Apresentação:
O Sr.L. é bastante conhecido pelo grupo que dança na praça. Sempre ágil nos movimentos, elegante em suas vestimentas, postura completamente ereta, não aparenta a idade que tem. Durante a dança permanece o tempo todo compenetrado nos passos e em sua parceira, e só dança com ela. O casal apresenta coreografia própria, passos bastante sincronizados e harmônicos. Estão presentes em todas as atividades de dança da praça, sendo dos primeiros a chegar. Quando o Sr. L. foi convidado a participar da pesquisa ficou muito lisonjeado aceitando imediatamente. Quando indagado sobre o local da entrevista escolheu os bancos ao redor do coreto. Pediu que o casal estivesse junto para as entrevistas No dia marcado estava muito frio, com a temperatura por volta dos 12 graus às 10 horas. O casal foi pontual apesar da temperatura. Ambos estavam bem à vontade para conversar.
• Por que o senhor dança?
É um prazer muito grande, eu gosto muito, desde o Rio que eu gosto de dançar bastante. Freqüentava muitos aqueles clubes do Rio: Bola Preta, o Arsenal da Marinha, a Aeronáutica, gostava muito de dançar. E quem me ensinou também dançar um pouquinho foi o Carlinhos de Jesus. Aprendi com ele. É bom dançar: pro corpo e pra alma. Isso é a coisa melhor do mundo.
• E dança desde quando?
Eu aprendi faz mais ou menos... uns 40 anos. Já tinha uns 40 anos mais ou menos. É porque eu gosto. Eu não bebo não fumo. Eu gosto muito dessa diversão. Olha, se tiver uma festa, se não tiver baile eu não vou, eu não vou, não vou.
E gosto, eu gosto muito de dançar. Eu danço em todo canto. Olha, eu tô sendo convidado: a PUC teve o baile agora sábado, nós fomos no baile convidados.
• O senhor veio morar em Poços por quê?
Faz 20 anos que eu estou aqui, em Poços... Vinte anos, que eu gosto muito dessa cidade. Quando eu saí do Rio, vim logo morar aqui. Já faz muitos anos.
Eu vinha duas vezes por ano aqui. Vinha no Natal e vinha em setembro. Eu falei com a minha senhora: -Vamos mudar pra Poços? É eu e ela só, não temos filho. Então ela disse:
-Então vamos.
Eu aluguei um apartamento ali na rua Prefeito Chagas, minha pousada foi lá. Morei lá seis anos, faz 20 anos que eu moro aqui. Eu adoro essa cidade. Se me der um apartamento de Copacabana de graça, eu não quero.
Eu tenho um apartamento lá, o resto tudo vendemos. Eu não comprei nada aqui porque não é interessante para mim. Eu não tenho filho, se eu morrer ela tem a pensão segura. E se ela morrer eu tenho a pensão. Pra nós não temos problema nenhum, eu e ela não temos.
Pra deixar pra sobrinho não é interessante, quem tem que desfrutar sou eu.
• Por que o senhor dança aqui no coreto de Poços?
Ah, porque eu adoro a cidade, gosto muito. Aqui é o lugar... aqui é o cartão de visita de Poços. É o cartão de visita. Em todos os lugares que eu vou, a primeira coisa que eles perguntam:
- Ainda tem aquele coreto?
Eu digo:
Acho que esta praça envolve todo mundo. Todo mundo vem dançar aqui. Pessoas bem idosas mesmo. Eles fazem... se não tem parceiro pra dançar, eles fazem um cordão e a gente vê que eles ficam felizes, eles gostam, não tem turista que não goste.
Dançar é a única coisa que nós fazemos, não fazemos pouco de ninguém. Não, absolutamente não. Imagina.
Nós somos a mesma coisa que o pessoal. Dançar aqui é a mesma coisa. Não sou melhor do que ninguém, não gosto dessas coisas. Negócio de orgulho, essas coisas.... Pra mim não... Não vai... Imagina, somos todos iguais.
Todo mundo vai pro mesmo lugar. E mais: ao ar livre é gostoso.
-
• O que o senhor acha de estar envelhecendo dançando?
Eu não acredito, eu não tô velho. Eu não tô velho.
Hoje esses idosos não têm prazer na vida, só cadeira de balanço, televisão e ler jornal. Minha patroa é assim; minha patroa é uma senhora de... ela tem 84 anos. Ela não gosta de festa. Só gosta de ver uma televisão, uma novela, ela adora isso.
Ela não me proíbe em nada, nada, nada. Agora, chega carta na minha casa:
- L. chegou uma carta aí pra convidar você, pra você ir ao baile, você não vai não?
Às vezes tem hora pra disfarçar com ela:
- Não tô com vontade. - Não, você vai, vai, vai.
Aí eu vou. É lógico
• O senhor não se sente velho?
Não, eu não. Absolutamente não. Eu tô com84 .... 86 anos. Não considero velho. Não, absolutamente não.
Eu ando muito. Agora eu chego em casa, almoço, vou dormir um pouquinho. Lá mais ou menos três horas, quatro horas eu saio, vou dar uma volta, com meus amigos. Seu pai é um grande amigo meu. Gosto muito do seu pai, não é porque tá na sua presença não, eu gosto muito dele. Eu sou muito querido aqui em Poços. Tem muita gente que não gosta de mim. Acham que eu sou ridículo.
Eu não me meto no meio desses caras, coisa nenhuma, eu sou do meio social, gosto muito do meio social. Gosto.
• Muito bem, muito bem. Obrigada.
Observações
Somente durante o decorrer da entrevista ficou claro que se tratava de um casal apenas para as atividades de dança. Eram parceiros de baile. A proposta inicial tinha sido a entrevista de um casal formal que dançava nos bailes da praça. A proposta de entrevistar persistiu mesmo sabendo não se tratarem de marido e esposa, pois aos olhos da pesquisadora o Sr. L. e a Sra. A. são legitimados como um casal que freqüenta os bailes da Praça Pedro Sanches.
O Sr. L. não encontrou dificuldades em responder às perguntas de maneira precisa. Ao terminar sua fala com a afirmação “lavei a alma” demonstrou claramente que precisava, de alguma forma, ter apresentado seu ponto de vista sobre a dança, a velhice e sua falta de preconceitos em relação aos parceiros e à atividade de dança na praça.
Interpretação
Peixoto (2000) ressalta o conceito de pertencimento elaborado a partir da idéia de comportamentos sociais regidos por um conjunto de regras e princípios de ética e estética, sempre associados a um local. A autora refere-se ao significado da identidade construído por uma sociedade, sua percepção da natureza, que lhe confere visão de mundo própria.
Segundo a autora:
Em relação ao exposto e associado às formas de sociabilização dos idosos e à rotina que essa faixa etária freqüenta os espaços públicos urbanos, chega-se à indicação também contraditória que aos sentimentos de identidade etária e pertencimento social se misturam os de apego a esses territórios. (PEIXOTO 2000, p.49).
O Sr. L. valoriza e considera o coreto como território próprio, onde exerce plenamente o papel de dançarino. O status de bom dançarino lhe confere posição privilegiada em meio aos casais que freqüentam os bailes
“Aqui é o lugar... aqui é o cartão de visita de Poços. É o cartão de visita. Em todos os lugares que eu vou, a primeira coisa que eles perguntam:
- Ainda tem aquele coreto?
Acho que esta praça envolve todo mundo”
O Sr. L. sente prazer em dançar e assume que a atividade que realiza na praça é simplesmente o ato de dançar. Também é notado em sua fala um grau de reivindicação quanto ao reconhecimento e à permissividade para que diferentes pessoas possam estar exercer o direito ao espaço público e à dança.
“Dançar é única coisa que nós fazemos, não fazemos pouco de ninguém. Não, absolutamente não. Imagina.
Nós somos a mesma coisa que o pessoal. Dançar aqui é a mesma coisa. Não sou melhor do que ninguém, não gosto dessas coisas. Negócio de orgulho, essas coisas.... Pra mim não... Não vai... Imagina, somos todos iguais.”
Esta premissa é reforçada por Moretti (1998), quando mostra a construção e a consolidação de direitos dos idosos a partir da apropriação de espaços públicos, fundamentada na “consciência e na liberdade de pensamentos conjugados à ação” (p.43).
A autora conceitua como “local” o espaço onde relações sociais concretas se ampliam, transformando-o em um “lugar” onde as pessoas se encontram, possuem afinidades e desenvolvem sentimentos de pertencimento a um grupo social definido.
Para o Sr. L., a idéia de velhice está associada à inatividade, à falta de perspectivas. Não reconhece e nega a própria velhice concretizando a especificidade que cada um atravessa durante o envelhecer.
Eu não acredito, eu não tô velho. Eu não tô velho.(...) Hoje esses idosos não têm prazer na vida, só cadeira de balanço e televisão e ler jornal. Minha patroa é assim; minha patroa é uma senhora de... ela tem84 anos. Ela não gosta de festa. Só gosta de ver uma televisão, uma novela, ela adora isso.
Segundo Mercadante (2003), “Há, assim, um conhecimento claro, por parte dos entrevistados, dos significados elaborados socialmente sobre a velhice, o reconhecimento da categoria geral de velho e a negação – individual – do próprio envelhecimento e da velhice singular de cada um relacionada àquelas características gerais” (p.57).
O entrevistado pouco se refere à sua vida doméstica, particular, reforçando a idéia de pertencimento local adquirida a partir da identificação com a cidade de Poços de Caldas e sua praça. A idéia de viver a velhice de forma singular também é evidenciada. Observa-se inversão de valores entre a casa e as atividades da rua, defendidas por DaMatta (1997): a rua trasnsforma- se no espaço em que o Sr. L. se sente engajado.
“Eu aluguei um apartamento ali na rua Prefeito Chagas, minha pousada foi lá. Morei lá seis anos, faz 20 anos que eu moro aqui. Eu adoro essa cidade. Se me der um apartamento de Copacabana de graça, eu não quero.
Eu tenho um apartamento lá, o resto tudo, vendemos. Eu não comprei nada aqui porque não é interessante para mim. Eu não tenho filho, se eu morrer ela tem a pensão segura. E se ela morrer eu tenho a pensão. Pra nós não temos problema nenhum, eu e ela não temos.
Entrevista 2