A ausência de trabalhos desenvolvidos em sala de aula com alunos com deficiência pode ter sido um dos motivos desencadeadores das dificuldades vivenciadas pelos professores. Pesquisadores já haviam ressaltado as dificuldades encontradas pelos professores do ensino regular, na atuação junto a pessoas com deficiência (LOCKE; MIRENDA, 1992; SOTO, 1997; BUENO, 1999; MELLO, 1999; SOUZA, 2000; VALLE; GUEDES, 2003; KENT-WALSH; LIGHT, 2003; SILVA, 2005; SADLER, 2005; REGANHAN, 2006). Os principais fatores encontrados foram a falta de conhecimentos teóricos e práticos para lidar com essa população, as dificuldades para organizar um bom planejamento pedagógico,
adaptar recursos e estratégias, a fim de possibilitar o entendimento, a realização e a participação efetiva do aluno deficiente nas atividades pedagógicas.
A dificuldade na elaboração e preparação do material para desenvolver as atividades com o aluno foi um dos aspectos mencionados pelos professores, como pode ser observado a seguir:
Participante A
F: No do índio, eu acho que seria legal a gente tentar construir uma oca, um cocar.
P2: Dá para fazer pesquisa na internet, na informática eu estou tentando colocar o concreto com ele também.
F: Ele vai poder manipular.
P2: É, faz mais sentido para ele né, depois ele vai fazendo a relação com as figuras né.
F: Ele gosta de manipular, eu acho que você poderia construir alguma coisa com ele né.
P2: Na aula de artes né?
F: Isso. É você vai trabalhando as diferenças com ele, a diferença da nossa casa para a oca, o cocar que o índio usa e a gente não.
P2: Em língua portuguesa, eu vou trabalhar poemas, como que eu faço para trabalhar poemas com ele?
F: E os poemas são longos?
P2: Não são longos, tem que ser poemas a partir de nomes, de rimas simples, como por exemplo, coisas do dia a dia deles
F: E eles que tem que criar
P2: Quando chegar no final de maio e junho, eles já estão criando, como colocar para o A isso.
F: Você vai explicar para ele que poema pode ser feito... P2: Eu já estou lendo os poemas para ele.
F: Primeiro você vai mostrar os poemas, lê os poemas com ele, mostrar as palavras que rimam, depois você faz um poema para ele, olha A. eu vou fazer um poema para você, um poema simples que fale dele, faz junto com ele, a você pedi para ele falar alguma coisa que ele goste.
P2: Eu posso pedir para ele falar uma palavra que rime com o “o”
F: Ele gosta de churrasco, que palavra que rima com o churrasco? Primeiro a gente trabalha com ele no oral, você registra o que vocês fizeram e me manda que eu faço as figuras, depois você retoma. Depois ele (:) você pode fazer um poema para uma amiga, para a mãe dele.
P2: É, eu faço o acróstico, e eles criam né.
Participante B
P4: Segunda-feira eu vou trabalhar dobradura com a sala. Eu vou ensinar o passo a passo, depois eles vão fazer a dobradura. Depois que eles terminarem a dobradura, eles terão que escrever um texto falando o passo a passo de como se faz a dobradura. E para o E, como ele pode fazer o texto? Por que ele não escreve nada
F: Acho que a gente poderia fotografar o passo a passo, fazer cartelas com cada passo separadamente. Acho que isso pode auxiliar o E. na ordenação da seqüência da dobradura. Porque o objetivo da sua atividade é saber se eles sabem qual é o primeiro passo, o segundo passo para fazer a dobradura, não é?
P4: Isso.
F: Então, ele pode usar as fotos e ordená-las para vc.
A dificuldade em elaborar as atividades para que os alunos com deficiência pudessem participar das tarefas em sala de aula foi identificada nos primeiros meses do trabalho. Conforme a capacitação ocorria, as professoras 1, 2, 3 e 5 buscavam sozinhas soluções para lidar com as necessidades dos alunos e adaptar o seu próprio material, o que comprova mais uma vez a necessidade de capacitação de diferentes interlocutores e mediadores, para implementar o uso adequado de recursos e estratégias em prol do aluno com deficiência (MANZINI; DELIBERATO, 2004, 2007; PELOSI, 2008, 2009).
No seguinte exemplo, é possível verificar o relato das professoras, salientando como a capacitação foi importante para elas:
Participante A
P1: Eu achei muito bom, a gente vê o resultado né, e por enquanto é a forma que ele tem de escrever e poder participar das atividades.
P3: Depois que você aprende, tudo fica mais fácil. Você aprende as
estratégias e depois você vê que dá para utilizar nas outras atividades. Você já fica mais ligada: até na televisão, você vê alguma coisa e já fala: nossa dá para usar com eles; você começa a criar, né?
Participante B
P5: Mas o aprendizado que eles tiveram de vida, nada paga. Para mim, foi um aprendizado profissional e pessoal muito grande.
Como advertem Nunes et al. (2009), quando o professor tem pouco conhecimento sobre o sistema e o uso do recurso de CSA escolhido, ele encontrará dificuldade de manusear e elaborar estratégias que facilitem o processo comunicativo e, consequentemente, o uso nas diversas atividades.
De acordo com o relato das professoras 1, 2, 3 e 5, elas passaram a dispor de mais tempo para planejar e preparar o material adequado para ser utilizado em sala de aula, elencaram a importância de se discutir em grupo as habilidades dos alunos com severas complexidades de comunicação, verificaram necessidades de alterações no currículo e
mudanças de comportamento da equipe escolar. para autores como Duek e Martins (2009), é consensual a visão sobre a necessidade de se investir em um processo de formação que possa realmente intervir no cotidiano escolar e promover mudanças na prática docente. Para tanto, é preciso dar a devida atenção às concepções que os professores possuem, inserindo os mesmos em um movimento de tomada de consciência e reflexão cotidianas, como meio de contribuir para o seu desenvolvimento profissional.
A professora 3 foi a que mais se destacou durante o trabalho. Ela participou da pesquisa durante os anos de 2009 e 2010. No primeiro ano da capacitação, ela necessitou do auxílio da pesquisadora para adaptar trinta atividades do seu planejamento pedagógico por meio do sistema PCS, sendo que, em 2010, foram adaptadas somente sete. Ela usava figuras de livros, revistas, internet, entre outros materiais, e tinha o cuidado de preparar todo o material antecipadamente, como ilustra o exemplo abaixo:
Participante A
F: Como está o trabalho com ele? Você está conseguindo fazer as atividades?
P3: Está super bem. Você viu que eu estou conseguindo fazer sozinha, eu vou atrás, busco as figuras de revista, internet, faço as atividades no computador, eu me viro. E está dando certo. Depois você olha as atividades que eu fiz ((entrega a pasta de produção do aluno para pesquisadora)), para ver se estou fazendo certinho.