T echnical background 2
2.2. Surface representations
Para o levantamento dos dados, selecionou-se alguns municípios do Pará e do Amazonas. Essa seleção deu-se por serem os maiores e mais desenvolvidos economicamente da região norte. Isso se tornou possível a partir do survey realizado, sendo fundamentado em Yin (2001). Então, identificou-se que as cidades selecionadas apresentavam indícios fortes, por meio dos RAI do IBAMA, de venda e consumo de AS. Outro critério foi o do acesso „fácil‟ de transporte viário para se chegar a tais municípios, reforçado também por Jupira e Anderson (1991), que afirmam ser o escoamento de comercialização de AS mais frequente via rodovias.
As cidades do estado do Pará investigadas e analisadas no decorrer da pesquisa foram Bragança, Cametá, Capanema, Castanhal, Paragominas, Santarém e Tucuruí. No Amazonas, Autazes, Cacau Pereira, Careiro, Iranduba, Itacoatiara, Novo Airão, Manacapuru, Presidente Figueiredo e Rio Preto da Eva. A localização desses municípios encontra-se plotada no Apêndice A.
Nas visitas às feiras-livres desses municípios, foi aplicado um questionário (Apêndice B) aos frequentadores, para verificar, em relação aos AS, o consumo, o destino, o motivo da compra, a procedência e a posse. Além disso, foi possível traçar o perfil social, como escolaridade, frequência de visita às feiras, naturalidade, local onde reside e sexo. No questionário aplicado, para questão dos AS, as perguntas foram „diluídas‟, para que o objetivo da pesquisa não fosse identificado.
dos feirantes, não raras vezes, se negam a participar de empreendimentos investigativos. E justificam alegando as ações repressoras acionadas pelas instituições federais que controlam essa questão. Precisamente, o IBAMA e a Polícia Federal são as mais atuantes na região.
Fez-se visitas às feiras-livres nos meses de julho a agosto de 2008. Cada feira-livre foi visitada uma vez única, para não haver sobreposição de entrevistas junto aos frequentadores, pois algumas feiras eram pequenas demais, possibilitando a sobreposição das entrevistas. Com isso, estabeleceu-se que em cada feira-livre se aplicasse 20 questionários. Note-se ainda que o objetivo desta metodologia não era quantificar a biomassa dos AS vendidos nas feiras-livres, e sim a tendência populacional em os adquirir. Estatisticamente, realizou-se uma análise descritiva de acordo com as respostas dadas pelos frequentadores ao questionário aplicado na pesquisa.
Relativamente às espécies consumidas nos estados do Pará e Amazonas, os dados obtidos nos questionários foram tabulados em termos de frequências absolutas por cidade e classe3 de AS consumidos em cada um dos estados. Os dados foram analisados em tabelas de contingência a partir de um teste de quiquadrado, com valores de α = 0,05. A partir disso, caracteriza-se os AS mais consumidos nas cidades dos dois estados. A mesma análise estatística foi utilizada para o destino da carne comprada, o motivo da compra, a procedência da carne e para as respostas em relação às compras de algum AS para criação.
Ainda com relação às feiras-livres, foi possível gravar algumas entrevistas com vendedores. Em tais entrevistas, aplicou-se o método qualitativo empregando observação assistemática. O mesmo implica na observação participativa, porém o investigador/entrevistador se „disfarça‟ para não ser identificado, afirma Dencker e Viá (2001). Conforme Bahia Júnior e Oliveira (2008, comunicação pessoal), que desenvolveram trabalhos similares em feiras-livres e aldeias indígenas da região norte, a técnica empregada é válida, porque, em geral, os feirantes e fregueses não colaboram com essa modalidade de pesquisa, pois receiam a repressão de parte de policiais/agentes do IBAMA.
A entrevista foi essencial para o desenvolvimento da pesquisa que subsidiou esta Tese. No entendimento de Selltiz et al. (1965), a mesma é positiva
em caso que se queira obter informações do que sabem, crêem, fazem ou fizeram, bem como as explicações referentes ao assunto pesquisado. Nesse caso, as informações obtidas de forma informal confirmaram a tendência de adquirir AS tanto para subsistência como para o comércio. Yin (2005) afirma que as entrevistas são uma das fontes de informações mais importantes para um estudo de caso.
Também, seguiu-se uma orientação metodológica de natureza antropológica. Por exemplo, no entendimento de Oliveira (1996), o ouvir há de ser efetivado de modo que se estabeleça entre o entrevistador e o entrevistado uma relação dialógica, ou seja, uma interlocução para uma construção melhor do conhecimento desejado. Além disso, Simonian (2007b) enfatiza que os registros visuais, bem como as fotografias sobre a realidade estudada, são importantes no processo de produção do conhecimento.
Neste ponto é de se ressaltar que no decorrer da pesquisa foi possível acessar os dados do IBAMA, tanto do estado do Pará como do Amazonas. No entendimento de Günther (2006) e Medeiros ([19--)], esses têm tanto uma natureza documental, quanto quantitativa, e referem-se ao período entre 1999 a 2007. A partir dos dados que se inseriu no RAI (Anexo A), averiguou-se os valores da multa, os locais de atuação desse Instituto e as classes dos AS apreendidos.
No que diz respeito aos AS apreendidos que constam no RAI, realizou-se uma análise superficial, visto que os AS identificados pelos responsáveis do IBAMA, foram classificados em categorias taxonômicas elevadas, ou seja, não foram identificados enquanto espécie. Assim sendo, não foi possível identificar os AS registrados nos RAI do IBAMA para categoria taxonômica espécie, tanto no estado do Pará como do Amazonas. Com isso, os dados foram tabulados de acordo a frequência absoluta de citações por ano (1999 a 2007) e pela categoria taxonômica classe (peixes, répteis, aves e mamíferos) de AS apreendidos em cada uma das cidades dos estados, visto que os RAI são heterogêneos quando se trata de qualificação dos exemplares apreendidos pelo IBAMA.
A partir dos valores das multas aplicados pelo IBAMA, foi possível identificar se eles, ao longo dos anos de 1999 a 2007, coíbem a ilegalidade dos AS nos municípios. Para isso, tabulou-se a frequência absoluta referente às multas e ao consumo de carne de AS por classe nos estados do Pará e Amazonas. Já em relação aos locais de apreensão foi possível visualizar em quais municípios, tanto no estado do Pará como do Amazonas, há uma atuação maior do IBAMA. Para tal
visualização, realizou-se uma distribuição das cidades dos dois estados no mapa da região Norte, numa tentativa de identificar geograficamente a atuação do Instituto.
Por fim, em Portugal, realizou-se uma visita técnica ao ICNB, que trata das questões legais da biodiversidade lá. Dentre outras funções, identifica os AS oriundos do Brasil que entram ilegalmente em Portugal. Desse modo, a visita teve como objetivo identificar quais AS brasileiros se exportou ilegalmente do Brasil para Portugal entre os anos de 1999 a 2008. Assim, averiguou-se se os AS exportados para Portugal são os mesmos explorados ilegalmente nos estados do Pará e Amazonas, e se estão presentes na lista de espécies ameaçadas de extinção fornecida pela SEMMA, colaborando de maneira informativa para a questão. A visita a Portugal se deu pelo motivo de esse país ser o colonizador do Brasil, e por isso impor hábitos de exploração de AS em todo território brasileiro.