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Scheme 2.8: Copolymerization of two different monomers and the corresponding reactivity ratios

2.4.3 Suspension polymerization

Em contraposição a essa descontinuidade própria da sociedade atual, Winnicott (1956/2000) chama a atenção para a importância da experiência de continuidade de ser nos primórdios da vida infantil como sendo fundamental no estabelecimento de um sentimento de existência de si mesmo, de ser uma unidade que permanece no tempo.

A mãe que desenvolve este estado ao qual chamei de “preocupação materna primária” fornece um contexto para que a constituição da criança comece a se manifestar, para que as tendências ao desenvolvimento comecem a desdobrar-se, e para que o bebê comece a experimentar movimentos espontâneos e se torne dono das sensações correspondentes a essa etapa inicial da vida... Dito de outro modo, a base para o estabelecimento do ego é um suficiente “continuar a ser” não interrompido por reações à intrusão. (Winnicott, 1956/2000, p.403).

A contribuição de Winnicott aponta para a importância de uma presença sensível e atenta às necessidades da criança, quando esta ainda se encontra imatura do ponto de vista do desenvolvimento de uma organização pessoal que lhe permita se sentir como sendo uma unidade. A percepção da presença contínua da mãe, ou de um ambiente que oferece suporte e segurança às experiências vividas nessa fase inicial da primeira infância, garante a possibilidade de a pessoa se sentir existindo no tempo, vivendo em um contínuo, sem ameaças à organização precoce, incipiente, que permite o sentimento de unidade. Existe, portanto, um meio protetor necessário e

indispensável para favorecer o desenvolvimento desse sentimento de ser uma unidade, um ser singular, uma individualidade.

A experiência de continuidade de ser, vivida na presença de outra pessoa, desenvolve no indivíduo o que Winnicott (1958/1983) denominou capacidade de estar só. Essa capacidade de estar consigo mesmo subentenderia uma maturidade emocional que compreenderia o estabelecimento do sentimento de self. Enfatizando a importância da presença de alguém capaz de garantir uma experiência tranqüila, Winnicott (1958/1983, p.35) diz:

É somente quando só (isto é, na presença de alguém) que a criança pode descobrir sua vida pessoal própria. A alternativa patológica é a vida falsa fundada em reações a estímulos externos. Quando só, no sentido em que estou usando o termo, e somente quando só, é a criança capaz de fazer o equivalente ao que no adulto chamamos relaxar.

O desenvolvimento da capacidade de estar só e o estabelecimento de um sentimento de unidade oferecem, segundo Winnicott (1958/1983), melhores condições para suportar dificuldades e situações inesperadas encontradas ao longo da vida. O autor também esclarece que a possibilidade de gestualidade no mundo, de busca de novos caminhos e possibilidades está intimamente relacionada a essa experiência de continuidade de ser na companhia de um outro, que sustenta um viver no tempo e permite o estabelecimento da sensação de ser uma unidade.

Embora Winnicott (1958/1983) tenha focalizado a importância da experiência de continuidade de ser no início da vida do bebê, parece-nos

importante considerar que tal contribuição pode iluminar fenômenos que ocorrem posteriormente.

Ainda que o que aconteça nos primórdios de nossa existência seja reconhecidamente importante, nem tudo fica decidido, de uma vez por todas, na primeira infância. Assim, pensamos que vivências posteriores também interferem no estabelecimento e na manutenção de um sentimento de confiança e na capacidade pessoal de fazer um movimento singular em direção ao mundo.

Nesse sentido, o estudo dos estágios precoces do desenvolvimento emocional infantil permite iluminar outros momentos21 em que entramos em contato com situações novas, convidando-nos a focalizar o delicado interjogo entre a influência ambiental e o viver da criança no início de sua vida. Winnicott (1990, p.149) esclarece que “a influência ambiental pode iniciar-se numa etapa muitíssimo precoce, determinando se a pessoa, ao buscar uma confirmação de que a vida vale a pena, irá partir à procura de experiências, ou se retrairá fugindo do mundo”.

Uma experiência de ruptura na continuidade de ser, vivida como uma invasão no início do desenvolvimento infantil, pode ser sentida como uma ameaça à organização ainda incipiente e vulnerável que favorece o sentimento de unidade (Winnicott,1990). Sentindo a sua unidade ameaçada, a criança

21 Um exemplo interessante de como o pensamento winnicottiano acerca do estabelecimento da

relação com a realidade pode iluminar outras situações humanas diferentes da experiência do lactente nos é dada por Aiello-Vaisberg e Machado (2005) quando propõem aulas práticas durante as quais os alunos são convidados a se aproximar de modo paulatino e protegido do mundo sofrido da psiquiatrização. Deste modo, os alunos podem acessar a realidade apresentada sem que sejam suscitados mecanismos defensivos capazes de comprometer o estabelecimento de um vínculo criativo com o que lhes está sendo apresentado.

acaba reagindo e buscando proteção, seja no isolamento, ou adaptando-se ao ambiente sentido como ameaçador e desagregador, capaz de abalar esse seu sentimento ainda tênue de existência enquanto singularidade.

As colocações de Winnicott acerca do desenvolvimento de um sentimento de ser uma unidade a partir da vivência de experiências de continuidade de ser no início da vida oferecem elementos para reflexão sobre o ambiente em que vivemos, que, como vimos, é marcado pelo dinamismo, pela transitoriedade e descontinuidade.

O pensamento do autor nos inspira a pensar que o vazio e a insegurança observados, bem como o vácuo citado por Russ (1994), apontam para um afastamento de si, para uma perda de referenciais pessoais que possam assegurar o existir no tempo, a permanência enquanto individualidade, unidade.

Esse desafio em lidar com o dinamismo dos tempos atuais certamente agrava-se quando as contingências que norteiam o viver se alteram, quando os referenciais externos estão sujeitos a mudanças constantes. No entanto, acreditamos que o maior desafio ainda está em a pessoa conseguir se manter em contato consigo mesma, vivendo em sintonia com o que de fato faz sentido para si e experimentando a sensação de ser uma unidade, apesar da descontinuidade vivida.

Ao observar uma pessoa envolvida em um fazer acelerado, tentando seguir o ritmo da contemporaneidade, torna-se importante perguntar então se sua atividade acontece acompanhada do sentimento de ser, da percepção de si mesma em um contínuo, como singularidade que permanece no tempo, apesar

da transitoriedade vivida. Winnicott (1967/1999, p.26) focaliza a precedência do ser sobre o fazer quando diz: “Ser, antes de Fazer. O Ser tem de se desenvolver antes do Fazer. E, então, finalmente, a criança domina até mesmo os instintos, sem a perda da identidade do self“.

Esse fazer abordado pelo autor diz respeito a uma atividade integrada ao ser, que se constitui como conduta não dissociada. Para que um fazer intimamente ligado ao ser aconteça, é fundamental que um sentimento de ser tenha se estabelecido previamente. Quando, eventualmente, em função de experiências de descontinuidade, essa sensação de ser uma unidade no tempo fica comprometida, o fazer no mundo também sofre conseqüências, podendo transformar-se em uma atividade experimentada como vazia e desprovida de sentido, dificultando ainda mais a possibilidade de vir a se sentir real, singular e integrado com o seu ser.

Porém, é importante lembrar que, mesmo diante das condições difíceis que a vida nos apresenta, exigindo muito esforço, dedicação, trazendo decepções, ocasionando frustrações, manter-se em contato consigo mesmo, presente, e não ausente da dramática vivida, é algo extremamente valioso. Inspiradas no pensamento winnicottiano, temos afirmado que a presença viva na própria dramática, ainda que sofrida, é a base para que alguma transformação possa vir a acontecer, não apenas do ponto de vista individual, mas também no âmbito coletivo e político (Camps e Aiello-Vaisberg, 2003b).