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Dentre as diferentes variantes do espanhol, selecionamos três para o estudo da oposição dos pretéritos. Centramos nossa investigação em três centros urbanos, pertencentes a três diferentes variantes, a saber: Madri, Cidade do México e Buenos Aires, que fazem parte, respectivamente, das seguintes áreas geoletais: área castelhana, área mexicana/centro-americana e área rioplatense/do Chaco (Moreno Fernández, 2000).

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HURTADO GONZÁLEZ, Silvia. El perfecto simple y el perfecto compuesto en el español actual:

Acreditamos que seja importante fazer uma síntese não apenas de algumas idéias e questões relacionadas ao emprego e à diferença entre os pretéritos simples e composto, mas também revisar as explicações que se tem dado a respeito da oposição dessas formas verbais de passado em cada um dos centros urbanos em estudo.

2.1.4.1 O uso dos pretéritos no espanhol castelhano

Sobre o uso dos pretéritos no espanhol peninsular, Cartagena (1999), diz que tanto o simples como o composto têm em comum o fato de que indicam uma relação de anterioridade com respeito ao momento da fala, ambos indicam ações perfeitas, terminadas antes do momento da fala. A diferença está no fato de que a forma simples indica a mera anterioridade com relação ao momento da fala, do qual se separa constituindo um âmbito próprio no passado, diferente da atualidade do falante, enquanto que a forma composta, indica a anterioridade dentro do âmbito do presente, pertencendo, portanto, à atualidade do falante.

De acordo com Penny (2000), no espanhol estándar peninsular, e na fala espontânea do nordeste, do centro e do sul da península, a principal oposição aspectual entre os pretéritos está na percepção do falante da conexão entre a situação passada descrita e o momento da fala. Se o falante deseja expressar que a situação passada que menciona pertence a um período de tempo diferente do momento em que está falando, então emprega o pretérito simples. No entanto, se deseja expressar que a situação de passado pertence ao período de tempo que, no momento da comunicação, é ainda atual, então recorre ao pretérito composto.

Acrescenta ainda que, a questão da atualidade ou não-atualidade do período de tempo pode explicitar-se mediante circunstâncias temporais que aparecem na oração, porém, a presença destas não é obrigatória e as formas verbais podem expressar por si só as duas maneiras em que o falante escolhe dividir mentalmente o tempo passado. Também se deve levar em conta que a aproximação da situação de passado com o momento da fala não é o critério que determina a escolha entre o simples e o composto, uma vez que, por um lado, uma situação passada muito recente pode ser considerada que ocorreu em um período de tempo separado do momento da fala, e por outro lado, o falante pode julgar que o período de tempo em que tem lugar o ato de fala se estende indefinidamente em direção ao passado e incluir situações que começaram há muito tempo.

Hurtado (1998), afirma que os pretéritos simples e composto coincidem em significar acontecimentos anteriores ao momento do falante, somente que as respectivas ações passadas que significam, além de que se podem situar em pontos diferentes do eixo temporal, não guardam a mesma relação com o presente.

É importante ressaltar que, embora a maioria dos autores, implícita ou explicitamente, reconheça para a oposição dos pretéritos, na norma castelhana, a relação da ação passada com o momento presente, com o agora enunciativo, a relação que um passado guarda com o presente não necessariamente é proporcional à distância cronológica que o separa do momento da enunciação, em outras palavras, uma ação passada pode ter relação com o presente ainda que, cronologicamente, esteja distante.

2.1.4.2 O uso dos pretéritos no espanhol mexicano

Assim como Alarcos, Moreno de Alba (1998) afirma que os pretéritos mexicanos se diferenciam do uso peninsular também quanto à sua relação com o momento presente, ou seja, podem ter circunstâncias temporais que incluam o momento presente sem que isso signifique que percam o seu caráter perfectivo. Afirma ainda que as circunstâncias temporais que mais freqüentemente acompanham o pretérito simples na variante mexicana são aquelas que situam a ação em um momento determinado.

O autor propõe uma subdivisão dos pretéritos, que excluem o agora do falante, em: (a) pretéritos semelfactivos, que se subclassificam em (a1) momentâneos ou de breve duração, (a2) incoativos, (a3) terminativos e (a4) durativos e (b) pretéritos iterativos.

Com relação ao pretérito composto, o autor afirma que, no espanhol mexicano, tem um uso determinado e próprio, diferente do pretérito simples. Citando Lope Blanch (1972), sustenta que a forma composta expressa ações durativas e imperfectivas, fenômenos que, embora iniciados no passado, se constituem no momento presente e ainda podem se projetar para o futuro. Para Lope Blanch (apud: Moreno de Alba, 1998), o aspecto do composto no espanhol mexicano é definitivamente imperfectivo. Além desse caráter imperfectivo, também se caracteriza aspectualmente por ser reiterativo, em oposição ao pretérito que é pontual e perfectivo. Temporalmente é ainda presente.

Segundo Moreno de Alba (1998), a característica principal do pretérito composto no uso peninsular é o seu valor temporal, a sua aproximação ao presente gramatical, ao presente ampliado. Tanto a forma canté como he cantado aspectualmente

são perfectivas, a diferença é temporal. Se a ação teve o seu limite, a sua conclusão no passado - remoto ou próximo - se usa o pretérito simples, se teve a sua perfeição no presente ampliado aparece o pretérito composto. Em ambos os casos há o valor perfectivo.

Por outro lado, no espanhol mexicano, a diferença é essencialmente aspectual. Se a ação é considera perfectiva se usa o pretérito simples, independentemente de que o limite da ação esteja situado no passado ou no presente ampliado. Se a significação verbal não é considerada como concluída, mas em processo, ou seja, se a ação ou série de ações, iniciada no passado, continua ou pode continuar no agora ou no futuro, usa-se o composto.

Como conseqüência da particular concepção do falante sobre perfeição e imperfeição, pode-se interpretar o pretérito composto mexicano não apenas aspectualmente imperfectivo, mas também temporalmente ‘não-pretérito’ (ainda presente).

No entanto, faz-se necessário precisar o caráter imperfectivo do composto no espanhol mexicano. De acordo com o autor, nem todos os compostos podem ser interpretados como imperfectivos da mesma natureza: alguns apresentam caráter plenamente imperfectivos, podendo ser chamados de imperfectivos atuais, outros, apresentam uma ação concluída, mas que pode ser repetida, podendo ser chamados, então, de imperfectivos habituais ou imperfectivos no sentido lato.

Uma consideração importante é o fato de que, assim como há casos do pretérito simples que também podem ser analisados como reiterativos, da mesma maneira há casos de composto que podem ser analisados como semelfactivos (terminados).

Para concluir, o autor diz que, devido ao uso peculiar dos pretéritos no México, e em geral na América, é natural que o pretérito composto tenha menor freqüência de uso que o simples. Em outras palavras, muitas das expressões que no espanhol peninsular aparecem no composto, manifestam-se no espanhol mexicano no simples, limitando assim o uso do primeiro. No entanto, isso não quer dizer que o composto seja uma forma em desuso, mas simplesmente que a sua função denotativa é diferente e o seu campo de atuação mais reduzido. Citando Lope Blanch (1972), isso não deve ser interpretado como uma confusão do uso “correto” do espanhol, mas como um resultado da evolução natural da língua.

2.1.4.3 O uso dos pretéritos no espanhol argentino

O diassistema verbal do espanhol dispõe de várias flexões que cobrem a seqüência do passado de diferente maneira e embora cada uma comporte valores inerentes que a diferenciam das demais, ao ser medida a temporalidade, são produzidas algumas alternâncias que, em razão de invadir áreas alheias, terminam por neutralizar seus traços temporais distintivos. Assim ocorre com o pretérito simples, que vai ganhando terreno sobre o pretérito composto e cujo avanço resulta verdadeiramente notável no espanhol argentino (Ferrer & Sánchez Lanza, 2000).

Segundo as autoras, embora a inclusão ou exclusão do agora do falante seja uma pauta determinante para a escolha de uma ou outra forma de passado, não é respeitada no uso, o que dá lugar a uma neutralização.

Em um trabalho que realizaram sobre a distribuição dos pretéritos no espanhol argentino, nos três níveis socioculturais analisados (alto, médio e baixo), foi registrado um número equivalente de pretérito composto que, em geral, excluíam o agora. O falante alude à época atual e, por isso, escolhe o composto que abarca seu momento de fala, talvez também selecione o composto por se sentir ainda afetado por algum acontecimento. No entanto, de acordo com Ferrer & Sánchez Lanza (2000), o mesmo falante, nas mesmas circunstâncias poderia ter usado o pretérito simples, estendendo a sua temporalidade até o agora, sem que mudasse o significado da mensagem.

O pretérito simples, por outro lado, sobressai pelo aspecto perfectivo e contrasta com o composto pela sua objetividade, que provém da sua localização no passado sem chegar ao momento da fala e o relaciona com outros acontecimentos passados. Nos três níveis socioculturais analisados (alto, médio e baixo), prevaleceu o pretérito simples de ação perfectiva com exclusão do agora. No entanto, também foram registrados outros valores, casos em que a dimensão do pretérito simples foi ampliada, o que levou à inclusão da enunciação. Essa extensão se produziu ou por um modo de ação imperfectivo, por circunstâncias temporais, por estar o pretérito simples ligado, no discurso, a um tempo presente ou por contextos de situação.

Confrontando o discurso peninsular com o argentino, as autoras afirmam que, enquanto que no primeiro existe a diferença temporal entre os passados, no último não se produzem diferenciações nem no plano temporal, nem no aspectual. Fica comprovado, assim, que a forma simples alterna com a composta em qualquer situação comunicativa.

Vale ressaltar que a forma simples, sem deixar de ser passado, pode cobrir também espaços do presente ampliado que abarca o agora do falante, de modo que talvez os valores temporais de ambas as formas resultem coincidentes. Este uso do simples é comum a toda a zona do litoral e assim, em Buenos Aires, por exemplo, observa-se um uso quase absoluto da forma simples, com neutralização do significado temporal. Embora o composto não se use com muita freqüência, isso não quer dizer que esteja desaparecendo, uma vez que ambas as formas gozam de vitalidade em diferentes situações.

Recorrer à história da língua, como vimos no tópico 2.1.2, pode ajudar a entender um pouco as diferenças anotadas no uso do pretérito composto. A forma composta foi invadindo paulatinamente o domínio do pretérito simples na norma peninsular. Do seu emprego meramente resultativo no âmbito do presente passa a designar ações concluídas no passado que recobrem certa importância para a atualidade do falante e ações concluídas imediatamente anteriores ao momento da fala. O que acontece na América é que a referida invasão de funções foi muito mais lenta, conservou-se o uso pré-clássico do pretérito para a expressão de ações concluídas imediatamente anteriores ao momento da fala, certamente com diversa intensidade regional (Cartagena, 1999).