Para realizar o processamento e a avaliação dos dados obtidos, foi utilizada a técnica do Discurso do Sujeito Coletivo (DSC) (65) que tem por objetivo organizar e tabular os dados qualitativos de natureza verbal, obtidos dos depoimentos dos entrevistados.
De acordo com Lefèvre e Lefèvre (66), quanto à técnica empregada, a metodologia do DSC é definida por seus criadores como
O DSC consiste, então, numa forma não-matemática nem metalinguística de representar (e de produzir), de modo rigoroso, o pensamento de uma coletividade, o que se faz mediante uma série de operações sobre os depoimentos, que culmina em discursos-síntese que reúnem respostas de diferentes indivíduos, com conteúdos discursivos de sentido semelhante.73
E Lefèvre, Crestana e Cornetta (67) acrescentam
O Discurso do Sujeito Coletivo é uma modalidade de apresentação dos resultados de pesquisas qualitativas, que tem depoimentos como matéria prima, sob a forma de um ou vários discursos-síntese escritos na primeira pessoa do singular, expediente que visa expressar o pensamento de uma coletividade, como se esta coletividade fosse o emissor de um discurso.74
Assim, o DSC apresenta os resultados de pesquisas qualitativas possibilitando expressar o pensamento de uma coletividade investigada, como se esta coletividade fosse o emissor de um discurso. Para o entendimento direto e resumido sobre essa técnica tem-se, mais uma vez, conforme seus autores (68) que o
O DSC como técnica consiste em uma série de operações sobre a matéria- prima dos depoimentos individuais ou de outro tipo de material verbal (artigos de jornais, revistas, discussões em grupo etc.), operações que redundam, ao final do processo, em depoimentos coletivos, ou seja, constructos confeccionados com estratos literais do conteúdo mais significativo dos diferentes depoimentos que apresentam sentidos semelhantes.75
Segundo os autores da metodologia (66), para a utilização desta técnica, que possibilita resgatar o sentido das opiniões das coletividades e formar os DSCs, ela constitui-se em um processo que deve ser efetuado por uma série de operações realizadas sobre este material, sendo necessários quatro operadores/operações:
73
Lefevre, Lefevre, 2005, p. 25.
74
Lefèvre, Crestana, Cornetta, 2003, p. 70.
75
Expressões-Chave (E-Ch), que são trechos selecionados no material de cada depoimento verbal dos entrevistados, e que melhor descrevem o seu conteúdo.
Ideias Centrais (ICs) são fórmulas sintéticas que descrevem os sentidos presentes nos depoimentos, tanto individuais quanto nos conjuntos de depoimentos, que apresentam sentido semelhante ou complementar.
Ancoragens (ACs), também são fórmulas sintéticas que descrevem as ideologias, os valores e as crenças presentes nos depoimentos, individuais ou de um conjunto destes, sob a forma de afirmações genéricas destinadas a enquadrar situações particulares. De acordo com esta metodologia, somente quando os depoimentos apresentam marcas discursivas dessas afirmações genéricas, existirão ACs.
Discursos do Sujeito Coletivo (DSCs), são a reunião das E-Ch presentes nos depoimentos apresentados, e que possuem ICs e/ou ACs com sentido semelhante ou complementar.
Esta técnica consiste na seleção de uma “Expressão-Chave”, que são os trechos mais significativos das respostas individuais, apresentadas pelos entrevistados para cada questão da entrevista. Cada uma destas Expressões Chave terá uma Ideia Central correspondente, que apresentará a síntese do conteúdo discursivo manifestado nesta Expressão Chave. Com o material das Expressões Chave, de cada Ideia Central, torna-se possível construir o discurso-síntese, que são os DSCs, em que aparecerão o pensamento de um grupo ou de uma coletividade como se fosse um discurso individual, escrito na primeira pessoa do singular. Resumidamente, conforme apresenta o Instituto de Pesquisa do Discurso do Sujeito Coletivo (69):
O Discurso do Sujeito Coletivo ou DSC é isso: um discurso síntese elaborado com pedaços de discursos de sentido semelhante reunidos num só discurso. ... Em uma palavra, o DSC constitui uma técnica de pesquisa qualitativa criada para fazer uma coletividade falar, como se fosse um só indivíduo.76
76
Segundo os autores (66), esta técnica consiste basicamente em analisar o material verbal coletado em pesquisas que tem depoimentos como sua matéria prima, extraindo-se de cada um deles as Ideias Centrais ou Ancoragens e as suas correspondentes Expressões Chave; com as Ideias Centrais/Ancoragens e Expressões Chave semelhantes será produzido um ou vários discursos-síntese que são os Discursos do Sujeito Coletivo.
Após a realização das entrevistas e a sua transcrição, os depoimentos dos entrevistados foram lidos e analisados individualmente, buscando identificar as Expressões Chave e Ideias Centrais para cada uma das respostas de cada entrevista. Cabe ressaltar que neste processo foram analisadas todas as respostas de cada entrevistado, ou seja, se buscou identificar as Expressões Chave e Ideias Centrais de todas as respostas para todas as questões da entrevista do primeiro entrevistado, para depois se iniciar o processo com o seguinte e assim sucessivamente, até se chegar o último entrevistado.
Terminada esta fase, passou-se para o momento de inserção das respostas, Expressões Chave e Ideias Centrais no sistema que auxiliou no processo de codificação e análise. Assim, inseriu-se os dados no Qualiquantisoft, um software de apoio a pesquisas qualiquantitativas, com base na teoria Discurso do Sujeito Coletivo.
Nesse processo, optou-se pelo não aprofundamento da análise em Ancoragens, visto que não houve a intenção em um aprofundamento nas representações, crenças e valores dos entrevistados sobre os temas abordados, mas sim em buscar a percepção dos sujeitos acerca dos temas propostos na pesquisa, que usualmente surgem em sua realidade de trabalho separadamente e não em conjunto.
Com os dados já inseridos no sistema, foi possível identificar as Expressões Chave e Ideias Centrais similares e complementares, agrupando-as em categorias, criadas ao longo deste processo, que as melhor descrevessem e permitindo, desta forma a transformação das respostas apresentadas individualmente em um discurso único para o coletivo de entrevistas de uma mesma categoria de resposta. Assim, com o auxilio do software Qualiquantisoft, além de facilitar o processo de categorização das respostas e desenvolvimento dos DSCs, permitiu que se chegasse aos dados qualitativos da investigação.
Assim, com os dados processados no sistema e os resultados compilados, foi possível passar para a fase de análise, em que os resultados da pesquisa são apresentados e debatidos com os conceitos e teorias apresentados na revisão da literatura. Os resultados, tanto qualitativos quanto quantitativos, assim como sua análise serão apresentados no capítulo a seguir.
6 RESULTADOS E DISCUSSÕES
A Promoção da Saúde, desde a sua disseminação como uma nova estratégia que busca melhorar a saúde da população e da comunidade, tem buscado alternativas para que esta proposta se efetive de fato. Durante o seu processo de debate e maturação, verificou-se algumas possibilidades para a sua efetivação, entre elas podemos destacar a implementação de um novo modelo de atender a saúde da população, por meio da Atenção Primária ou Básica, que no Brasil se consolidou com os programas de Agentes Comunitários de Saúde e Saúde da Família. Outro ponto destacado na Promoção da Saúde, diz respeito à comunicação e à informação, como instrumentos de apoio e complemento, na busca de propiciar o debate, tanto nacional, quanto internacional sobre esta nova proposta, com a possibilidade de troca de experiências, criação de parcerias e, o mais importante, de levar informação e conhecimento sobre a saúde para as pessoas, para torná-las sujeitos ativos de suas vidas, podendo assim optar por práticas saudáveis.
Mas para que esta proposta se realize na prática, torna-se necessário investigar os campos envolvidos, a comunicação e a saúde, e mais especificamente a promoção da saúde, assim como entender como os profissionais de saúde entendem os seus conceitos e a forma como os utilizam em suas práticas de trabalho. Nesta investigação buscou-se compreender como uma das categorias destes profissionais, no caso os ACS, compreendem a Promoção da Saúde e a Comunicação em Saúde, quais as práticas por eles adotadas de promover a saúde da população e as possíveis inter-relações existentes. Neste sentido, após a realização da pesquisa de campo junto a um grupo de ACS do Distrito Federal, apresentamos a seguir os resultados obtidos com esta investigação.
Com base no resultado das entrevistas realizadas junto aos ACS das UBS de Samambaia e São Sebastião, disponibilizado no banco de dados criado por meio do software Qualiquantisoft, foi possível organizar as respostas apresentadas, destacar as expressões-chave, definir as ideias centrais e agrupar as respostas em categorias e, desta forma, chegar aos discursos do sujeito coletivo.
Para facilitar a apresentação dos resultados obtidos e a análise, para cada uma das questões das entrevistas realizadas, serão apresentados a seguir os dados quantitativos, na forma de gráficos, seguidos dos respectivos dados qualitativos com
a apresentação de cada uma das categorias das ideias centrais e seus respectivos discursos. As respostas foram separadas em três grandes grupos, dividindo-se as perguntas do roteiro de entrevista (Apêndice 3) de acordo com o tema abordado.
O primeiro grupo aborda a percepção dos ACS sobre promoção da saúde, apresentado nas respostas das perguntas 1 e 2, que buscaram identificar a definição dos ACS para promoção da saúde e quais as ações desenvolvidas por eles para alcançar este fim. Já o segundo grupo, que trata das percepções dos ACS sobre comunicação em saúde que, devido ao número de perguntas sobre o tema, foi divido em dois subgrupos, sendo que o primeiro trata das ações de comunicação, envolvendo as perguntas 3 e 8, que buscam identificar a definição dos ACS para ações de comunicação e para o processo de comunicação eficaz em saúde, respectivamente, e a pergunta 4, que visa identificar quais são as ações de comunicação desenvolvidas por eles. O segundo subgrupo trata de planejamento e qualificação, envolvendo as respostas apresentadas para as perguntas 5 e 6, buscando se conhecer como são definidas e planejadas as estratégias de comunicação utilizadas e o que os ACS fazem para melhorar as suas ações de comunicação para melhorar seu trabalho. E, finalizando, o terceiro e último grupo busca verificar a opinião dos ACS sobre a sua avaliação pessoal para o resultado do processo de trabalho desenvolvido por eles para melhorar a qualidade de vida da população, apresentado na pergunta 7 da entrevista.