O texto abordado com mais profundidade nesta tese sobre Heidegger chamado de fenomenologia da vida religiosa permite uma maior comprnçaoda experiência religiosa se entendermos que Heidegger dialoga com as cartas paulinas e com Santo Agostinho,
Deste modo antes de entender o que Heidegger quer ao retomar as escrituras precisamos entender como Agostinho trabalha a relação do homem com o mestre interior.
A alma governa o corpo de maneira que existe uma hierarquia entre Deus e os homens. Com efeito, consideramos que existe Deus-alma-corpo, sendo que o ultimo depende da penúltima, e esta depende de Deus. Assim, quem sente é a alma e ela não se limita ao mundo. O Sentimento é um sentimento da alma. A alma sente qualquer alteração que ocorre no corpo, ela percebe, e extrai uma imagem do que esta sendo pensado.
Neste ponto Heidegger remete a ideia clássica de que os gregos trágicos já falavam, ou seja, a impossibilidade de entender pela razão a linguagem dos Deuses. Agostinho resolve o problema de modo a expressar um modo de Deus falar ao intimo do homem.
A relação entre pensamento e linguagem se manifesta na ligação da interioridade e da exterioridade. Sabendo que o ensinar ocorre pela interioridade e a exterioridade contribui com a admoestação. Portanto, nessa relação o aprender não ocorre pela linguagem, ele acontece pelo mestre interior. Não existe uma trajetória linear entre falar e ouvir. O caráter ativo do alvo aponta para a dificuldade de entender que não existe assimilaçãoquando do ensinamento do mestre exterior.
Por isso, a questão fundamental não é como funciona a linguagem. Mas, como é inseparável o fato de apreender e ensinar. A linguagem é um médium (meio) no qual a relação se estabelece.
Já a palavra remete algo. Por isso, as palavras sinalizam coisas a serem aprendidas ou recordadas. As palavras são essencialmente signos. E esses expressam ideias ou coisas.
Nós expressamos ideias por intermédio da linguagem. O ato de indicar apresenta a relação entre as palavras e as coisas, entre sinal e coisa. O sinal indica diretamente, quando presente, para que se cumpra a função. Assim, as ideias não estão diante de nós como coisas.
Expressão e designação divergem. Na relação palavra ideia precisamos da coisa. A ideia deve estar presente na alma, pois ela possibilita passar da palavra a aquilo que a coisa é. A ideia deve estar presente para compreender o signo.
A compreensão das palavras não é só assimilar os sons. É preciso ascender constantemente rumo a significação constante devo reparar a relação entre sinal e coisa. Isso significa que os atos da alma (Juízos de significação) representam as decisões da alma. A atividade da alma nos leva a compreensão das palavras. Assim, a alma compreende melhor do que quem está falando, porque discerne a verdade presente nas palavras. Pois munida com a capacidade de compreensão ela consegue entender. Com efeito, a mudança deve ser interior , ou seja, é algo pessoal. Portanto, o valor está nas idéias e não nas palavras. Por isso existe a falsidade. Assim, deve haver um acordo entre palavras e as coisas. No entanto, a palavra é somente um sinal tornado-se presente significação de algo.
Com efeito, o significado depende da visão da coisa. Mas, só compreenderemos as palavras conhecendo as coisas ou as ideias na alma. É por isso que ver é aprender pelo mesmo olhar interior, e não só pela visão física, porque conhecemos através do olhar da alma.
No entanto, se não for possível indicar a coisa, usaremos palavras. Porém, sem a relação direta com a coisa a palavra é um mero som. Pois, não se conhece pela palavra, só é possível conhecer mediante a realização da significação da coisa. Portanto, ninguém aprende unicamente pelo signo.
Logo, conhecimento e transmissão do saber são duas coisas distintas. Porque as palavras não mostram as coisas, ou seja, o sinal por si só é vazio, não tem conteúdo. Portanto, quem ensina é o Mestre Interior. Existe um trabalho interno de articulação entre alma e coisa. Esse processo de articulação e apresentação é composto de três procedimentos:
1-mostrar internamente. 2- designar externamente.
3- teoria da reminiscência. (articulação entre memória e palavra).
Desta forma, existe um primado da interioridade, e a palavra é uma admoestação, porém nunca um ensinamento porque quem ensina é o Mestre Interior. Tanto no conhecer como na linguagem o primado é da interioridade Por isso, é possível ter imagens prévias e uma compreensão prévia das coisas. A projeção da interioridade nos faz compreender a verdade da narrativa, a compreensão é precedida de Crença. Se não crerdes não compreendereis. A narrativa nos ínsita a consultar as coisas significas, ou seja, a instância interior da coisa significada.
Portanto, toda alma racional consulta o Mestre Interior. Ou seja, consulta o interior da própria crença. Em alguns momentos recorremos a memória através da rememoração dos acontecimentos pela intelecção. Portanto, temos.documentos ontológicos armazenados em nossa memória. Assim, além do sensível e do inteligível nós temos as imagens. Esse documento presentifica, traz à luz a coisa, ou seja, nos traz a lembrança do passado e a torna presente. A lembrança é a presentificação a partir da memória de si. É presentificação da verdade na memória de Deus. Portanto, é uma segunda visão de si.
Em suma existem duas visões: a das coisas e da memória e da própria visão de Deus. A primeira é em si, e a segunda é em si e de Deus. Assim, a segunda é uma visão em Deus, pois é a visão das próprias coisas de Deus. É a presença de Deus no intimo da alma. (Mestre Interior).
Percebe-se uma construção eminentemente filosófica em Agostinho, porque se encontra uma visão filosófica na construção do conceito de memória Deus que se faz presente ontologicamente na alma humana. Por isso, a verdade é sempre uma revelação. Mas a verdade habita no interior de cada homem por causa do Mestre Interior. É possível consultar o Mestre interior pelarazão humana. Portanto, a compreensão do inteligível se torna compreensão racional. È por meio da razão que nós encontramos verdades inteligíveis, ou seja, o conteúdo é acessível pela razão, verdade de Fé.
Essa verdade sempre será revelação, seja por algo ou pro alguém. Só é possível consultar a verdade pela razão. Porém, nem sempre compreendemos a verdade, temos uma compreensão perfeita somente quando atingimos a verdade de Fé. Assim, podemos consultar o mestre interior de duas maneiras:
1- por intermédio da razão. 2- Pela Fé, sobrenaturalmente.
Do primeiro modo, a pessoa pode ignorar o que é verdadeiro, ela crê, opina, ou duvida. Já no segundo modo, ela não ignora o que são falsas (verdades), ela nega o que está sendo falado. E dentro desta segunda existe ainda outra possibilidade,ou seja, a pessoa sabe e afirma o que é verdadeiro.
Por isso, o crer não é meramente acreditar no que está sendo falado, mas entender que existe uma relação entre iluminação e a verdade. Portanto, existe uma ligação ontológica entre Deus e o homem, ou seja, é impossível o
afastamento de Deus em relação ao homem. O que pode acontecer é um afastamento moral do homem perante Deus.
Embora sejamos a imagem e semelhança de Deus não podemos ser Deus por uma questão Lógica. Assim, todas as coisas que existem são organizadas em uma hierarquia: segundo Agostinho, 1ºDeus.2º-homem. 3º-demais seres. Portanto, o único Ser completo é Deus. Ou seja, o homem existe, e Deus É. Porque Deus é o único que é completo por si mesmo. contudo, nós temos um vinculo com Deus, isto é, o Mestre Interior é o vinculo ontológico do homem com Deus. Por isso, que podemos dizer que o homem é próximo de Deus, porque o Mestre Interior é presença ontológica de Deus no homem. Porém, a revelação da verdade depende da Iluminação, ou seja a razão não e´suficiente para entrar em contato com a verdade da Fé. Por esse motivo, o homem consulta a luz que ilumina as coisas para conhecer a verdade. Assim, as verdades da Fé transcendem a razão. A verdade da Fé é resultado da consulta com o Mestre Interior.
Heidegger também deixa claro que não há forma racional de se explicar Deus, a filosofia pode expor muitas realidades, mas nunca chegará perto de ao falar de Deus, a razão é limitada por isso não é o teólogo ou o filosofo que ira falar de Deus, mas o artista e o poeta por intermédio de sua experiência. Se Heidegger fala de um limite da linguagem, Agostinho remete a uma anterioridade, uma garantia anterior da presença do Deus que tudo sabe antes.
No entanto, a anterioridade da presença de Deus no homem não é uma fundação inata, é a presença anterior da verdade de Deus em cada homem, ou seja, a manifestação Ontológica. Assim, existe uma anteridade cognitiva e uma presença divina de Deus no homem. Contudo, existem três níveis de manifestação dessa anterioridade 1º- A interioridade Ontológica. 2º- Ainterioridade Psicológica. 3º- A interioridade Teológica (verdade interior da Fé).
Para Agostinho as palavras não são mediação, são admoestações, ou seja, ocasião incitada pelo mestre exterior para conseguirmos chegar ao verdadeiro pelo mestre interior. Assim, a verdade depende da contemplação pela interioridade que só é possível por intermédio do Mestre Interior.
Porque, a) o Mestre Interior ensina o que é a verdade, ou seja, a ontologia da verdade. b) Já o mestre exterior não pode ensinar a verdade ontológica porque apenas transmite o que sabe, ou seja, a parte epistemológica do saber e nunca consegue ensinar, apenas admoesta.
Por conseguinte, o conhecer somente é possível pela visão ontológica e
direta da coisa, de maneira sensível54 ou pela ideia. Assim, as palavras são
recursos externos para direcionar a busca da verdade no Mestre Interior. O conhecimento e a função de conhecer a verdade devem levar a pessoa à beatitude.
Embora Agostinho aparentemente adote o pensamento Platônico ao assumir a noção de memória, o Santo apresenta a memória como a presença no presente de algo ocorrido no passado, mas uma presença ontológica. Isso difere de Platão porque para o Grego a reminiscência é a rememoração de algo que já fora conhecido no passado, mas não é uma presença ontológica. Portanto, para Agostinho é pela memória ontológica que Deus se faz presente no homem. Essa ligação ontológica com o eterno não implica em dizer que existe uma preexistência da verdade, portanto, não existe um inatismo.
Tudo isso somente é possível ao se apoiar na interioridade, que é totalmente radical resultando na concepção de originalidade da alma. Que por sua vez precisa do conceito de iluminação. Porque existe uma anterioridade e a interioridade de Deus na alma. Portanto, Deus garante a possibilidade da anterioridade e da interioridade da verdade.
Assim, a teoria da iluminação é a ação de Deus no homem por intermédio do Mestre Interior. Deste modo, o Mestre interior permite que estejamos anteriormente diante do conhecimento do verdadeiro e da verdade. Por isso, as palavras apenas indicam as coisas, ao passo que o Mestre Interior expressa a verdade.
Com efeito, a doutrina da iluminação expressa a ação de Deus Agostinho recorre à Metáfora do sol para explicar como a luz divina ilumina as coisas para que possamos conhecê-las pelo Mestre Interior. Portanto, Agostinho busca o fundamento para a verdade justamente na iluminação divina. Assim, a Metáfora do sol consiste no seguinte: a Terra não é visível por si mesma, mas ao ser iluminada pela luz passa a ser visível.
Já a luz permite que seja visível por si mesma e por isso ilumina outrem. Aparece o caráter hierárquico (ontológico e epistemológica), ao aplicarmos isso ao homem no tange ao conhecimento percebemos que conhecer depende também da luz divina porque sozinho o homem não pode atingir a verdade.
Contudo, se transpormos para a tentativa de inteligibilidade do conhecimento o ser humano constatará que:
1º- a luz ajuda a ver a verdade em sua realidade efetiva.
2º- auxilia a identificar aquilo que é visto como sendo verdadeiro.
Por causa disso, atingir a verdade depende da irradiação de algo que permite identificar a verdade. Portanto, a verdade depende da luz para se manifestar no homem. Existe uma construção metafísica no interior do homem, ou seja, existe uma metafísica da interioridade em Agostinho apoiada na relação Ontológica de dependência do homem perante Deus.
Desta maneira, há uma relação intima entre interioridade e iluminação porque a iluminação somente é possível conhecendo o mestre interior e conhecer a verdade depende da luz que atinge as coisas e que este conhece e ensina ao homem. Isso, devido ao vinculo ontológico. Contudo, o intelecto age de maneira ativa para poder ver as coisas iluminadas pela luz.
Por tudo isso, Agostinho não faz propriamente uma filosofia da linguagem, mas ele precisa tratar do problema porque se propõe a pensar a maneira de conhecimento do homem. Assim, para Agostinho a linguagem deve expressar aquilo que as coisas são de modo a indicar o que a coisa é. portanto, é uma teoria da linguagem fundada na verdade ontológica das coisas que só pode ser atingida mediante o Mestre Interior e à teoria da Iluminação.
Nesse sentido, chega-se à consciência uma multiplicidade de experiências, qualificadascomo conteúdo experimentado. Por isso, a significação está relacionada a uma lógica domundo ambiente, situado em contexto real e efetivo, responsável pela constituição daconsciência do sujeito que conhece o seu mundo. A objetividade fenomenológico-hermenêutica está, então, em conceber simultaneamente o homem como sujeito quepertence a um contexto objetivo, efetivamente histórico (HEIDEGGER, 1995; p.198). Essetipo de experiência