A versatile scene model with differentiable
4.4. Pose optimization
4.5.3. Marker-less human motion capture
No início do século XVI, Sick (1997a) informa que a Europa passou a explorar os continentes por meio dos viajantes que se sentiam orgulhosos de retornarem com animais desconhecidos, para comprovar o encontro com novos continentes. Coelho (1990) relata que em 1500, dez dias após o „descobrimento‟ do Brasil, uma das 13 caravelas retornou á Portugal com amostras de riquezas naturais aqui encontradas, dentre elas, aves de plumagens exuberantes. Nesse sentido, segundo Hagenbeck (1910), o comércio de AS se desenvolveu paralelamente ao crescente interesse dos portugueses pelos AS brasileiros, porque eles aqui capturados constituíam-se em atrativos ao público das ruas das cidades européias, onde eram expostos e comercializados.
Autores como Kavanagh (1987), Kleiman et al. (1996) e Polido, Oliveira (1997) informam que, nesse mesmo século, macacos sul-americanos já eram encontrados como animais de estimação nas residências da Inglaterra. E, pelas análises demonstradas por esses autores, esses animais se constituíam em símbolo de riqueza, poder e nobreza, conferindo status ao seu proprietário, perante a sociedade européia. Segundo Ferreira (2000), após a ocupação dos europeus no Brasil, a fauna brasileira, explorada pelos povos indígenas, para a subsistência, ou para eventuais xerimbabos, passou a ser predatória, sem nenhum critério, objetivando apenas o lucro comercial.
O contato dos povos indígenas brasileiros com os europeus, durante a colonização, mudou inevitavelmente sua relação com o seu ecossistema, Eles começaram a explorar intensivamente os recursos naturais e, em certos casos, passaram também a ser agentes predadores, conforme Diegues Júnior (1980) e Seeger (1982). Isso é evidenciado no trabalho de Spix e Martius (1881), em viagem pelo Brasil, no início do século XIX, os quais relataram que se depararam com índios Xavantes, ao longo do rio Tapajós, realizando trocas de mercadorias com os viajantes, permutando caça, mel e cera de abelhas e penas de aves, por artigos de ferro e aguardente.
Outro fator que contribuiu enormemente com a questão foi a expansão industrial na Europa, em meados do século XVIII, que culminou na Revolução
Industrial. Esse processo determinou alterações severas na relação dos seres humanos com a natureza, principalmente com a fauna, afirma Mirra (1994). Nesse sentido, Robinson, Redford e Bennett (1999) afirmam que o direito de caçar é natural dos seres humanos, prática desenvolvida ao longo dos tempos em decorrência de pressões sociais, geográficas, políticas, morais e econômicas dos povos que habitm o planeta.
Polido e Oliveira (1997) indicam que, por volta de 1830 e 1850, os indígenas e caboclos brasileiros, além de caçarem para a subsistência, comercializavam pele e animais vivos. Dentre os animas, estavam principalmente peixes, macacos, aves e borboletas. Para Ávila-Pires (1972), Aveline e Costa (1993), foi a partir de meados do século XIX que se iniciou a exploração comercial da fauna brasileira que, pela sua diversidade imensa, alimentava a idéia de ser abundante e inesgotável.
Nos anos de 1895 e 1896, o naturalista e zoólogo Emílio Goeldi encaminhou duas representações para protestar, junto ao governo da província do Pará, a matança de garças (Egretta sp.) e de guarás (Eudocimus ruber) na ilha do Marajó. Polido, Oliveira (1997) e Rocha (1995) afirmam que esses animais tinham suas penas utilizadas em adornos de chapéus femininos. Então, havia a exportação desses produtos principalmente para a Europa e para a América do Norte.
Para se ter uma idéia de quantos animais foram exportados, Sick (1997a) informa que, no ano de 1932, mais de 25 mil beija-flores (Trochilidae) foram mortos no estado do Pará, para exportação das penas, para a Itália, que as utilizavam como enfeites em caixas de bombons. Em 1964, foi importado um canhão francês para atirar em bandos de marrecas (Anseriformes) na Amazônia, resultando em aproximadamente 600 mil dessas aves mortas em apenas uma única fazenda do estado do Amapá.
Para Santos (1992) e IBAMA (1996), a herança cultural herdada dos povos indígenas pela população brasileira, mantém o hábito de criar AS para a estimação (Fotografia 2). Como posto por Casotti e Vieira (1991), tal realidade alvejou principalmente as aves canoras,9 o que permite a manutenção desses
9 Aves da ordem Passeriformes. O grupo é bastante numeroso e diversificado, com cerca de 5400 espécies o que representa metade do total de aves. Geralmente, os passerídeos são aves de porte
animais por amor ou hobby, e um volume grande do comércio ilegal.
Fotografia 2: AS servindo como animais de estimação por população tradicional da Amazônia. Fonte: SIQUEIRA MENDES, 2006.
Culturalmente, os AS também eram idealizados pelas populações indígenas em seus mitos, lendas e superstições, presentes no folclore brasileiro, como também em canções, danças e nas obras de arte, afirmam Andrade (1993) e Diegues Júnior (1980). Além disso, complementam Carvalho (1951), Cascudo (1973) e Spix e Martius (1981), que os índios „domesticavam‟ espécimes de AS sem qualquer função útil, apenas para simples diversão doméstica. Porém, Musiti (1989) ressalta que a utilização de AS por algumas tribos indígenas, se fazia com certos critérios, como por exemplo, o não abatimento de aves fêmeas, “grávidas” ou animais em idade reprodutora, sem ameaçar a sobrevivência da espécie.
Spix e Martius (1981) afirmam que, no início do século XIX, a cidade do Rio de Janeiro foi um pólo comercial de AS, onde se ofereciam nos mercados cariocas, aos europeus, peixes, tartarugas, papagaios etc. No final do século XIX, a exportação da fauna brasileira e de seus produtos foi sistematizada pelo comerciante alemão Carl Hagenbeck que culminou em um processo de extermínio de várias espécies, somente para atender ao mercado europeu, complementa Hagenbeck (1910). Um exemplo bom é o caso dos beija-flores que, segundo Fitzgerald (1989), Paiva, (1945), Redford (1992) e Sick (1997a), eram exportados aos milhares, para abastecerem a indústria de moda européia, assim como também,
pequeno, canoras, com alimentação baseada em sementes, frutos e invertebrados (MARINI; GARCIA, 2005).
taxidermizados para ornamentação das salas das residências.
Giulietti et al. (2005) afirmam que as espécies de fauna e flora brasileiras constituíram-se em interesse de estudo de historiadores naturais europeus, cujo principal objetivo era inventariar a exploração deste patrimônio natural. Em decorrência da ação antrópica, para Martins e Santos (1999), várias espécies foram extintas e muitas ainda estão por ser, e, isso representa grande perda da potencialidade natural, principalmente quando se trata da biodiversidade da Amazônia.
Ferrão (2005) exemplifica o exposto acima a partir dos documentos enviados por Alexandre Rodrigues Ferreira ao Rei de Portugal datado de 02 de março de 1785 até 04 de junho de 1788. Esses documentos relacionam todos os produtos naturais dos três reinos: animal, vegetal e mineral da época (Fotografia 3). Do reino animal nesses anos, foram coletados 2.814 animais, os mais frenquentes cágados e tartarugas (498), e peixes (378). A seguir algumas espécies coletadas na sua expedição: (Aratinga fuscus (Muller, 1776), Aratinga solstitialis solstitialis,
Bradypus tridactylus, Cuniculus paca (Linnaeus, 1758), Didelphis marsupialis
(Linnaeus, 1758) (Figura 3).
Fotografia 3: Exemplar de documento enviado em 1798 ao Rei de Portugal por Alexandre Rodrigues Ferreira contendo descrição da remessa de fauna brasileira. Fonte: Cortesia do Museu Nacional de História Natural de Lisboa (MNHN).
Figura 3: Animais desenhados à mão decorrentes da expedição da Alexandre Rodrigues Ferreira ao Brasil (Aratinga fuscus, Aratinga solstitialis solstitialis, Bradypus tridactylus, Cuniculus paca,
Dasypus sp. e Didelphis marsupialis. Fonte: Cortesia do MNHN.
Redford (1992) comenta que, a partir da caça de AS para subsistência, seres humanos recorreram à fauna para outras finalidades. Exemplar nessa direção é o uso de couro para vestimentas, ossos e dentes para usos diversos e/ou corno talismãs. Também, passou-se a adestrar animais para tê-los como de estimação,