A presença do teatro na Paraíba, no decênio 1954 - 1964, representava uma linha que partia da Porta do Sol (João Pessoa), subia a Serra da Borborema (Campina Grande), passava pela Rainha do Brejo (Guarabira) e findava no sertão, na “terra que ensinou a Paraíba a ler” (Cajazeiras). Em que pese a longeva existência das casas de espetáculos de Areia e Alagoa Grande, não foram localizados registros de atuação de grupos nessas cidades, no período citado. 135 Em Cajazeiras estava em funcionamento o grupo Teatro dos Amadores de Cajazeiras – TAC, fundado em 1953 e subsidiado pela sociedade local.
Em Guarabira, o teatro viveu a sua época áurea (EGYPTO, 1995), nos anos de 1950, com destaque para o clássico do repertório espanhol A Casa de Bernarda Alba, de Federico Garcia Lorca, e a adaptação do romance O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë.
Em Campina Grande, segundo Vieira (2009), foi implantada a Rádio Teatro Borborema, nos anos de 1950, responsável pela transmissão de radionovelas produzidas com elenco local. Posteriormente, os atores do rádio fundaram o grupo de teatro Os Comediantes, usando o homônimo do grupo carioca (aquele da montagem de Vestido de
132 Segundo o Dicionário de Teatro de Patrice Pavis (2007), esquete vem da palavra inglesa sketch, que
significa esboço. É uma cena curta que pode ser inspirada em um texto humorístico e satírico ou na vida contemporânea.
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Vide em Referências/Filmes e documentários.
134 Na área da criação cinematográfica, Linduarte Noronha (1930 – 2012), professor do Curso de
Comunicação da UFPB lançara, em 1960, as bases do Cinema Novo, com o documentário Aruanda, contribuindo para o surgimento de uma nova estética no cinema nacional, batizada por Glauber Rocha como Estética da Fome. Vide Aruanda/Terra sem pão, de GOMES (2008).
135 A cidade de Areia sedia o centenário Teatro Minerva desde 1859 e Alagoa Grande tem o Teatro Santa
Noiva, em 1943) e convidaram o pernambucano Raul Phryston para dirigi-los. Em 30 de novembro de 1963 o então prefeito Severino Cabral inaugurou o teatro que leva o seu nome. A iniciativa do administrador municipal influenciou o surgimento dos seguintes grupos, ainda naquele ano: Teatro Universitário Campinense (TUC) fundado por Wilson Maux, Milton Baccarelli e Walter Pessoa; grupo Raul Phryston fundado por Antonio Alfredo Câmara; Grupovo (depois grupo Cacilda Becker), fundado por Adhemar Dantas; e Grupo Experimental Várias Artes (GEVAR), fundado por Hermano José.
Em João Pessoa, os grupos de maior notoriedade e que legaram talentos para a posteridade são os seguintes: Teatro do Estudante da Paraíba (TEP) e Teatro Popular de Arte.
O TEP foi fundado em 1944, por iniciativa do professor Afonso Pereira, com objetivos artístico e pedagógico. Pereira (apud OLIVEIRA et all, 2010, p.45) acreditava que, “[...] através do teatro, um novo olhar configura e abre espaço para novas práticas e atuações, fazendo surgirem novos sujeitos.” Para a concretização de seu sonho, Pereira articulou-se com diversos setores da sociedade paraibana. A primeira diretoria do TEP era formada por professores, socialites, advogados, intelectuais e políticos, o que lhe conferiu um status de teatro destinado à elite. Seu repertório iniciou-se em 1942 e findou em 1982, com produções contínuas e intercaladas, totalizandotreze espetáculos. O teatrólogo Elpídio Navarro136 (apud, OLIVEIRA et al, 2010, p. 99) tinha a firme convicção de que o TEP não era um teatro “[...] somente para elite: havia boa aceitação da sociedade como um todo.” Mas, certamente, o público e o elenco do TEP não provinham dos bairros operários. Essa certeza está na fala do ator Pereira Nascimento (apud OLIVEIRA et al, 2010, p.102): “Então, era uma turma muito boa, eram pessoas da alta sociedade; moços da alta sociedade que faziam teatro conosco.”
O ator Ednaldo do Egypto, em entrevista a Rodrigues (2001, p. 265) também afirma que o Theatro Santa Roza não era um lugar para quem vivia à margem do centro de João Pessoa:
[...] quem nascia em Cruz das Armas, Torre ou Roger sofria o diabo das pessoas que moravam no centro da cidade. [...] Eu ia assistir a um filme no Plaza e esperava que se apagassem as luzes para poder me sentar. Tinha a impressão que todo mundo ia dizer “esse cara é de Cruz das Armas, dá uma vaia nele.” A mesma coisa foi no teatro. Eu tinha muita vontade de trabalhar no teatro. Passei
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Elpídio da Silva Navarro (1936-2012), paraibano, professor da UFPB e teatrólogo, foi diretor do Teatro Santa Roza e responsável pela encenação de diversos textos. Nos anos de 1970, escrevia sobre o teatro paraibano no Jornal O Momento.
cinco anos entre Cruz das Armas e o Theatro Santa Roza [nos anos 50...] procurando me aproximar de uma pessoa que conhecesse o porteiro, o vigia ou o diretor, para poder me dá essa oportunidade de fazer teatro. No meu entendimento, a distância entre Cruz das Armas e o Theatro Santa Roza137 era maior do que [da praça] do Ponto de Cem Réis para Hollywood.
De tanto contar estórias engraçadas na porta do Theatro Santa Roza, Egypto foi descoberto e convidado, em 1958, para o papel principal da peça Do tamanho de um defunto, de Millôr Fernandes, encenada pelo Teatro Popular de Arte, grupo fundado na década de 1950. Além de desenvolver um repertório de textos nacionais, o grupo tinha gana de realizar uma arte teatral que refletisse e discutisse o momento histórico em que o país estava mergulhado. Realizava trabalhos de educação popular na periferia de João Pessoa e nas áreas de atuação das Ligas Camponesas. Mantinha intercâmbio com o teatro do MCP, aquele que foi o sonho interrompido do ator Nelson Xavier. Do elenco participavam pessoas que fariam história não apenas no teatro paraibano, mas também no cinema, como Vladimir Carvalho e Zezita Matos138, e o artista plástico e cenógrafo Breno Matos. Os três eram militantes do Partido Comunista, fato que contribuiu para mudar suas vidas na década seguinte.
Nessa época, ainda não existiam na Paraíba cursos ou escolas de formação de atores, ao contrário da música.139 A preparação dos artistas desenvolvia-se na prática dos grupos e nas trocas de experiências, com elencos e diretores de outros Estados, durante festivais e intercâmbio. O Teatro Popular de Arte tinha dentre seus mestres, artistas do MCP, a exemplo do ator José Wilker (aquela época residente em Recife) e o diretor Luiz Mendonça. Já o Teatro do Estudante recebeu lições dos pernambucanos Valdemar de
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O Theatro Santa Roza, inaugurado em 1889, já nasceu censurado. Em 28 de janeiro, no lançamento da pedra fundamental da obra, o vigário negou à benção à obra porque se tratava de um lugar contrário aos sagrados “[...] cânones da igreja e à doutrina dos santos que se opõem e reprovam as casas de teatro.” (RODRIGUES, 1960).
138 Vladimir Carvalho e Zezita Matos tornaram-se consagrados artistas do cinema nacional. Carvalho é um
dos maiores documentaristas brasileiro com extensa filmografia, a exemplo de Conterrâneos velhos de guerra e Rock Brasília – a era de ouro. Zezita Matos, além de atriz de teatro, também atua no cinema nacional e foi premiada por sua atuação nos filmes Céu de Suely, de Karin Anouz e A História da Eternidade, de Camilo Cavalcanti.
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A primeira escola de música da Paraíba foi fundada em 1931 pelo maestro paraibano Gazzi de Sá (1901- 1981) com o nome de Instituto Superior de Educação Musical e era uma escola particular de nível universitário. Em 1952, foi integrada ao Governo do Estado, recebendo o nome atual, em homenagem ao governador Anthenor Navarro, grande apreciador da escola, falecido em 1931. Com a criação do Curso de Música na UFPB, na década de 1980, a escola perdeu a categoria de ensino superior e passou a preparar alunos em nível de 2º grau. Vide Escola de Música Anthenor Navarro na página da Fundação Espaço Cultural da Paraíba. Disponível em < www.funesc.pb.gov.br.>
Oliveira, fundador do Teatro dos Amadores de Pernambuco (TAP), em 1941, e do ensaiador Elpídio Câmara (do grupo Gente Nossa). Câmara foi o responsável pelo espetáculo de reabertura do TEPb, em 1961, com o texto Divino Perfume, de Renato Vianna (aquele que tentou modernizar o teatro brasileiro em 1922). O intercâmbio dos atores estudantes paraibanos com o TEB, de Paschoal Carlos Magno, traria um novo diretor à Paraíba na década seguinte.140
O II Festival Nacional do Teatro do Estudante, na cidade de Santos/SP em 1959, teve como convidados Cacilda Becker e seu TCB. No elenco, o ator e diretor Rubens Teixeira141 (2014, p. 2) que dois anos depois chegaria à Paraíba, através dos caminhos do coração de uma atriz paraibana.
[...] Mil estudantes assistiram a peça Maria Stuart de Schiller, tradução de Manuel Bandeira, toda em verso. Espetáculo primoroso [...]. Foi um sucesso entre os estudantes de todo o Brasil. Entre eles conheci as irmãs Córdula [do TEPb] e passei a me corresponder com Leda Córdula [...] Em dezembro de 1960 voltando da Europa, após temporada de um ano com o Teatro Cacilda Becker, resolvi descer em Recife e fui convidado por Hermilo Borba Filho e Alfredo de Oliveira a ingressar no teatro de Arena recém–inaugurado. Fiz uma temporada com eles de quatro peças no ano de 1960, tempo em que ficava noivo de Leda na Paraíba. [Casamos] no ano seguinte em dezembro de 1961, sendo padrinho de nosso casamento [...] Paschoal Carlos Magno.
E dessa forma, Teixeira veio aportar na Paraíba. Através de um edital da UFPB, passou a ser responsável pela implantação de um setor de teatro, no Departamento Cultural da instituição, recém-criado pelo Reitor Mário Moacir Porto. Nascia, assim, o Teatro Universitário da Paraíba (TUPb), com objetivo de realizar cursos para formar atores e montar espetáculos. Os dois textos encenados foram Irmãos das Almas, de Martins Pena, e A farsa da boa preguiça, de Ariano Suassuna. Teixeira, também, organizou um jogral com alunos da rede estadual, usando poemas de Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Morais e dos poetas paraibanos Augusto dos Anjos, Jomar Moraes Souto e Vanildo Brito.
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O TEPb participou do II Festival Nacional do Teatro do Estudante em Santos, em 1959, conquistando o prêmio de melhor espetáculo com a peça Johan Gabriel Borkman, de Henrik Ibsen.
141 Rubens Teixeira nasceu em Minas Gerais em 1931. É professor, diretor e ator de teatro, rádio, cinema e
televisão. Formou-se pela Escola de Arte Dramática Martins Pena do Rio de Janeiro e trabalhou nas Companhias de Cacilda Becker e Maria Della Costa e no Centro de Pesquisas Teatrais – CPT, do diretor Antunes Filho. Atuou e dirigiu inúmeras montagens de textos nacionais e estrangeiros. Trabalhou na Paraíba, Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo, onde reside atualmente. (TEIXEIRA, 2014).
A vida no Estado da Paraíba mostrou ao diretor a existência de um outro país, distante do que estava acostumado no Sudeste. Esse choque de realidade, citado nas suas memórias, irá influenciar os rumos de seu trabalho teatral e de sua vida:
A política efervescia na Paraíba. As Ligas Camponesas, com Julião, em Sapé, incentivavam os campônios para luta pelos seus direitos, como trabalhadores e não como escravos. Conscientizava-os com reuniões, greves e direitos constitucionais. Eu, vindo de uma vida da capital, metido num meio artístico, puramente estético e comercial, desligado totalmente da realidade e do Nordeste brasileiro, chego em João Pessoa com uma visão do Brasil totalmente equivocada da política nacional. (TEIXEIRA, 2014, p. 3).
Teixeira (2014, p. 4/5) acredita que uma grande contribuição, para a sua mudança de visão de mundo, veio do trabalho que dirigiu com alunos do Colégio Estadual142, no qual optou por dirigir o texto Os Fuzis da Senhora Carrar143, de Brecht, com a atriz Margarida Cardoso144 no papel da mãe.
Com esta peça comecei a entender e aprendi com meus alunos do ginásio a pesquisar a situação do homem brasileiro, em especial do Nordeste, e vendo no cotidiano, fome, miséria, exploração dos latifundiários, luta dos camponeses e a razão das Ligas Camponesas. Lembro-me de um adolescente chamado Elder, que após os ensaios, ficava horas discutindo política e muito me ensinou sobre a realidade do Nordeste e do Brasil.
A direção dessa peça foi uma atividade paralela ao seu trabalho na UFPB, a pedido da diretora Professora Daura Santiago Rangel. O processo de montagem do texto brechtiano, aconteceu no primeiro trimestre de 1964 e quinze dias antes do golpe civil- militar Teixeira dirigiu-se ao Quartel do Exército para pedir emprestados alguns fuzis sem uso para utilizar na peça. O general que o atendeu, pediu-lhe que contasse o enredo do texto. Depois de ouvir, disse que não poderia emprestar porque o procedimento para o empréstimo de armas de fogo do Exército, mesmo as sem uso, era muito burocrático, etc. Teixeira encomendou armas de madeira em uma serraria. Para lançar o espetáculo, o
142 Como era chamado o Lyceu Paraibano. 143
Ambientada na Espanha franquista, conta a estória de Thereza Carrar na defesa de seus filhos para impedir que morram na luta contra a ditadura de Franco, a exemplo do marido. A partir da situação familiar, o texto discute a luta da democracia contra o fascismo.
144 Margarida Cardoso (1916-1989), atriz que, segundo Egypto (1988) nasceu no Acre. Atuou no Teatro de
Amadores de Pernambuco – TAP e em diversos filmes, a exemplo de Menino de Engenho, de Walter Lima Júnior, rodado na Paraíba. Famosa por seu trabalho vocal, foi professora de teatro no Núcleo de Teatro Universitário da UFPB onde formou diversos atores paraibanos. Faleceu em João Pessoa.
diretor, preparou um artigo no qual falava sobre Brecht, relacionando o pensamento do dramaturgo com a situação do Brasil naquele momento. Pediu a opinião a um jornalista militante comunista, Juarez da Gama Batista. No encontro, aconteceu o seguinte diálogo:
[Juarez] _“Posso cortar alguns trechos?” [Rubens estranhou o pedido e, ao ver os textos que deveriam ser cortados, perguntou] – “Mas, Juarez é o meu pensamento sobre a obra do Brecht, contestadora, de esquerda, contra a guerra.” [Juarez disse] – “Rubão, nunca deixe o rabo à mostra. A situação do país está muito séria e este artigo pode trazer prejuízos para você no futuro.” (TEIXEIRA, 2014, p.12/13).
O diretor retirou os trechos indicados e o artigo foi publicado. Ele acredita que o jornalista o salvou de tornar público um artigo que o transformaria logo mais em algo que nunca fora – comunista. Mas esse não seria o pensamento do Exército na Paraíba nos próximos meses.
Antes, o diretor fora convidado a empreender um projeto que, se efetivado, o teria transformado em um colaborador de forças que prepararam a derrubada de Jango. No final de 1962, um amigo e conterrâneo, ao saber que Teixeira estava morando na Paraíba, fez- lhe uma visita para convidá-lo a ingressar em um projeto cultural patrocinado pelo IBAD145, que, segundo as informações do amigo, era uma entidade sem interesses político partidários, financiada por empresários preocupados em patrocinar a cultura em estados pobres. Desconfiado, Teixeira procurou “o pessoal da esquerda” e, ao saber os verdadeiros objetivos da instituição, telefonou ao amigo, agradecendo e declinando do convite, mesmo com o dinheiro já creditado na sua conta.
Teixeira menciona a ação da censura estadual, por ocasião da temporada do Teatro de Arena de São Paulo em João Pessoa, no final do ano de 1963, durante a III Semana de Teatro da Paraíba.146 Nessa ocasião, foi realizado o Seminário de Dramaturgia coordenado por Augusto Boal e Guarnieri. Segundo Teixeira (2014), o grupo veio a João Pessoa, contratado pelo governo do Estado, com os seguintes espetáculos: Os fuzis da Senhora Carrar (Brecht), O noviço (Martins Pena) e O Melhor Juiz, o Rei (Lope de Veja).
145 O Instituto Brasileiro de Ação Democrática – IBAD, era uma instituição que, sob a orientação da CIA,
patrocinou candidaturas conservadoras na eleição de 1962, para eleger deputados defensores dos interesses do capital estrangeiro e contrários à reforma agrária e à política externa independente. O IBAD era um holding de muitas outras instituições conservadoras organizadas, de mulheres, trabalhadores e sindicatos, unidos em nome de uma cruzada anticomunista. (FERREIRA, 2011)
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O Melhor Juiz, o Rei foi apresentado ao ar livre, no adro da igreja de São Francisco para um público de 10 mil pessoas. No elenco, Guarnieri, Abrahão Farc, João José Pompeu, Dina Sfat, Isabel Ribeiro, Juca de Oliveira, Joana Fomm, entre outros. A adaptação feita por Guarnieri, Paulo José e Augusto Boal transportava a ação da Espanha feudal para realidade brasileira dos anos de 1960.
Voltando à censura estadual, o diretor conta que, “Foi difícil acalmar a censura paraibana, [...formada por ] policiais semianalfabetos e que nada entendiam de teatro.” (TEIXEIRA, 2014, p. 18). Mas como os censores não conheciam a obra original de Lope de Vega, o diretor acredita que, por essa razão, aprovaram o texto, em que pese o seu conteúdo político.