Results and Analysis
5.5 Open Issues and Future Work
Iniciar uma discussão sobre gêneros significa mergulhar num debate que sugere reflexões em diversos âmbitos do conhecimento, afinal, trata-se de uma questão que suscita, há décadas, reflexões multidisciplinares. De forma específica, no campo da comunicação social, o rádio e a televisão, por exemplo, se utilizam do termo gênero para conceituar conteúdos específicos.
No Brasil, a abordagem acadêmica sobre gêneros teve início no jornalismo impresso, por Luiz Beltrão46, autor fundador destes estudos, que influenciou as reflexões nacionais sobre o assunto também no rádio. Um fato relevante e que justifica a nossa abordagem é que, conforme assegura Lopez (2010a, pp.67-68) “a pesquisa brasileira sobre gêneros no rádio ainda se mostra incipiente e eminentemente atrelada ao jornalismo impresso”.
46 O estudo de Beltrão está dividido em três livros, cada um com a sua especificidade. O primeiro é datado de 1969, onde o autor trata do gênero informativo. O segundo trata do gênero interpretativo (1976) e o terceiro do opinativo (1980).
Nesse sentido, em nosso estudo, o intuito de alavancar o exercício de entendimento geral sobre os gêneros e os formatos comunicacionais, deve-se, sobretudo, a tentativa de, a partir deles, reformular as possibilidades de atuação do rádio na cultura midiática da era digital, transformando tais modelos simbólicos da comunicação radiofônica em conteúdos multifacetados e reconfigurados pelas potencialidades da convergência, da interatividade e da transmidialidade.
Como a discussão na literatura é vasta e se presta às mais variadas interpretações, abordamos a questão de gênero de modo discursivo, primordialmente embasados por autores que nos permitiram conceber, a partir de seus referenciais, pressupostos básicos para a construção de uma nova práxis na produção de conteúdos digitais.
É preciso ressaltar que nesses tempos de mutações da cultura midiática, é de suma importância a compreensão e análise dinâmica e propositiva sobre a nova práxis na produção de conteúdos radiofônicos digitais, com o intuito de suplantarmos os exercícios de futurologia baseados apenas em discussões técnicas incipientes, como a questão do padrão ou som digital, por exemplo.
Assim, consideramos que o rádio digital precisa ter prioritariamente inserido em suas prospecções, a preocupação com a ampliação da discussão e proposição em torno do aspecto conteudístico, ou seja, é urgente a necessidade de reinvenção dos gêneros e formatos radiofônicos, os quais precisam ser reconfigurados e/ou criados para atuarem além das possibilidades comunicativas em linguagem natural, uma vez que, na contemporaneidade, podemos contar constantemente com o surgimento de linguagens artificiais, potencializadas, sobretudo, pelo cenário da interatividade e da convergência midiática.
Então, discutir o surgimento e as características de gêneros e formatos radiofônicos concebidos pelas linguagens digitais, levando consideravelmente em conta as particularidades intrínsecas do meio rádio, as potencialidades do novo suporte e as possibilidades transversais que se apresentam com a digitalização, bem como a reconfiguração do trabalho intelectual e técnico de novos comunicadores, os quais, lado a lado dos usuários-ouvintes, serão produtores de conteúdos, é tarefa essencial desse estudo.
Dessa forma, consideremos os gêneros como agrupamentos dinâmicos de informação, capazes de serem reconfigurados e/ou criados dinamicamente pelos fluxos de inovações tecnológicas em constante processo de mutação.
Na obra De los médios a las mediaciones, Martin Barbero (1987, p. 239) define gênero como “o elo de ligação dos diferentes momentos da cadeia que une os espaços da produção, anseios dos produtores culturais e desejos do público receptor [...]”. Esses aspectos múltiplos, de fato, deverão permear o fazer radiofônico digital, uma vez que, certamente, essas três esferas: emissoras, produtores e usuários-ouvintes precisarão estar afinadas em relação ao contato com o conteúdo transmitido. E sendo assim, é preciso disponibilizar esse conteúdo na linguagem correta para cada suporte específico; aprimorá-lo e corrigi-lo (quando necessário) para garantir sua aceitabilidade, permanência e, além disso, integração à realidade das audiências de maneira contextualizada e acessível, sem grandes complicadores.
Wolf traz uma relevante colaboração complementar:
[...] os gêneros são sistemas de regras aos quais se faz referência – de modo explícito e/ou implícito – para realizar o processo comunicativo: tal referência se justifica seja do ponto de vista da produção do texto (de qualquer natureza possa ser), seja do ponto de vista de sua própria fruição [...] (WOLF, 1986, p. 169).
Diante do grande número de possibilidades conteudísticas que poderão ser disponibilizadas no universo radiofônico digital, optar pela adoção e reconfiguração dos gêneros e formatos significará estabelecer identidades e elos de produção, veiculação, recepção e propagação dos conteúdos. A partir do momento em que se tem uma referência, um modelo para se formatar mensagens de determinado meio, como o rádio digital, ampliam-se, de certa forma, as suas potencialidades, funcionalidades, aceitabilidade e inovações.
O filósofo russo Bakhtin, referência teórica sobre a questão de gênero no campo específico da linguística e da literatura, apresenta uma definição que, em nosso entendimento, pode ser aplicada contextualmente aos gêneros radiofônicos digitais. Para o referido autor, gênero é:
[...] uma força aglutinadora e estabilizadora dentro de uma determinada linguagem, um certo modo de organizar ideias, meios e recursos expressivos, suficientemente estratificado numa cultura, de modo a garantir a comunicabilidade dos produtos e a continuidade dessa forma junto às comunidade futuras (BAKHTIN apud MACHADO, 2001, p. 68).
É justamente o que se espera a partir da reconfiguração e/ou criação de gêneros e formatos radiofônicos para o suporte digital: que se caracterizem como modelos
maleáveis, fluídos, organizadores e propagadores de informações e de conteúdos culturalmente múltiplos, com características e identidade próprias, capazes de suscitar a reinvenção contínua das possibilidades de tal meio de modo interativo e convergente.
Em relação à atividade do produtor radiofônico, esse aspecto aglutinador e estabilizador do gênero, ao qual se refere Bakhtin (apud MACHADO, 2001, p. 68), terá uma grande aliada: a participação direta do usuário-ouvinte no processo de elaboração, veiculação e propagação da mensagem. Tal potencialidade propiciada pelo aparato digital deverá não apenas promover a aparição de inúmeros gêneros e formatos no novo cenário radiofônico, como também favorecer a permanência dos mesmos acompanhados por uma atualização constante de acordo com as necessidades de quem os produz e, sobretudo, de quem os consome, numa rede de colaboração inventiva e multifacetada.
Melo desenvolveu definições específicas sobre a questão dos gêneros para campo do jornalismo. As suas ideias embasam o nosso trabalho na medida em que ponderam o fato de que apesar da identificação dos gêneros ser uma tarefa já realizada por alguns estudiosos, “na verdade a questão tem origem na práxis” (MELO, 1992, p. 32), aspecto para o qual defendemos a necessária reconfiguração diante do cenário de digitalização.
Tais ponderações de Melo em relação aos gêneros, de acordo com Barbosa Filho (2003, p. 55), estão fundamentadas nas considerações teóricas de Gargurevich, Dovifat, Foliet e Vivaldi. De acordo com o que apontam esses autores, os gêneros jornalísticos são “formas de que busca o jornalista para se expressar”; “formas de expressão do jornalismo”; “gêneros são utilitários” e sintonizam “linguagem e vida” (idem, ibidem).
Podemos perceber como a questão dos gêneros permeia fortemente o aspecto da práxis radiofônica. Trata-se de critérios e de “rotinas” produtivas que os gêneros, bem como os formatos, estabelecem de maneira a conduzir o fazer radiofônico a partir de uma rotina produtiva, que pode ser alterada por inovações/reinvenção constantes. No entanto, criatividade, agilidade, credibilidade, atualização, interatividade, convergência: esses aspectos devem ser norteadores da atuação dos produtores e dos demais profissionais do meio radiofônico digital.
Barbosa Filho também articula sobre os gêneros, segundo o autor:
[...] eles são agregadores de sentido [...]; possibilitam um regulamento para codificar a informação, adaptar-se à transmissão do veículo de comunicação, assegurar a perfeita decodificação do leitor. Também permitem aos redatores, repórteres e editores uma linguagem comum,
de forma expressiva, linguística e não linguística (BARBOSA FILHO, 2003, p. 60).
Esses diversos aspectos apontados por Barbosa Filho são relevantes no tocante à noção de gêneros radiofônicos, pois, de fato, eles facilitam a realização do processo comunicativo e admitem a adoção de uma práxis, ainda que mutante, nas suas etapas de produção, veiculação e recepção da informação. Contudo, nesses tempos de digitalização, convergência e interatividade, os gêneros atuam também como propagadores de uma nova cultura midiática. Sendo assim, urge a necessidade de se reinventar o fazer radiofônico sob a ótica desses aspectos múltiplos, uma vez que, permanecendo como estamos em relação aos atuais usos do rádio no suporte analógico, estaremos minando as potencialidades da sintonia do futuro.
Barbosa Filho também propõe a seguinte reflexão:
[...] podemos dizer que os gêneros, relacionados à área de comunicação, podem ser entendidos como unidades de informação que, estruturadas de modo característico, diante de seus agentes, determinam as formas de expressão de seus conteúdos, em função do que representam num determinado momento histórico (grifo nosso) (BARBOSA FILHO, 2003, p. 61).
Diante da digitalização do rádio, observamos, portanto, a necessidade de reestruturação dessas unidades de informação, ou seja, dos seus conteúdos, de modo que os usuários-ouvintes possam também apropriar-se do processo de produção dos gêneros e formatos radiofônicos, colaborando de modo interativo, incrementando, assim, as suas formas de expressão e atuação na cultura midiática contemporânea.