Para investigar aspectos específicos da recepção dos textos, ou práticas de leitura e interpretação, foi necessário somar à perspectiva qualitativa da pes- quisa documental princípios de delineamento da pesquisa de levantamento por amostragem, característica de pesquisas quantitativas. O pré-teste, realizado em 2006 com pequeno grupo de colaboradores, apontou a aplicação questi- onários – em vez de entrevistas em profundidade, que gerariam mais dados do que o necessário – como procedimento mais adequado para esta parte da pesquisa. Foram realizadas 20 entrevistas individuais, em profundidade, com leitores potenciais de anúncios de medicamento. No entanto, a aplicação de questionário, também submetida a teste, mostrou-se mais eficaz para a coleta de uma amostragem representativa de práticas de leitura.
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res, motivações dos atores sociais, o objetivo, aqui, é mais voltado para a investigação de práticas de leitura e identificação do gênero “anúncio de me- dicamento”. Essa investigação específica procura responder questionamentos acerca da ambivalência contemporânea entre informação-publicidade, como: quais textos do corpus documental principal são identificados como predo- minantemente “publicitários”? Ou predominantemente “informativos”? Ou os dois? Que elementos – cores, enquadramento, disposição do texto, fotos, vocabulário, propósitos – são apontados como característicos de publicida- des? Quais textos do corpus são lidos como “reportagem”, “cartão postal”, “notícia”? Por quê? Com que frequência?
Em busca de tais respostas, geraram-se dados de natureza quantitativa por meio de aplicação de questionários abertos auto-administrados a uma amos- tragem, ou “seleção”, de um grupo natural de leitores potenciais de anúncios publicitários. No Brasil, como discutimos no Cap. 1, os problemas da auto- medicação e da exposição a propagandas de medicamentos caminham ao lado do problema da falta de acesso a medicamentos e a serviços de saúde. Para evitar uma abordagem ingênua, foi selecionado um grupo natural de leitores potenciais como “amostra da população maior que eles representam” (BAB- BIE, 2005: 107). A opção por um “grupo natural”, em vez de grupos estatís- ticos, por exemplo, foi orientada pela alternativa de seleção de colaboradores de pesquisa sugerida por Gaskell (2005).
O autor explica que grupos naturais são constituídos por pessoas que inte- ragem conjuntamente, ou que partilham um passado comum ou possuem um projeto futuro comum, ou que lêem os mesmos veículos de comunicação, ou têm interesses e valores mais ou menos semelhantes, e, por isso, formam um meio social. Esse tipo de seleção de colaboradores pode ser mais eficiente e produtivo na medida em que permite delimitar ambientes sociais relevantes para o tópico em investigação, definindo a população sobre a qual se deseja ti- rar conclusões. Nesta pesquisa, a seleção do meio social relevante é composta por alunos de cursos em geral de Graduação da Universidade de Brasília, que se voluntariaram a responder os questionários. Características que demarcam esse grupo natural, que interage no ambiente de estudo, podem ser apontadas no possível acesso aos meios de comunicação de massa em geral e no nível de escolaridade, qual seja, Ensino Médio completo. Essa seleção ajuda a evitar, além do erro ingênuo de pressupor que todos têm, igualmente, acesso a me-
dicamentos e a serviços de saúde, o erro da universalização da escolaridade e do acesso aos meios de comunicação.
Naturalmente, isso não significa que as práticas de leitura deste grupo se- jam as mesmas. A questão da “recepção” – termo não muito apropriado, mas que demarca melhor a fronteira entre as outras duas dimensões, composição e produção – é muito complexa e envolve crenças, histórias, tipos de atividade, relações de poder, idade, posição social e econômica, e outros fatores espaci- ais e temporais. Portanto, não é possível determinar de antemão os sentidos que leitores atribuirão a textos, ou mesmo antecipar se determinado sentido ideológico será apropriado ou não pelo leitor. Tendo isso em vista, o obje- tivo do levantamento quantitativo de dados não é cruzar variáveis, “conjuntos de características mutuamente excludentes, como sexo, idade, emprego etc.” (BABBIE, 2005: 124), e concluir, por exemplo, que leitores mais jovens, ou com mais estudo, identificam com mais frequência propagandas implícitas. O objetivo é, de fato, levantar dados para descrever e interpretar aspectos da re- cepção dos textos do corpus num grupo específico de leitores potenciais, que representa uma população maior de leitores.
A delimitação da amostragem/seleção sem cruzamento de variáveis evita o problema, lembrado por Bauer e Aarts (2005: 60), de pesquisadores que coletam “muito mais material interessante, do que aquele com que poderiam efetivamente lidar, dentro do tempo de um projeto”, o que quase sempre re- sulta em superficialidade da análise do material: “quanto mais representações o pesquisador espera sobre um tema específico, mais diferentes estratos e fun- ções de pessoas, ou materiais, necessitam ser explorados, e maior o corpus.” Dessa forma, a delimitação de uma amostragem/seleção representativa, mas não ampla demais, permitiu a investigação em profundidade de uma prática de leitura específica.
Selecionado o grupo, partimos para o trabalho de aplicação dos questio- nários abertos auto-administrados, até o ponto em que não se acrescentavam novas informações. A aplicação ocorreu em 2006 e 2007. Sem intervenção da pesquisadora, os questionários abertos foram respondidos por voluntários do grupo em salas de aula, seu ambiente natural. Como Babbie (2005) pondera, a despeito de levantamentos quantitativos serem feitos com mais frequência por meio de questionários constituídos de perguntas fechadas, é igualmente produtivo utilizar perguntas abertas. Questionários abertos, como o que apli- camos na pesquisa, permitem que o colaborador sinta-se mais livre e dê suas
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próprias respostas, uma vez que não estão restritas a alguns poucos itens que o pesquisador julga possíveis.
Tendo essa vantagem em vista, elaboramos o questionário da pesquisa com três perguntas-padrão abertas, aplicáveis a todos os textos do corpus prin- cipal. Cada pergunta, como se apresenta a seguir, relaciona-se a um tópico específico de pesquisa, o qual não consta no questionário3:
Tópico 1: Identificação da(s) função(ões) social(is) do texto
a) Tendo em vista que textos são ligados a atividades sociais, responda: qual poderia ser a função deste texto na prática social ou, em outras palavras, um texto como este pode servir para quê?
Tópico 2: Elementos discursivos relevantes para definição da(s) função(ões) do texto
b) Que elementos do texto lido (trecho, parte, função, forma, palavra, frase etc.) ajudaram você a identificar a função do texto, no item a?
Tópico 3: Identificação do tema central do texto c) Qual é o tema/assunto do texto que você leu?
Como se observa, as perguntas foram elaboradas em linguagem coloquial, sem preocupação com terminologias, e de maneira a contemplar os três tópi- cos principais de investigação. Após aplicação dos questionários, as respostas abertas foram categorizadas e quantificadas, dando origem aos dados quan- titativos a serem interpretados nos Cap. 5 e 6. Ao todo, 390 colaboradores responderam ao questionário, o que equivale a 30 questionários respondidos sobre cada um dos 13 textos da seleção inicial de dados formais. Para o de- lineamento definitivo do corpus principal, como descrito na subseção 4.4.1, foram selecionados 6 textos desse total, e os respectivos 180 questionários.
Concluída a categorização dos 180 questionários por padrão de respostas, os dados foram quantificados, dando origem a frequências de respostas para as categorias criadas para cada texto do corpus. Com base nesses dados, foi
3Disponível no Anexo 7 – Questionário de pesquisa.
possível quantificar e interpretar, por exemplo, a frequência em que leitores identificam textos promocionais menos explícitos como “publicidade”, ou a frequência de respostas que se prendem a elementos textuais mais fixos como “foto”, “slogan”, na identificação de textos publicitários. Ou, ainda, leito- res que reconhecem, em anúncios, temas como “dor de cabeça”, em vez de “medicamento para dor”.
Um último ponto sobre a geração de dados quantitativos e construção do corpus ampliado a se destacar diz respeito a questões éticas. Assim como se preservou a identidade dos membros das reuniões de trabalho de campo, a identidade dos colaboradores leitores também foi preservada. Além disso, cabe destacar que as contribuições foram voluntárias e que, com o intuito de não afetar as respostas, a finalidade da pesquisa só foi revelada aos colabora- dores após aplicação dos questionários. Em campo, com a permissão cedida em momento anterior pelo professor responsável pela classe, apresentei-me apenas como estudante em Lingüística, da Universidade de Brasília, que de- sejava contar com a participação de voluntários para responder a três pergun- tas abertas sobre um texto, para fins de pesquisa de doutorado. Reforço, aqui, meus agradecimentos aos professores e colaboradores da pesquisa.
Os dados resultantes da categorização e quantificação dos questionários são interpretados nos Cap. 5 e 6, juntamente com a análise discursiva do corpusprincipal.