Dan e Mari formam o grupo de alunos entrevistados, grupo que socializou conteúdos interessantes considerados nesta análise. De maneira semelhante ao grupo dos professores, primeiro foram analisadas as dimensões previamente escolhidas (contextos), e, em seguida, os temas emergentes do processo exploratório de categorização das falas.
5.2.1 Contextos
Os contextos da vida em geral, das universidades e das organizações, sobre os quais Dan e Mari falaram, são o que compõe a escrita a seguir.
a) Contexto: história de vida estudantil e profissional
Breve relato das histórias de vida
Dan é um jovem de 19 anos de idade, solteiro e sem filhos. Cursa o 2º período do curso de
Administração em uma universidade pública federal, no Nordeste brasileiro, tendo ingressado, via ENEM, após rápida passagem pelo curso de Computação. Paralelo ao curso universitário, está finalizando um curso técnico no Instituto Federal, na área de tecnologia, ramo em que trabalha desde as primeiras experiências de estágio possibilitadas pelo curso
166 técnico.
Mari é uma formanda em Administração, atualmente com 22 anos de idade, terminando seu
curso dentro do prazo regular e com ótimo rendimento acadêmico. É solteira e não tem filhos. Cursou Administração em uma universidade pública federal situada no Nordeste brasileiro. Seu ingresso no curso se deu após não aprovação para o curso de Direito, o qual almejava à época do término do ensino médio. Suas experiências profissionais se iniciaram ainda durante a graduação, primeiro como estagiária, e agora contratada como assistente em administração em um plano privado de saúde.
Suas escolhas
À semelhança dos professores, interessa/importa saber quais motivos conduziram os alunos à Administração, a partir da escolha do curso universitário e da profissão, bem como seus anseios em relação ao exercício profissional futuro, após a conclusão do curso. O Quadro 59 sintetiza falas dos alunos relacionadas aos seus motivos de aproximação da Administração.
Tal qual narrado pelos professores, a aproximação dos alunos entrevistados em relação à Administração, quando da escolha do curso universitário, acontece associada a uma indefinição, a um não saber o que se quer, situação a partir da qual a Administração emerge como uma opção apropriada diante de tal indecisão; ou como uma segunda opção, ou complemento de outra área. Dan narra que sua primeira escolha não foi Administração, e sim Computação, pois já havia se aproximado e gostado da área de tecnologia, que passou a
nomear como “sua área”, desde o curso de nível técnico, anterior à universidade. Tendo
tomado esse rumo desde a adolescência, achou que a escolha adequada para o curso de nível superior seria a Computação. Porém, enquanto ainda cursava o primeiro semestre de Computação, viu que não era bem isso, que queria ter a tecnologia como sua área de atuação profissional, mas não queria ser programador, pois não se identificava com disciplinas ligadas à matemática. É nesse momento que ele faz sua escolha por um segundo curso, o de Administração, escolha atrelada a “sua área” de identificação: a tecnologia. Logo, ele
167 organiza suas escolhas da seguinte maneira: serei administrador na minha área de escolha. E é para essa área que ele já projeta, mesmo no início do curso, a continuação de seus estudos, de maneira que possa conciliar suas duas preferências: tecnologia e administração (a1).
A narrativa de Mari sobre o momento inicial do curso faz repetidas referências à dificuldade que vivera à época, tanto por não saber que curso queria fazer quanto pela pressão familiar. Ela narra como tempos de conturbação, complicação, problemas (a2). Mari é enfática quanto a sua não escolha por Administração. Nas primeiras entrevistas, revela ter sido uma escolha da sua mãe, na tentativa de ajudá-la a se decidir por algo. Em outra entrevista, investe num eufemismo, afirmando ter sido escolhida pela Administração, e socializa que, depois da entrada, se encontrou e se apaixonou pelo curso. Entretanto, reconhece haver uma representação social da Administração como uma área que com frequência acomoda os indecisos ou os que não sabem o que querem, e destaca: é durante o
curso que acontece um necessário “encontro” com a área (a3, a4). Quadro 59 – Escolha da Administração
Falas
(a1) E foi aí [quando cursou 1 semestre de computação], eu disse: eu vou fazer Administração, eu vou terminar o curso, vou fazer uma pós-graduação em tecnologia da informação, um mestrado, um doutorado, e vou ficar na minha área, mesmo sendo administrador. (Dan)
(a2) Foi um momento muito conturbado, na expressão da palavra, porque eu até os últimos minutos, eu não sabia o que de fato eu queria, foi um problema pra mim [...]. Mas enquanto eu fui, nesse 1 ano que fui morar lá [em outra cidade, para fazer cursinho] eu tinha menos certeza do que é que eu queria. As coisas só foram se complicando. E a opção por Administração foi da minha mãe. [...] E da grade curricular que existia na [universidade], Administração foi o que eu achei que mais se aproximaria de mim. (Mari)
(a3) Administração me escolheu, né? Não fui eu que escolhi ela. Isso aí é uma coisa que é bem marcante, assim, bem fato na minha cabeça. (Mari)
(a4) Mas tem muita gente que diz que o curso de Administração é pra quem não sabe o que quer. Eu já escutei algumas pessoas me dizerem isso, que o curso era um curso que é pra pessoas que não sabem o querem. Eu entrei dessa forma, não sabia o que queria, mas eu acho que você tem que se encontrar. (Mari)
Fonte: Elaborado pela autora.
Seus destinos
Assim como interessa saber os motivos de escolha da área de Administração na fase pré-universitária, também se mostra importante identificar as escolhas quanto ao destino profissional, no momento pós-formatura. Tanto a primeira quanto a terceira entrevista são
168 producentes para acessar esse tipo de elaboração dos entrevistados. O Quadro 60 apresenta o que o grupo de alunos socializou sobre este ponto.
Há, entre Dan e Mari, uma primeira convergência nos planos para o futuro pós- formatura: ambos desejam continuar estudando. Dan é recorrente em esclarecer que é na sua área, a de tecnologia, que quer trabalhar no futuro, e, convergentemente, é nesta área que deseja continuar seus estudos, em nível de especialização (MBA). Quando pensa sobre o futuro e expressa seus desejos, Dan incorre numa leitura comparativa dos dois tipos de saberes e áreas que escolheu. Sobre a tecnologia, ele diz ser sua área, mas a enquadra como restrita a um saber técnico; assim, ressalva que não deseja um futuro profissional como técnico, que ele qualifica como uma condição simples, embora reconheça como bastante demandada pelas empresas. Associado a isso é que ele recorre e acomoda a segunda área, a Administração, como aquela que estaria, em sua visão, atrelada a algo mais, ou a uma condição superior dentro do contexto empresarial. Ele não chega a classificar o tipo de saber próprio à Administração, limitando-se a apresentá-la, metaforicamente, como uma importante
“bagagem” a ser adquirida, e uma teoria a ser aplicada em tudo (a1, a2).
Mari, por sua vez, recorre a uma metáfora de movimento para lidar com seu futuro
profissional e continuar os estudos. Ela não quer “parar” e insiste que continuará estudando
para não se ver na condição que reprova em alguns companheiros de profissão. Para ela, estar em um cargo mesmo que ligado à Administração, porém não gerencial, parece ser demérito em face da falta de compensação salarial. Então, ela sinaliza sobre a continuidade dos estudos em duas direções: (i) concurso público; (ii) formação acadêmica (especialização e mestrado) (a3, a4).
Além de Dan e Mari narrarem a continuidade dos estudos como a primeira providência pós-formatura, em prol de um futuro profissional satisfatório, eles também elaboram narrativas sequenciais sobre como seria este futuro, segundo seus desejos. Dan socializa a seguinte sequência de sonhos de carreira: 1º) de 12 a 14 anos como administrador de tecnologia da informação de uma empresa, na qual entrou logo após a formatura (a5); 2º) ser empreendedor, abrindo um negócio próprio, aproximadamente 12 a 14 anos após formado (a6). Mari, por sua vez, narra a seguinte sequência de experiências profissionais: 1º) 1 ano como auxiliar administrativo numa empresa (a7); 2º) 2 anos como gestora de pessoas na mesma empresa (a8); 3º) aprovação e trabalho como professora concursada em universidade pública federal, 10 anos depois da formatura (a8); 4º) desejo de abrir pequeno negócio próprio, nos próximos 5 anos (a9).
169 Percebe-se que tanto as projeções de carreira de Dan quanto as de Mari se acham atreladas às áreas de conhecimento específico em que foram buscar formação, antes e após a graduação: área de Gestão de TI, para Dan; área de Gestão de Pessoas, no caso de Mari. Uma inferência possível é que eles parecem querer dizer que sua empregabilidade depende desse conhecimento específico ou adicional à Administração, que Mari narra, assim como Dan, de modo coisificado, como uma propriedade, como algo que ela tem e deve carregar consigo para se manter empregável (a4, a7).
Uma segunda grande convergência nas escolhas dos alunos é o desejo de empreenderem, geralmente colocado em um futuro mais distante. Diferentemente de Dan, que se vê sempre ligado à empresa privada (seja a dos outros, seja a sua), Mari admite gostar, mas também temer, da pressão e da incerteza do contexto privado, e aponta suas escolhas no rumo da profissão docente em contexto público, em nome da estabilidade e com vistas a dar sentido, de alguma maneira, àquilo que estudou (a8).
Quadro 60 – Destinos profissionais após formatura Falas
(a1) Minha vida pós-formatura eu sonho, no caso eu já venho falando, que é na área de tecnologia, no caso eu penso que, eu que... eu desejo, eu quero, né, quando eu terminar o curso, eu já fazer uma especialização, uma pós-graduação na área de tecnologia pra me aprimorar. Hoje eu comecei... eu tava trabalhando, saí da empresa, mas agora eu já estou estagiando em outra empresa que é na área de informática, e esse ano eu termino o curso de técnico em informática e vou ter um diploma de técnico realmente, então, durante esse período, eu antes de me formar, eu vou tá trabalhando como técnico, adquirindo a bagagem de administração, e pós-formado eu quero realmente trabalhar na área de tecnologia, mas como administrador, não como técnico, porque o técnico eu não quero sempre pra minha vida ser um técnico, um sim.... um simples técnico de informática, eu penso mais, eu quero ser um administrador. (Dan)
(a2) A empresa, ela quer uma pessoa que tenha os dois, tanto a parte técnica quanto a parte de teoria da Administração realmente, porque em tudo você tem que aplicar a administração. (Dan)
(a3) Eu só não quero parar, porque eu tenho o exemplo de uma amiga minha, formada, sentada do meu lado, sendo assistente administrativa, ganhando pouco, e eu olho pra aquilo dali todos os dias e eu digo que não vai acontecer aquilo comigo, eu não vou deixar que aconteça aquilo comigo, não vou me acomodar, não vou parar, porque é um medo que eu tenho, meu Deus, não quero terminar dessa forma, estudei tanto, batalhei tanto, não quero morrer assim. [...] Quero tentar ainda uma carreira acadêmica. [...] No momento, eu só sei de uma coisa: que vou estudar porque é o único caminho que eu vejo pela minha frente, é estudar pra concurso, batalhar pela minha especialização, eu tô meio que traçando metas no momento. Tentando me organizar dessa forma. (Mari) (a4) Aí eu ia dizer que eu estava trabalhando [pra professora da entrevista ficcional]. Com certeza nesse tempo eu já vou ter meu mestrado. Já tinha terminado meu mestrado, já. Porque eu tinha terminado o meu mestrado acho que ligado a Cultura Organizacional ou a Gestão Estratégica, tinha terminado meu mestrado em Estratégia, e que eu estava lecionando também, como ela. Que eu tinha passado num concurso recentemente e estava lecionando, na Alfa [universidade federal da capital do Estado onde mora], por sinal. [...] E ela estava lá pra participar desse evento também, como eu estava. E começamos a conversar sobre algumas coisas, sobre a faculdade, sobre a carreira de professor... eu disse a ela que chegou o momento em que eu tive que decidir entre trabalhar ou ir atrás do meu mestrado, e eu tinha optado em ir atrás do meu mestrado. (Mari) (a5) Bem, eu contei pra ele [o professor da entrevista ficcional] que o que ele me disse quando nós estávamos
170
Falas
ainda no segundo período, que ele me falou que essa área que eu queria seguir, né? Que é minha área, vai ser bastante, iria ser bastante proveitoso futuramente, porque eu iria ser um administrador com a área de tecnologia e as empresas iam precisar bastante. E foi justamente o que aconteceu, em 2022, hoje, essa data, eu sou um administrador de tecnologia de uma empresa, e tô aplicando a parte de administração, algumas coisas que eu vi na faculdade, e também com a experiência do dia a dia e fazendo o que eu sempre quis, sempre gostei, e realmente o mercado para administrador de tecnologia da informação está bastante amplo, com um dos melhores salários do mercado. [...] Aí já estou nessa empresa exatamente... assim que eu me formei eu já passei um ano, quase dois anos fazendo MBA, já estou há seis anos, quase seis anos nessa empresa. (Dan)
(a6) Bem, eu falei que o meu futuro em termos de carreira é... eu quero seguir ainda algum tempo sendo administrador de TI, mas eu ainda tenho algo que eu ainda quero alcançar, que é ser, ter minha própria empresa, que é ser um empreendedor realmente. Passar algum tempo no mercado como colaborador na empresa, funcionário, mas vou chegar a um tempo em que eu vou querer montar minha própria empresa. Ser... ser um próprio empreendedor, ser um empresário realmente da minha própria empresa. [...] Eu vou trabalhar num projeto, trabalhando num projeto durante uns... nós estamos em 2022, daqui pra, entre uns seis a oito anos, porque eu acho que pra você ter, montar uma empresa realmente que não seja só de passagem. (Dan)
(a7) Mas lá [na cidade onde cursara, na ficcional, o mestrado] também eu arrumei um emprego. Consegui um emprego em uma empresa, eu trabalhava na área de gestão de pessoas porque era o que eu tinha, a minha especialização, e eu fui fazendo e tentando adaptar o que eu... eu tava tentando conciliar com o meu mestrado que eu estava fazendo ao mesmo tempo. [E aí você estava gerenciando na empresa?] Isso, gerenciando na empresa, e devido à experiência que... tinha pouca experiência, mas devido ao currículo bom com publicações e com..., e como tinha especialização, e devido ao mestrado, que estava fazendo o mestrado, que eu tinha sido valorizada pela empresa, que eu tinha começado num cargo mais baixo, mas depois eles tinham... eu tinha evoluído com o tempo do mestrado e tinha chegado à gerência nos últimos anos. (Mari)
(a8) Eu entrei no cargo de auxiliar administrativo normal [...] um tempo depois, 1 ano, a minha gerente, ela saiu, ela aposentou-se e tal, e eu assumi, tive minha competência reconhecida e assumi o lugar dela, e fiquei gerenciando lá [...] fiquei ainda lá mais dois anos trabalhando nessa empresa, até que eu resolvi tentar mesmo meu sonho, que era a carreira acadêmica [...]passei no concurso e tava começando a me instalar lá na época. Tava bem recente lá, e tava começando a me instalar direitinho, e tava achando que o campo da Administração tava melhorando pra os profissionais, assim, que eu gostava muito do que eu fazia lá na outra empresa, gosto do setor privado um pouco e da coisa da competitividade do setor privado, da pressão, às vezes é bom, mas que eu tinha buscado a estabilidade, mas não através de concursos públicos comuns, mas através..., lecionando, porque eu acho que dessa forma eu podia passar algo, não deixar morrer o que eu aprendi, e passar isso pra outras pessoas. Eu continuaria exercendo a minha profissão, com certeza, lecionando. (Mari)
(a9) Mas hoje eu tenho planos, ainda, de futuramente assim, quando eu me estabilizar melhor, uma coisa que eu dizia muito que eu gostaria de fazer, eu vou conseguir fazer nos próximos cinco anos, talvez, de ter um negócio próprio, assim pequeno talvez, não sei..., pensar muito bem. (Mari)
Fonte: Elaborado pela autora.
b) Contexto: universidade
A respeito da universidade, conforme expõe o Quadro 61, os alunos tendem a apresentá-la como um lugar de elevada valorização social, especialmente as do âmbito público federal, valoração que, no caso de Mari, foi decisiva na sua escolha de curso, sob a influência familiar (a1). Assim, sua chegada ao curso de Administração se deu menos por uma opção consciente e mais pela consideração da importância e valorização de obter um diploma em uma universidade federal. Aparentemente, essa valorização inicial da
171 universidade parece se associar ao fato dos entrevistados a tomarem como local de acesso a um conhecimento importante, como se ela fosse uma espécie de depositária deste (a2, a3).
Dan, ao narrar o encontro fictício com seu ex-professor, reconhece neste professor um conhecimento a mais, um saber peculiar daquele que habita os territórios universitários (a2). Dan, ainda, ao resgatar experiências profissionais de sua história de vida, relembra que alguns ex-chefes, mesmo não graduados em Administração, frequentemente aplicavam à sua gestão um conhecimento da sua área de formação, conhecimento que ele qualifica como acadêmico, posto que acessado no contexto de uma graduação universitária (a3). A despeito da fala valorizadora da universidade e do reconhecimento desta como “guardiã” de um saber, há
também uma espécie de “ressentimento” permeando as falas do alunado sobre a mesma. Mari,
por exemplo, durante a entrevista sobre o encontro fictício com a ex-professora, investe numa narrativa de melhorias que ela julgava imprescindíveis ao curso universitário em que estudara, melhorias pela inserção de atividades qualificadas como o lado da prática da Administração: Empresa Júnior e montagem de escritórios (a4).
Quadro 61 – Contexto imediato: universidade Falas
(a1) Posso dizer que minha mãe nunca se meteu nisso, mas ela achava a Universidade X... há pouco tempo tinha se tornado universidade federal, e ela dizia assim: minha filha, olha os cursos da Universidade X, universidade federal, uma universidade tão boa. E da grade curricular que existia na Universidade X, Administração foi o que eu achei que mais se aproximaria de mim. (Mari)
(a2) E ele [o ex-professor personagem da ficcional] como ele era, é um pesquisador, um professor de universidade, e ele estuda sobre TI, ele já tinha um conhecimento e já foi passando algumas coisas que eu não tinha visto na palestra. (Dan)
(a3) Eu acho que em parte, alguns em parte, porque a sua formação como não é voltada muito à Administração, tinham uns que eram formados em Engenharia, tinha outros que eram formados em Matemática, e assim, como eles não tinham um conhecimento um pouco mais sobre Administração, eles queriam sempre aplicar um pouco o conhecimento que eles tiveram na academia, do seu curso, na Administração, só que muitas vezes não dava certo. Aí eles se complicavam um pouco. (Dan)
(a4) A desistência, pra entrar em outros cursos, diminuiu, com o passar dos anos... o curso recebeu uma valorização das próprias universidades, que passaram a investir mais. A própria Universidade X, ela [ex- professora personagem da entrevista ficcional] me contou, que continuou lá por alguns anos até sair de lá, que foi quando ela fez o pós-doutorado dela, com mais investimentos em fundação de Empresa Júnior, em levar mais os alunos pra vivenciar a prática de montar pequenos escritórios dentro da universidade, que na minha época ainda era muito falha essa parte prática do curso devido a ser um curso novo, na época em que eu entrei, mas que os anos tinham feito muito bem à universidade em geral. (Mari)
172 c) Contexto: organizações
Sobre a dimensão organização (ver Quadro 62), a narrativa do alunado também se apresenta com tom valorativo. É interessante observar que suas falas restringem as organizações ao tipo empresarial. Os alunos parecem indicar que estão se formando em Administração para gerir tão somente empresas (a1). Se, para eles, a universidade é a
depositária ou guardiã do conhecimento, a empresa é por eles apresentada como a “dama dos objetivos”, e mesmo definidora do que é administrar: atingir de alguma forma os objetivos da
empresa (a1, a2). São os objetivos empresariais que devem nortear tudo e todos, incluindo o trabalho do Administrador. Os entrevistados flexibilizam a maneira de trabalhar do Administrador, que pode ser personalizada; mas não o resultado, que deve ser sempre aquele que cumpre os objetivos empresariais (a2).
Mari utiliza uma metáfora interessante e recorrente na literatura da área, como apontado no Capítulo 3, que é a de conceber e narrar a organização enquanto organismo vivo, através do uso da expressão “corpo organizacional”; e evoca com esta metáfora conteúdos ligados à visão sistêmica da realidade, donde dimensões como adaptação, estabilidade, ajustes entre elementos são as que qualificam o trabalho dentro das organizações (a3). Mari, inclusive, pontua as mudanças atuais por que teriam que passar esses “corpos
organizacionais” para se manterem “saudáveis”: necessidade de se tornarem enxutos,
especializando-se em atividades específicas (a4).
A visão de um ajuste sistêmico de elementos que a metáfora do organismo evoca é, então, especificada no discurso do alunado em relação aos funcionários, destacando-se dentre