2.5 Characteristic dynamical regimes
3.1.1 Synchronization of chaotic lasers in dierent coupling
A postura da ADC sobre a relação dialética gênero-poder permite conceber o fenômeno da tipificação, discutido pela NR, como possível recurso para disseminação de ideologias. Ao contrário de entender padrões comunicati- vos simplesmente como maneiras de nos compreendermos ou de coordenar- mos melhor nossas atividades, é possível explorar a função das convenções discursivas em relações de poder. Uma publicidade em forma tipificada de notícia, por exemplo, pode revestir ideologicamente a tentativa de interação bem sucedida. Aqui, interação bem sucedida pode significar dissimulação de propósitos promocionais e ação ideológica sobre o outro.
É necessário considerar que o sentido de continuidade, rotinização, reco- nhecimento que os gêneros oferecem a atores sociais pode servir, também, em determinadas circunstâncias, como mecanismo semiótico de dominação. Isso pode ser parcialmente explicado pela saliência, apontada por Fairclough (1989: 36), de alguns discursos-chave nas sociedades modernas tardias, tais como o da publicidade, entrevista, aconselhamento/terapia, que colonizam muitos campos sociais e obscurecem fronteiras entre o que é informação, o que é entretenimento, o que é publicidade. Tal “ambivalência contemporâ- nea”, sobretudo sua faceta resultante da colonização do mundo da vida pela economia, demanda um olhar crítico sobre maneiras recorrentes de (inter-)agir discursivamente.
Da mesma forma, o diálogo da NR com a ADC permite relacionar a con- cepção de gêneros como “respostas a exigências socioculturais” com a idéia de mudança discursiva vista como parte de lutas hegemônicas. Mudanças dis- cursivas, incluindo mudanças genéricas, podem estar relacionadas com ques- tões de poder e, à medida que se tornam naturalizadas, conforme citação da subseção 3.2.2, de Fairclough (2001:128), perdem o “efeito de colcha de re- talhos e passam a ser consideradas inteiras”, o que “é essencial para esta- Livros LabCom
belecer novas hegemonias na esfera do discurso”. Caso assumam de maneira crescente características mais fixas das notícias, propagandas de medicamento podem, por exemplo, dar origem a novas tipificações/convenções orientadas para a dominação. Constituirão, portanto, respostas a exigências sociocultu- rais voltadas para o exercício da distribuição desigual de poder.
Como Fairclough (2003a: 66) destaca, a mudança em gêneros é parte importante das transformações no novo capitalismo, pois mudanças na ar- ticulação de práticas sociais, a exemplo do rompimento de fronteiras entre informação e promoção, são mudanças em formas de ação e interação, e, por- tanto, em gêneros. Nesse passo, reformulamos o objetivo de estudos de gênero apontado por Freedman & Medway (1994: 09), subseção 3.2.2, de “investigar a evolução de gêneros específicos em resposta a fenômenos socioculturais”. Consideremos, para fim desta pesquisa, o objetivo de investigar a evolução de gêneros específicos em resposta a fenômenos socioculturais, e sua relação com questões de poder.
Por fim, ainda em comparação com a abordagem da NR, é preciso reco- nhecer que o entendimento de gêneros como elemento de ordens de discurso, ao lado de discursos e estilos, explica melhor sua atuação como regra/recurso em práticas sociais, na interface entre o público e o privado. No entanto, o não-reconhecimento de (redes de) ordens de discurso como sistema consti- tuinte da linguagem é um problema mais relacionado com a abordagem da LSF, sobre o qual comentamos brevemente a seguir.
3.3.2 Análise de Discurso Crítica e Lingüística Sistêmico-Funcional em diálogo
Ainda cabem nesta seção considerações sobre algumas dificuldades da abor- dagem de gêneros da LSF para estudos que visam relacionar gêneros discur- sivose poder. Chouliaraki & Fairclough (1999) ajudam-nos a identificar três dificuldades principais dessa abordagem. Primeiro, a primazia do semiótico sobre os outros momentos do social. Segundo, o foco no sistema semiótico e não em sua materialização em textos. Terceiro, o não-reconhecimento de “ordens de discurso”, a estruturação social do hibridismo semiótico, como sistema.
Segundo os autores, o primeiro problema para uma abordagem sociodis- cursiva, qual seja, a primazia do semiótico sobre os outros momentos do so-
Viviane Ramalho 101
cial, pode ser amenizado por um enfoque orientado não para a estrutura ou sistema semiótico, mas, sim, para as práticas sociais, concebidas como articu- lações de outros momentos (não-semióticos) com ordens de discurso. Como pontuam Chouliaraki & Fairclough (1999: 143), “o foco em práticas sociais chama atenção para ligações e relações de internalização entre os vários mo- mentos, de tal modo que possibilita avaliar o trabalho do momento semiótico em cada prática particular”. Esse foco, que estreita as relações dialéticas entre o social e o discursivo, torna mais claro, por exemplo, o papel do discurso na manutenção de relações de poder em práticas.
A origem do segundo problema, qual seja, o foco no sistema semiótico e não em textos, também está localizada na primazia da estrutura/sistema. A análise de textos, orientada para a identificação de escolhas particulares opera- das no potencial do sistema, tende a resultar numa visão idealizada de textos, como realização de “‘um’ registro particular (HALLIDAY, 1992) e ‘mem- bro’ de um gênero particular (HASAN, 1994)”10. Chouliaraki & Fairclough
(1999) ilustram essa idealização com a abordagem problemática do gênero “defesa de tese”, em que Hasan (1994: 165) não reconhece interações in- formais, gracejos, como estágios/elementos da EPG. Os registros informais são considerados textos separados, paralelos ao discurso de tese, alheios ao gênero “defesa de tese”. Tal visão acarreta dificuldades para abordagens de textos híbridos, que misturam gêneros, discursos, estilos, registros. O hibri- dismo, a heterogeneidade, característicos dos gêneros, são vistos como aquilo que destoa dos limites fixos do gênero, ou seja, aquilo que não pode ocorrer em determinado gênero (cf. subseção 3.2.1).
O terceiro problema, o não-reconhecimento de ordens de discurso como sistema, refere-se à visão da LSF de que a rede de opções do sistema semiótico é a única responsável pelo potencial mais ou menos indefinido da linguagem para a construção de significados. Os autores ressaltam a importância de se considerar, também, a potencialidade do social, e não só do sistema semiótico, na manutenção do potencial da linguagem para significar. Para o assunto, reservamos a subseção seguinte.
10Citados em Chouliaraki & Fairclough (1999: 143).