• No results found

Pesquisadores alertaram que, embora os usuários de recursos de CSA possam tornar-se alfabetizados, muitos não leem e escrevem com competência (OTTEM, 2001; SMITH, 2005). Atribuem a fatores intrínsecos e extrínsecos as dificuldades no processo de alfabetização desses sujeitos. Seabra (2009) destacou quatro fatores que podem estar relacionados as dificuldades de leitura e escrita em usuários de sistemas de CSA: oportunidade restrita de contato com material escrito, inteligência rebaixada, problemas de linguagem e ausência de experiências pedagógicas adequadas para o desenvolvimento da consciência fonológica. São escassos os estudos que visam a investigar e compreender como ocorre a aquisição da linguagem escrita em pessoas com distúrbio de fala e comunicação.

A análise obtida por meio da triangulação de dados possibilitou identificar que, no início da coleta, o participante A frequentava a 1ª série do Ensino Fundamental e não era alfabetizado. Não reconhecia nenhuma letra do alfabeto e nem os números. A professora relatou ter dificuldades de ensinar o aluno, pelo fato de ele apresentar atenção e concentração reduzidas.

O participante B estava matriculado na 2ª série do Ensino Fundamental e também não era alfabetizado. A professora relatou que o aluno não reconhecia as letras do alfabeto e ele realizava as atividades pedagógicas por meio do desenho. No exemplo a seguir, é possível observar a dificuldade desse aluno.

Participante B

P4: Ele não sabe as letras; quando você pede para ele escrever, ele coloca qualquer letra e não sabe. Aí eu vou falando, e ele faz.

P4: Ele gosta muito de desenhar, ele desenha muito bem por sinal; às vezes, ele acaba falando, transmitindo por desenho.

P4: É, porque eu sempre leio o texto com ele e sempre peço para ele desenhar a parte do texto que ele mais gostou; porque ele não sabe ler e escrever, né?

O exemplo descrito permite apontar que o professor percebia que, mesmo que o aluno não tivesse a habilidade de ler para realizar uma determinada tarefa, como, por exemplo, escrever a respeito do texto lido, ela lia o texto e solicitava ao aluno escrever a respeito do conteúdo por meio do desenho. Durante o processo de capacitação de professores, é importante pontuar que é possível inserir o aluno com deficiência nas tarefas da sala, respeitando o conteúdo pedagógico, e muitas adequações já são feitas pelos professores na sua rotina em função do seu envolvimento com a sala e as especificidades de seus alunos.

As atividades adaptadas por meio dos sistemas de comunicação possibilitaram, aos dois participantes, acesso às atividades do planejamento do professor e aprendizagem de novos conteúdos. Por meio do relato do professor, foi possível identificar que, durante a aplicação do programa, o participante A foi desenvolvendo a linguagem escrita, o que lhe possibilitou reconhecer, discriminar, identificar e manipular as letras do alfabeto, de forma a favorecer a escrita e a leitura de palavras, como demonstram os exemplos a seguir:

Participante A

P3: Essa semana eu já comecei a letra “b”. F: A gente também.

P3: E ele está tão empolgado, ele fica assim, ah pro eu quero escrever. F: Mas eu já percebi, porque a gente mudou para a letra “b” porque o “a” está super bem.

P3: Está, está fácil para ele

F: Ele está reconhecendo tudo, está reconhecendo todas as letras, em todas as palavras, no meio das frases

P: Frases

F: Então, eu achei super legal!

P3: Então, eu falei vamos começar a letra “b” A., então ontem eu comecei, tracei com ele, recortei com o e.v.a, colei no caderno, para ele passar a mão, estamos indo.

P3: A gente está trabalhando a letra “d”; como ele conseguiu ler para mim “dedo”, para mim aquilo foi....

F: Ele leu para você “dedo”?

P3: Quinta-feira, “d” com “e” ficou “de”, e aqui “d” com “o” “do”, junta “de” aí ele olhou lá, eu vi que ele visualizou “do” “dedo”, ele lê “ai” “eu”, eu junto, eu estou juntando as vogais com ele.

F: Gente...

P3: “ai” “eu” “ai” é quando a gente machuca, eu falo para ele entender o que é “ai”

P3: É. Ele consegue já juntar “dado”, “bobo”, não põe aquelas complexas que ele não conhece.

O uso dos sistemas de comunicação alternativa propiciou o desenvolvimento da linguagem falada do aluno, e foi importante para a aquisição da linguagem escrita. Autores como Ottem (2001) e Card e Dodd (2006) já haviam enfatizado sobre a importância da linguagem oral para o desenvolvimento da escrita, pois as crianças se apoiam no ato motor da fala para desencadear o desenvolvimento da ortografia tradicional; dessa forma, é esperado que crianças com deficiência sem linguagem falada tendam a apresentar dificuldades nessa aquisição. Esse pode ter sido um dos motivos que dificultaram a alfabetização do participante B, devido à sua apraxia de fala. Durante a aplicação do programa, o aluno ampliou suas habilidades de escrita, porém não se alfabetizou, como relata a professora:

Participante B

P5: Se não tiver as figuras, ele não faz a atividade. Ele não consegue escrever as palavras sozinho, eu tenho que ajudar, mostrar na pastinha qual é a letra, fazer com ele. Se você pede para ele escrever um texto, ele copia um monte de palavra solta da lousa, ou então escreve algumas palavras que ele já sabe, mas tudo sem sentido.

F: Mas se você perguntar para ele o que ele escreveu, ele sabe?

P5: Não, porque às vezes ele olha no caderno dos amigos e copia algumas palavras do caderno dos amigos também.

P5: Ele melhorou muito, está conhecendo as letras, sabe algumas palavras, consegue participar das atividades, mas está difícil para ele escrever sozinho. Quando ele não traz a pasta de comunicação, aí fica mais difícil ainda. Ele esquece muito, tem que ficar lembrando todo dia. Será que você não pode fazer uma igual para deixar aqui na escola?