Antes de 1964 a Paraíba já era um Estado que efervescia com a correlação de forças
e as tensões sociais no campo e na cidade, especialmente no governo de Pedro Moreno Gondim. Este manteve aproximação com todos os setores envolvidos nos conflitos e tensões, como camponeses, estudantes, esquerdistas e latifundiários.126
Os acontecimentos mais marcantes, que conferem à Paraíba essa característica de Estado em ebulição àquela época, concentravam-se, principalmente, no campo com conflitos agrários envolvendo trabalhadores e proprietários de terras. De janeiro de 1962 a janeiro de 1964, identifica-se um total de 24 ocorrências distribuídas por todo o Estado, envolvendo despejos forçados de lavradores e famílias, destruição de roçados e moradias, atentados, assassinatos, protestos, greves e vinditas. Os casos mais graves, com repercussão nacional, são os seguintes:
O assassinato do fundador das Ligas Camponesas (LC) 127, João Pedro Teixeira, em 02 de abril de 1962, contribuindo para acirrar os conflitos entre camponeses e latifundiários.
126 Pedro Gondim governou o Estado da Paraíba de 1958 a 1960 e de 1961 a 1966. Sobre a sua trajetória
política e seu governo, vide ARAÚJO, Railane. O governo de Pedro Gondim e o Teatro do poder na
Paraíba: Imprensa, imaginário e representações. Dissertação (Mestrado) – UFPB/CCHLA João Pessoa, 2009.
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Os camponeses que trabalhavam na terra alheia, em um regime semiescravo e com características semifeudais, não tinham direitos trabalhistas, porque a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), de 1943, era direcionada somente aos trabalhadores urbanos. Foi João Goulart que conseguiu no parlamento a aprovação da primeira medida legal que beneficiaria os camponeses. Legislação que Caio Prado Júnior considerou como mais importante que a Lei Áurea, ao conceder ao trabalhador do campo o primeiro direito trabalhista. Trata-se da Lei n°. 4.214, de 02 de março de 1963, que criou o Estatuto do Trabalhador Rural e o Fundo de Assistência e Previdência do Trabalhador Rural – FUNRURAL (vide em Referências/Legislação/Lei). Assim, sem benefícios assegurados, e com o apoio e orientação do PCB, após a queda do Estado Novo, os trabalhadores rurais iniciaram o processo de organização, em todo o país, dando início às Ligas Camponesas. Em 1948, com a ilegalidade do PCB, o movimento enfraqueceu e quase todas as associações foram extintas. Em 1955, em Pernambuco, foi criada a Sociedade Agrícola de Plantadores e Pecuaristas de Pernambuco (SAPP) no Engenho Galileia, em Vitória de Santo Antão. Os galileus tinham o apoio do advogado e deputado estadual (PCB) Francisco Julião. O deputado apresentou, em 1957, um projeto de lei para desapropriar as terras do engenho, obtendo êxito em 1959. O caso de Galileia fez ressurgir a organização dos camponeses, principalmente, no vizinho Estado da Paraíba. A Liga Camponesa de Sapé foi a pioneira na Paraíba, fundada em 1958, com a seguinte diretoria: João Pedro Teixeira, presidente, Pedro Inácio de Araújo (Pedro Fazendeiro), vice, e João Alfredo (Nego Fuba), secretário). Por sua liderança em
O conflito entre a milícia de usineiros e camponeses, resultando na Chacina de Mari, em 15 de janeiro de 1964, com um saldo macabro de 11 pessoas mortas – camponeses, capangas dos patrões e policiais – a golpes de enxada e foices; tiros de metralhadora e revólver. Os usineiros reagiram com uma manifestação, acusando os governos estadual e federal de serem os responsáveis pela tragédia. Por outro lado, a Frente de Mobilização Popular elaborou um manifesto esclarecendo que a responsabilidade era dos proprietários. (CITTADINO, 1998). A providência adotada por Gondim, foi a de aumentar o efetivo policial na cidade, autorizando a construção de uma unidade da Polícia Militar na sede do município.
A capital João Pessoa também pulsava forte, permeada de entidades e movimentos que lutavam por direitos sociais e apoiavam as reformas de base de Jango. Para tanto, empreendiam esforços e ações para tentar transformar a realidade de um Estado construído sobre pilares de injustiça social, perpetuada ao longo dos séculos.128 Dentre outros, envolvendo principalmente os estudantes, os fatos seguintes são demonstrativos desse cenário:
Criação da Campanha de Educação Popular (CEPLAR) em 1961, cuja origem está relacionada a dois fatores: a busca de um grupo estudantes de Filosofia, membros da Juventude Universitária Católica (JUC), de encontrarem uma estrutura sólida para desenvolver um programa de educação popular; e a meta do governo estadual de lançar um programa similar. Os educadores da CEPLAR receberam influências e formação do MCP do Recife e do pensamento de Paulo Freire, um dos orientadores do projeto. No ano de 1963, o jornalista e dramaturgo Paulo Pontes juntou-se ao grupo para implantar um
Sapé e na Federação das Ligas, foi perseguido pelos usineiros que encomendaram sua morte, ocorrida em 02 de abril de 1962. Sua esposa, Elizabeth Teixeira, continuou sua luta até a implantação da ditadura militar, quando foi obrigada a fugir para não ser morta. A história de João Pedro e sua família foi contada no documentário Cabra Marcado para Morrer, do cineasta Eduardo Coutinho. As gravações, iniciadas em fevereiro de 1964 no engenho Galileia, foram interrompidas, de forma violenta, em abril de 1964, por militares que cercaram a locação. Coutinho conseguiu salvar o material produzido e, 17 anos depois, localizou Elizabeth Teixeira e concluiu o trabalho. Sobre a história das Ligas Camponesas, vide o livro de. Historia das ligas Camponesas do Brasil de Morais (1997). Sobre João Pedro Teixeira , Elizabeth Teixeira sua mulher e a Liga de Sapé, vide o citado documentário de Coutinho (1984).
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João Pessoa, Capital do Estado da Paraíba, foi fundada em 05 de agosto de 1585, com o nome de Nossa Senhora das Neves e já nasceu cidade, sendo a terceira mais antiga do Brasil. Segundo indicadores citados por Oliveira et all (2010), nos anos de 1960, na Paraíba, 6,2% de proprietários detinham 68,7% das terras agricultáveis nas zonas do agreste e caatinga; e no litoral e zona da mata, essa proporção era de 7,9% de proprietários ocupando um total de 84,1% das terras férteis.
departamento de arte e divulgação, com inclusão do teatro como ferramenta educativa. Pontes desenvolveu experiências teatrais que refletiam e discutiam a realidade, como também criou um programa na Rádio Tabajara, que permitia aos ouvintes debaterem as músicas. As ações da CEPLAR e as parcerias com as Ligas Camponesas, cresciam por diversos municípios e, na véspera do golpe em 1964, cerca de 80 núcleos de alfabetização estavam em funcionamento. Esse sucesso incomodava os opositores da CEPLAR, representados por grupos conservadores, a exemplo de deputados que tentaram boicotar verbas para a instituição. As agressões vinham de várias formas, como pichações em muros da cidade com as seguintes frases: “CEPLAR COMUNISTA”, “CEPLAR DE MOSCOU” e “O CÉREBRO COMUNISTA NA PARAÍBA”. (PORTO e LAGE, 1995, p. 123);
Criação do Partido Operário Revolucionário Trotskista (PORT)129, em 1963, após o assassinato de Paulo Roberto Pinto, na divisa da Paraíba com Pernambuco. De codinome Jeremias, Pinto era mineiro, criado em São Paulo e militante do PORT. Veio para Pernambuco com 22 anos para se integrar à luta dos camponeses do Engenho Oriente, no município pernambucano de Itambé, que tem sua sede conurbada com a paraibana Pedras de Fogo.
A tentativa de invasão da Faculdade de Direito ou Os arieteiros do corvo130, na forma batizada pelo Jornalista Wills Leal (2014). No dia 01 de março de 1964, noticiou-se que o aspirante à Presidência da República em 1965, Carlos Lacerda, chegaria a Paraíba no dia 03 seguinte e visitaria o Governador Pedro Gondim. Os grupos lacerdistas e simpatizantes resolveram recepcionar o político no aeroporto e organizaram uma “carreata” que partiu de João Pessoa às 16:00 h. Já os estudantes secundaristas do Lyceu, e outros setores da esquerda, resolveram realizar um protesto diante do Palácio da
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O partido foi fundado inicialmente com a sigla POR e, posteriormente, acrescentou a letra T como referência ao revolucionário russo Trotsky. Em Pernambuco, foi fundado em 1962, a partir da iniciativa do partido de se aliar à luta dos camponeses. Em 1963, expandiu-se para o estado da Paraíba e tinha Martinho Leal Campos como o representante na Coordenação Regional do Nordeste. Sobre Jeremias e o PORT em Pernambuco, vide Gallindo, 2010.
130 Aríete era uma antiga máquina de guerra usada para derrubar muralhas de castelos e fortalezas
(FERREIRA,1988).
Sobre o apelido de Lacerda, segundo Sebastião Jorge (2006), “Na briga com Samuel Wainer, na qual valeu tudo, pelo fato de este haver contraído empréstimo do Banco do Brasil para implantar o jornal Última Hora, ganhou o apelido de „O corvo do Lavradio‟ (local onde funcionava a Tribuna da Imprensa)”.
Redenção. Durante a espera, os manifestantes instalaram-se no prédio da Faculdade de Direito, contíguo ao palácio do governo. Realizaram discursos exaltando Jango e Fidel e atacando Lacerda. Como o esperado convidado não apareceu no aeroporto, os lacerdistas decidiram voltar e seguir até a faculdade para expulsar os estudantes. Os lacerdistas chegaram com os ânimos acirrados e os estudantes trancaram a porta de entrada da faculdade. Para reforçar a segurança, improvisaram uma espécie de barricada com carteiras. A energia elétrica da faculdade foi cortada e os estudantes no escuro cantaram o Hino Nacional e o da Internacional Socialista. Os lacerdistas dispostos a entrar à força, pegaram uma pesada tora de madeira (aríete) e investiram contra a histórica porta do prédio da faculdade por duas vezes, sem conseguir arrentar a porta. Nesse ínterim, chega um caminhão do Exército e um militar ordenou aos estudantes que saíssem. Estes, com fome e sede, achando-se salvos, desocuparam o prédio e foram colocados em um caminhão. Levados para o Comando da Polícia Militar prestaram depoimentos por demoradas horas. Além de Paulo Pontes, outros artistas de teatro engajaram-se com a educação popular. Um exemplo marcante é o da atriz do Teatro Popular de Arte, Zezita Matos 131 (à época, Souza Pontes) estudante do Lyceu Paraibano e militante da Juventude Comunista. Decidida a exercer uma prática teatral, que refletisse o momento histórico e contribuísse para transformar a injusta realidade que percebia à sua volta desde menina. Filha de um comerciante da cidade de Pilar, assistiu desde muito cedo a vida miserável dos trabalhadores que não detinham meios de produção. Como educadora social, com participação na CEPLAR, de 1962 até 1964, recebeu lições de como ajudar a educar o povo, das mãos e da voz do próprio Paulo Freire. Nas comunidades atendidas, em zonas rurais e urbanas, ela unia as suas missões de educar e atuar. Um dos meios utilizados, era o
131Zezita Matos, nascida Severina de Souza Pontes em 28/08/1942, na cidade de Pilar-PB. Estreou nos
palcos paraibanos, como protagonista de A Prima Dona, de José Maria Monteiro, em outubro de 1958, durante o Festival do Teatro do Estudante. Fora convidada para uma pequena participação na peça montada pelo Teatro Popular de Arte. Mas, como a protagonista ficou impedida de participar e a iniciante sabia todo o texto de cor, passou ao papel principal. Para entrar no mundo do teatro, a atriz teve que prometer a seu pai que atenderia duas condições: fazer um curso superior para ter uma profissão e ir aos ensaios sempre acompanhada de um irmão. Naquele tempo, teatro não era lugar para moças de fino trato. Zezita casou-se com o ator Breno Matos, com quem contracenou no primeiro espetáculo, incorporando o sobrenome Matos ao nome artístico. Formou-se em Letras e Pedagogia, com mestrado e doutorado em Educação. Faz parte do quadro de educadores do Centro Universitário de João Pessoa (UNIPÊ). Tem uma carreira de sucesso no teatro e no cinema brasileiro. Atualmente integra o Coletivo de Teatro Alfenim.(VASCONCELOS, 2014).
uso de esquetes132, nas quais os próprios moradores representavam e refletiam sobre seus problemas. A atriz, ainda, colaborava ativamente como secretária na sede da federação das
ligas em João Pessoa.(MATOS apud VASCONCELOS, 2014)133.
Diante do que foi descrito, percebe-se que o cenário político no estado da Paraíba, era semelhante ao que ocorria no eixo Rio-São Paulo, antes da implantação da ditadura dos generais.134