O conceito de resiliência apareceu em dois textos recuperados a partir dos descritores “Psicologia, Sistema Único de Saúde”; “Psicologia, Estratégia Saúde da Família” e “Psicologia, Saúde, Família”, um número bastante reduzido como pode ser visualizado no gráfico abaixo.
O primeiro deles trata-se das crenças dos agentes comunitários de saúde a respeito da resiliência de famílias monoparentais de baixa renda. (YUNES, GARCIA, ALBUQUERQUE, 2007). O segundo diz respeito à “encontros transformadores” que promovem a resiliência entre moradores de rua e profissionais. (ALVAREZ, ALVARENGA, DALLA RINA, 2009).
Yunes e cols (2007), em pesquisa com agentes comunitários de saúde identificaram que os mesmos apresentam crenças pessimistas em relação às famílias monoparentais pobres, caracterizando-as como desestruturadas e acomodadas à situação de pobreza. Os profissionais apresentaram crenças pessimistas também sobre a capacidade destas em serem resilientes. Aqui a resiliência é entendida como os “processos que explicam a superação de adversidades” (p. 444) e a sua origem é atribuída à física. As autoras constataram a importância de transformar a percepção dos agentes comunitários de saúde, que trabalham diretamente com as famílias. Neste estudo a abordagem da resiliência é utilizada de uma maneira tradicional, baseada nos conceitos de fatores de risco e fatores de proteção. A sua maior contribuição parece ser a de revelar que as crenças pessimistas de profissionais à respeito de famílias pobres incluem também as crenças dos agentes comunitários de saúde, profissionais que moram nas mesmas regiões das famílias. Outro estudo selecionado para análise demonstra que as crenças pessimistas parecem estar presentes em todas as categorias profissionais. Blanques (2011) em entrevistas com profissionais da Estratégia Saúde da Família, constatou que a concepção dos mesmos à respeito das pessoas da população é através
Figura 11: Presença do elemento resiliência Fonte: Dados da pesquisa
Sim Não
do estereótipo de carentes, “o que implica em relação de ajuda como preenchimento das carências em uma identificação/empatia com a dor de não ter.” (p. 825).
As crenças negativas à respeito das famílias de classes populares, que parecem ser decorrentes do desconhecimento sobre as suas múltiplas formas de organização, foi descrita por Fonseca (2006), que afirma que grande parte dos estudos feitos sobre grupos familiares populares enfatizam as faltas, carências e aspectos negativos, acreditando que existe um sensacionalismo sobre a questão da pobreza, especialmente sobre as crianças pobres. Segundo a autora, ainda hoje é feita uma cadeia de associações, onde a criança pobre é igual a menino de rua e este é igual a menor infrator ou criança abandonada. Percebe-se que através desta perspectiva os aspectos positivos parecem inexistentes, como afirma Fonseca (2006):
quando se volta o olhar para o contexto social de onde a criança saiu, é para procurar 'causas', invariavelmente psicológicas, que explicam 'por que ela se deu mal'. As famílias, vizinhanças e redes sociais destas crianças são rotuladas de antemão de 'patológicas', 'desorganizadas' - de influência nociva. (p. 13).
O segundo estudo que trata do tema da resiliência (ALVAREZ, ALVARENGA, DALLA RINA, 2009), traz contribuições importantes. Ele demostra o potencial do conceito para direcionar ações com populações em situações de exclusão, afastando-o de abordagens relacionadas à psicopatologia e a psiquiatria às quais as abordagens tradicionais que tratam do conceito de resiliência estão relacionadas. O estudo traz contribuições para nossa proposta de ressignificação do conceito para atender às demandas do complexo campo da saúde, colocando em evidência o papel do afeto para fortalecer a resiliência dos indivíduos.
Alvarez, Alvarenga, Della Rina (2009) definem a resiliência como “a capacidade humana de fazer frente às adversidades da vida, superá-las e sair delas fortalecidos e, inclusive, transformados.” (p. 259). O “encontro transformador” é definido pelas autoras como “interação entre os seres humanos que possibilita a transformação dos envolvidos, no sentido de despertar suas potencialidades, a retomada do sentido da vida, promovendo-lhes a resiliência.” (p. 259). No contexto do estudo citado, o “encontro transformador” acontece entre moradores de rua e de professoras aposentadas, porém as contribuições do estudo podem ser utilizadas no contexto de usuários e profissionais de saúde.
de interação entre as partes envolvidas, baseada em Ágape, que é definido como “amor às outras pessoas humanas, amor ao próximo.” (BOLTANSKI, 1990 apud ALVAREZ, ALVARENGA, DALLA RINA, 2009). No caso das professoras, elas foram consideradas como “outro significativo” ou “próximo devotado”, inspiradas em Winnicot, e como portadoras das características do amor Ágape, como definidas por Boltanski, por conseguirem se aproximar dos moradores de rua, aceitando-os como eram e não como gostariam que fosse, os amando e se adaptando para atender às necessidades deles. Desta forma, os moradores sentiram-se incondicionalmente aceitos, acolhidos, cuidados e iniciaram seus processos de transformação, de despertar de suas potencialidades. A importância da empatia é evidenciada:
Trata-se de compreender com a outra pessoa [...] É necessário deixar tudo de lado, menos nosso senso de humanidade, e somente com ele tentar compreender com a outra pessoa como ela pensa, sente e vê o mundo ao seu redor. Significa nos livrarmos de nossa estrutura interna de referência, e adotar a do outro. A questão não é discordar ou concordar com ele, mas compreender o que é ser com ele. (BENJAMIN, 1988, apud ALVAREZ, ALVARENGA, DELLA RINA, 2009, p. 265).
A aceitação do outro também é considerada fundamental para a transformação:
Esta (a professora), aceitando-o tal qual ele se apresenta, abrindo-lhe um lugar em si mesma, o faz sentir-se banhado nessa aceitação incondicional, incomensurável. Sentindo-se livre, sem cobranças, o morador de rua confia naquela que ali está, abre- se ao encontro no espaço potencial, espaço da confiança. Sob o influxo dessa liberdade, dessa aceitação, ele se abre para o movimento que o levará ao inventário de seus próprios atos (ALVAREZ, ALVARENGA, DELLA RINA, 2009, p. 267).
Podemos relacionar o “encontro transformador” com o momento do Trabalho Vivo em Ato (MERHY, FRANCO, 2003), ou seja, o trabalho no momento em que é produzido, aonde o papel das relações é mostrado como fundamental para a produção do cuidado em saúde e o vínculo com os usuários ocupa papel central rumo à integralidade no cuidado.
A partir destes textos podemos identificar que o conceito é utilizado em abordagens mais tradicionais, baseado nos fatores de risco e de proteção, mas o segundo estudo confirma que exietm outras possibilidades para a utilização do conceito, que vão ao encontro das diretrizes do SUS. Os encontros transformadors aproximam-se do Trabalho Vivo em Ato e a importância destes encontros demonstrada por Alvarez, Alvarenga, Della Rina (2009) pode confirmar o papel central que o Trabalho Vivo em Ato deve ocupar. A relevância destes
encontros transformadores e a forma como eles produzem importantes transformações nos indivíduos nos mostra que talvez possamos falar de amor ao nos relacionarmos com os usuários.