Results and Analysis
4.5 Surrogate data results
Conforme já explicitamos nesse capítulo, a convergência midiática é um fenômeno processual e multidimensional, o que implica dizer que ela aborda as tecnologias da informação e da comunicação em diversos níveis e aspectos. De acordo com Lopez (2010a, p. 15), a análise da lógica da convergência midiática precisa ocorrer levando-se em consideração “[...] um contexto mais amplo, que envolve não só a comunicação, mas o ambiente em que ela se insere, as tecnologias presentes nele e os reflexos que elas têm nas ações e comportamentos do homem”. Tais constatações demonstram como a convergência necessita ser refletida a partir de uma perspectiva que contemple as suas etapas de produção, transmissão e consumo da informação.
Para o caso específico do rádio digital, a elaboração de conteúdos diferenciados é uma das principais mudanças que precisam ser geradas e, consequentemente, potencializadas e reverberadas pelo ambiente de convergência.
A fim de utilizarmos as proposições teóricas sobre a convergência de modo diretamente relacionado ao rádio digital, optamos por fazer uma análise da classificação em níveis proposta por Lopez (2010b, pp. 412-417). Importante ressaltar que ao discorrer sobre o que a autora chama de “níveis de convergência”, corroboramos a ideia de que eles se apresentam sob uma lógica de complementaridade, sem exigência de uma continuidade, “em que novas ferramentas, ações e contextos surgem e geram consequências para o rádio a partir da inserção das tecnologias da informação e da comunicação em suas rotinas” (idem, p. 412).
Em relação a esse cenário de constantes mudanças, López Vidales assegura: Na gênese de toda essa mudança está a profunda transformação sofrida pelos diferentes meios de comunicação na raiz da digitalização acelerada dos processos de elaboração, emissão, produção, transmissão, difusão e recepção de todo tipo de informação, seja áudio, imagens, dados ou gráficos (LÓPEZ VIDALES, 2001, p. 71).
Voltando-nos à referida proposta de classificação dos níveis de convergência, reconhecemos o amplo horizonte que se abre ao rádio digital, a notável necessidade de compreendê-lo, bem como a complexidade de tal lógica processual que, como já elucidamos, vai além da questão técnica-estrutural, na medida em que sugere a discussão de seus propósitos e os reflexos que se apresentam no processo produtivo radiofônico.
Todo o processo de mutações no aparato tecnológico radiofônico, sobretudo as implicações da convergência digital, nos remete à necessidade de reconfigurarmos a práxis de tal meio. De acordo com Lopez (2010b, p.414), estamos diante de “[...] novas dinâmicas de produção e transmissão que apresentam uma relação entre a tecnologia tradicional da radiodifusão e a informatização dos processos radiofônicos”.
Nesse sentido, finalmente, passemos a discorrer sobre o que, de fato, consistem os níveis de convergência, quais são as suas características e efeitos no cenário do rádio digital? Lopez aponta:
Convergência de primeiro, segundo e terceiro níveis. Estes níveis são integrados, complementares e compõem um processo de construção da identidade e de determinação do papel da comunicação radiofônica no novo cenário que se instaura. Um nível é dependente do outro e [...] se considerado em conjunto com a convergência de conteúdo, empresarial e editorial, pode levar à integração das redações. Entretanto, este não precisa ser o objetivo. Por se tratar de um processo, os níveis que a convergência apresenta são decorrentes dos anteriores, mas não exigem uma continuidade (LOPEZ, 2010b, p. 414).
Analisando especificamente o rádio digital, o primeiro nível desse processo refere-se claramente à informatização das redações. Nesse sentido, é possível apontar consequências importantes para a práxis radiofônica como, por exemplo, o aprimoramento e a agilidade proporcionados à execução, muitas vezes simultânea, de atividades com edição de áudios, textos, imagens e até mesmo de vídeos, através do suporte digital, na construção da informação.
Em relação ao segundo nível, este alude a tecnologização de diversas etapas do
processo. Aborda o instante em que se afirma uma conexão entre os instrumentos de
apuração, produção e transmissão de informações, sem, contudo, atingir transversalmente a composição narrativa e a natureza da mensagem radiofônica. Em tal nível, o diferencial relevante para a mensagem final refere-se à presteza com que o conteúdo é produzido e transmitido, notadamente com a peculiaridade do som digital.
A convergência de terceiro nível, sobretudo em relação ao rádio digital, refere-se propriamente à questão da produção multimídia. É justamente nesse sentido que precisamos ressaltar o seguinte: “a tecnologização e a inserção das tecnologias da informação e da comunicação no processo de construção e transmissão da noticia afeta a configuração do veículo, suas definições tradicionais e suas estratégias de linguagem” (LOPEZ, 2010b, p. 415).
Uma das características desse terceiro nível de convergência é a que vamos nos ater nas discussões do próximo capítulo. Diz respeito à atuação profissional dos comunicadores de rádio num ambiente convergente e digital: o novo rádio, que, consequentemente, sugere uma nova práxis comunicacional, envolvendo “atores” (produtores, usuários-ouvintes etc.) multiplataformas, capazes de produzir criativamente, com credibilidade e agilidade, conteúdos em áudio, vídeo, texto, fotografia, infografia (passíveis de entrecruzamentos).
Pensar em níveis de convergência constitui-se, portanto, num exercício de reflexão crítica e sistemática sobre esse processo mutante capaz de promover impactos, desafios, tendências e perspectivas na estrutura do rádio digital. É nesse sentido que desenvolvemos a discussão do capítulo a seguir, onde constam nossas reflexões sobre a necessidade de serem concebidos novos gêneros e formatos de conteúdos para as emissoras digitalizadas, reconfigurando, assim, a práxis45 comunicacional da cultura midiática radiofônica.
45 Consideramos importante ressaltar nesse momento do presente trabalho o nosso conhecimento a respeito do conceito multifacetado de “práxis”. Um breve e contextualizado olhar no âmbito da filosofia marxista, por exemplo, nos faz corroborar a noção de que a práxis passa por processos de desconstrução e reconstrução, exatamente como a dinâmica dos fazeres radiofônicos na contemporaneidade. Como Marx, compreendemos a práxis como atividade humana prático-crítica. Isto é, o nosso trabalho encaminha-se, como já mencionado em nossa introdução, entendendo a práxis, como o fazer ou a prática radiofônica, ou seja, as suas etapas de produção, veiculação, recepção, interação, as quais serão consideravelmente reconfiguradas/reinventadas pela ação de comunicadores e também dos usuários-ouvintes, no suporte tecnológico digital, ganhando, assim, sentido frente ao cenário midiático contemporâneo à medida que, transformando-se (descontruindo-se/reconstruindo-se), poderá atender as necessidades e anseios das diversas audiências. Outra noção que corroboramos contextualmente é do filósofo e cientista social alemão Jürgen Habermas: para ele a práxis é concebida como técnica-científica de caráter reflexivo e emancipador. Ou seja, tal visão também dialoga com os objetivos de nosso estudo sobre a práxis radiofônica, uma vez que ao buscar compreender cientificamente o fazer radiofônico na era digital, estamos colaborando com a emancipação do próprio meio diante dessa nova fase, bem como valorizando e apresentado aos produtores de conteúdo de forma geral, assim como aos seus usuários-ouvintes, novas possibilidades de atuação nas etapas de produção, veiculação, recepção e interação com as mensagens radiofônicas digitais.
CAPÍTULO V
5 A NOVA PRÁXIS NA PRODUÇÃO DE CONTEÚDOS RADIOFÔNICOS