• No results found

2.1 Representationalism

2.1.2 Supervenience scrutinized

“Considera-se a sensação como a maneira pela qual sou afetado, entendendo-a como única para cada observador, e depende da interpretação das suas impressões das 'qualidades' do mundo, tanto físicas, quanto sensíveis. Enquanto que o processo de percepção se pauta em uma interpretação mental do que vivenciamos.” (Maurice Merleau-Ponty)

42

N

ossa percepção é de certa forma cumulativa, pois agrupamos

experiências alterando o que vemos como objeto. Assim, as possíveis sensações que relacionamos ao objeto dependerão da nossa vivência, e por este motivo, acrescenta-se à discussão já intro- duzida acerca das noções de percepção fenomenológica, a relevância e influência das circunstâncias sociais, traduzidas a partir da noção de memória coletiva do lugar. Com o objetivo de evidenciar a presença de condicionantes sociais ou ainda de uma memória coletiva sobre nossas impressões, deve- se considerar que as principais características da maioria de nossas apreensões cotidianas estão estreitamente relaciona- das com nossa experiência pessoal, ou seja, uma série de experiências que reunimos desde a infância, tal como defendido pelo arquiteto Peter Zumthor: “As memórias […] contêm as vivências arquitetônicas mais profundas que conheço. Constituem a base de ambientes e imagens arquitetônicas que tento explorar no meu trabalho como arquiteto”. (ZUMTHOR, 2005).

Igualmente, fazendo referência à memória da infância, incluem-se os estudos de Maurice Halbwachs (1877-1945), sociólogo francês, cuja obra de maior reconhecimento cuida do conceito de memória coleti- va. Sua contribuição se concentra na figura do indivíduo que lembra, compreendendo-o como um indivíduo inserido e habitado por grupos de referência. (HALBWACHS, 2006)

[...] “A vida de uma criança mergulha mais do que se imagina nos meios sociais pelos quais ela entra em contato com um passado mais ou menos distanciado, que é como o contexto em que são guardadas suas lembranças mais pessoais. É neste passado vivido, bem mais do que no passado apreendido pela história escrita, em que se apoiará mais tarde a sua memória”.

(HALBWACHS, 2006, p.90).

Faz-se necessário explorar o significado dos grupos como condição para a construção da memória, pois, segundo Halbwachs, o grupo de referência é um grupo do qual o indivíduo já fez parte e com o qual es- tabeleceu uma comunidade de pensamentos. A vitalidade das relações sociais do grupo garante vitalidade às imagens, que constituem a lem- brança, portanto, a lembrança é sempre fruto de um processo coletivo e está sempre inserida num contexto social preciso.

43

em reconhecimento, uma vez que se trata do sentimento ‘já visto’, e reconstrução, no sentido de um resgate de acontecimentos e vivências, levando em conta um quadro de preocupações e interesses atuais. Acredita-se ainda que o primeiro nível de testemunho ao qual o indivíduo tem acesso se dá na relação consigo mesmo, confrontando uma visão atual com as experiências vividas no passado ou com opiniões formadas anteriormente, com o apoio de depoimentos de outros. Um segundo nível, abrange a esfera do diálogo entre o indivíduo e um outro presente fisicamente ou internalizado. Neste sentido, o trabalho da memória pode ser compreendido como o confronto dos diferentes pontos de vista que coabitam no indivíduo. Dessa forma, depreende-se a impossibilidade de uma memória exclusivamente ou estritamente individual, podendo ser entendida como um ponto de convergência de diferentes influências sociais.

Em vista disso, a memória coletiva, para Halbwachs, também desem- penha um papel fundamental nos processos históricos, pois atribui vitali- dade aos objetos culturais, sublinhando momentos históricos significativos e, portanto, preservando o valor do passado para os grupos sociais. Os parâmetros apresentados podem contribuir para o debate subsequente, em torno de uma fenomenologia do conhecimento que considere a condição corpórea e sensível do ser humano na análise arquitetônica.

Define-se cultura através do conjunto de atividades de um determinado agrupamento humano, conjuntamente relacionada ao seu sistema de crenças e valores, sua forma de intermediação com a realidade e com o mundo. Aproximando esta discussão do campo da arquitetura, nota-se que quando falamos sobre materialização de um domínio étnico, e da concretização de uma cultura, estamos cuidando do potencial de impreg- nar significados ao espaço através da expressão arquitetônica.

Em experiências memoráveis de arquitetura, o espaço, a matéria e o tem- po se fundem em uma dimensão única. Diante da orientação arquitetôni- ca colocada, depreende-se que espaço não se configura previamente como um campo neutro e que seu sentido religioso implica em uma mo- bilização específica da memória coletiva, encontrada nas estruturas, na organização, na linguagem e nas práticas cotidianas das sociedades. Por isso, bem como a experiência adquirida, a memória, torna-se fundamen- tal para a percepção de mundo, nos convocando a utilizar nossa experiên- cia passada, para uma assimilação atual.

44

“A experiência mais vasta e possivelmente mais importante que se pode ter da arquitetura é a sensação de estar em um lugar único. Uma parte dessa intensa sen sação do lugar é sempre a impressão de algo sagrado: este lugar é para seres superiores. Uma casa pode parecer construída para ter uma finalidade prática, mas, na realidade, é um instrumento metafísico, uma ferramenta mítica com a qual tentamos dar à nossa exis- tência passageira um reflexo de eternidade.”

45

PARTE II