que gosto. Eu acho que envelhecer é uma coisa assim... relativa. Eu estou envelhecendo na aparência, mas por dentro eu acho que sou uma jovem de18 anos. Dançando.

Observações

A Sra. A. delineou de forma detalhada a sua relação como parceira de dança do Sr. L. Também fez alusão à sua vida particular, relatando detalhes da constituição e do relacionamento familiar. Foram observados durante toda a entrevista, uma empolgação e sinais de prazer ao descrever o amor pela dança. A mudança de comportamentos e de estilo de vida de A. reforçam a premissa dos “velhos indignos” discutida por Lopes (1998).

Interpretação

A Sra. A. em sua entrevista, deixa claro a recuperação de valores e atividades que foram e são prazerosas em sua vida. Não adquiriu o gosto pela dança ao descobrir o baile do coreto. Descobriu por meio dos bailes e do coreto uma forma de recuperar valores e atividades.

Monteiro (2003), em todo o seu estudo sobre o corpo e sua relação com o processo de envelhecimento, reforça a idéia da valorização de um corpo ativo e ciente de suas possibilidades: “Todavia, para conseguirmos focalizar a atenção ao corpo, é necessário que ele seja valorizado e respeitado, não como um instrumento de trabalho, mas como um domínio do ser que explora e enriquece a experimentação, adquirindo e doando o aprendizado” (p.36).

A partir dos movimentos elaborados e construídos ao longo de sua vida, a Sra. A. pôde se perceber agindo em um espaço e um tempo específicos. A. age no presente embasada em valores e aprendizados passados.

“Eu danço porque me causa muito prazer, desde pequena (...) Então, quando eu danço é como se... é a coisa melhor, eu sinto um prazer que não pode ser comparado a outra coisa que eu faça. É uma coisa assim de Deus, eu sinto a presença de Deus, eu não vejo ninguém, eu me envolvo. Eu não danço para aparecer, eu danço porque me faz muito bem.”

A ideia de pertencimento à praça e aos bailes também é evidenciada em seu depoimento. A praça transforma-se em um lugar onde relacionamentos e atividades são permitidas, independentemente de normas sociais genericamente assinaladas. Estabelece-se códigos próprios de comportamentos, válidos apenas para aquele espaço, em um tempo específico.

“Eu danço na praça porque na praça sempre tem música. Também porque acho a praça um lugar bom porque não existe preconceito. Ali tem rico tem pobre, classe média, os turistas. Acho que o mundo deveria ser assim, todo mundo igual. Acho que é por isto que eu gosto de dançar no coreto. Tem pessoas que perguntam:

Eu falo bem firme: -Danço, danço sim.”

A idéia de pertencimento e permissividade é ressaltada por Peixoto:

Os lugares públicos constituem o espaço de preferência das camadas populares, na medida em que estas se sentem mais à vontade, sobretudo porque foram abandonadas pelas camadas superiores. Sem entrar na discussão sobre a natureza dos espaços públicos a céu aberto, como as praças e praias, gostaria de relativizar essa afirmação. Tudo parece indicar que a apropriação desses territórios pelos grupos sociais é bastante sutil; suas fronteiras são vagas e suas barreiras, muitas vezes, imperceptíveis (2000, p.165).

A Sra. A. inaugura modos de pensar e reinventar o seu envelhecer. Assim como os idosos apontados por Lopes (1998) como indignos por romperem com normas socialmente estabelecidas de velhice e envelhecimento, a quebra de valores e conceitos da mulher que só dança com o parceiro oficial, seja ele pai, irmão ou marido, é concretizada na parceria da Sra. A.com o Sr. L. A descoberta de laços anteriores com o atual parceiro apenas intensifica as relações de parceria para a música e a dança.

“O meu marido já tinha conversado com ele e falou se ele queria dançar uma música comigo. Aí ele dançou e eu fiquei muito feliz. Eu me senti a pessoa mais importante do mundo. No começo eu fiquei meio assim, porque é complicado. Eu só dançava com meu marido, meus filhos, então eu fiquei um pouquinho dura, mas depois eu logo relaxei. Daí em diante nós não paramos mais de dançar. Assim começou a parceria. Nós dançamos juntos há sete anos.”

A Sra. A. juntamente com seu marido M., cria novas formas de relacionamento também em relação ao matrimônio.

O meu marido não gosta de dançar. Ele não sai do clube. Ele joga tênis Ele está em outra, gosta de gravar as musiquinhas dele. Então cada um lá em casa faz o que gosta. Ele não vai me proibir porque não adianta. Ele tem uma cabeça boa.”

A construção simbólica de pertencimento à cidade de Poços de Caldas, à Praça Pedro Sanches e aos bailes que nela ocorrem explicitados pela Sra. A., reforça o sentimento de veiculação de comportamentos específicos em territórios determinados. A relação atitudes/espaço/valores enfatiza a noção de pertencimento local.

“Eu mudei porque vim como turista e amei. Aí meu marido também gostou. Nós morávamos em uma chácara em Campinas. Enorme.

Nós alugamos a chácara e compramos um apartamento aqui. Mudamos pra cá. Nunca mais voltei a Campinas. Nem quero. Lá eu não saía. Eu saía assim: nós viajávamos de férias, e tal. E minha vida era dar aula, fazer bolo. De repente eu achei que tem coisas melhores para a gente fazer. Eu acho que ali eu iria, desculpe a expressão, mofar. Então por isto que eu amo aqui. Porque eu tenho toda a liberdade. Lá eu não podia sair sozinha. Eu não dirijo. Aqui eu saio. Tem muita coisa pra gente fazer e eu mudei por isto.”

A Sra. A. deixa exemplo concreto de desconstrução de estereótipos que adjetivam e categorizam negativamente a velhice. Valores relacionados e somados à categoria terceira idade fundamentam a criação de novos sujeitos

“Eu acho que envelhecer é coisa de cabeça. Pelo pique que eu tenho, eu até gosto muito de mim neste sentido, eu sou muito mais feliz agora que estou fazendo coisas que gosto. Eu acho que envelhecer é uma coisa assim... relativa. Eu estou envelhecendo na aparência, mas por dentro eu acho que sou uma jovem de 18 anos. Dançando”.

A dança serve com instrumento para que a Sra. A. construa subjetivamente seu envelhecer, tendo possibilidades de quebrar conceitos de identidade da velhice como algo estigmatizador.

Citando Mercadante:

A vida presente e os sonhos para o futuro, explicitados nos depoimentos dos entrevistados, apontam para várias possibilidades deles se realizarem enquanto sujeitos que criam projetos e assim podem determinar a sua vida no futuro. São, certamente, as várias possibilidades, e não a única, de viver a vida, que inaugura a produção das novas subjetividades. (2003, p.72).

Entrevista 3