Em seu estudo sobre a história da imprensa no País, Nelson Werneck Sodré aponta a passagem do século XIX para o século XX, como o momento de diferenciação entre o jornal e a revista, que ocorreria devido ao desenvolvimento das artes gráficas e ao aumento da necessidade de informação por parte da sociedade brasileira (Sodré, 1999). Nesse momento, o jornal deixa de ser uma atividade artesanal para se tornar uma atividade industrial e capitalista, delineia-se, assim, a transição da pequena para a grande imprensa (ibidem). No novo panorama, cresce a profissionalização dos colaboradores dos jornais, que vão, aos poucos, abandonando seu caráter literário, passando a publicar mais notícias e matérias jornalísticas e deixando para as revistas um conteúdo de teor mais literário, mundano e crítico (ibidem). Os jornais assumiriam, assim, um papel mais informativo, e as revistas, um enfoque mais literário, opinativo e doutrinário (ibidem). Outro elemento de diferenciação entre os dois gêneros teria relação com o desenvolvimento das artes gráficas, com o uso de fotografias e desenhos, que possibilitariam a edição das chamadas revistas ilustradas (ibidem). O impacto causado pelas revistas ilustradas no Brasil, surgidas a partir dos anos de 1860, também é destacado por Martins, que afirma que esse tipo de publicação era o preferido de grande parte do público leitor (Martins, 2001).
Brasil, consideram as revistas instrumentos da modernidade. Tal aspecto estaria relacionado ao fato de as revistas não terem apenas um caráter informativo, como os jornais, podendo incluir as idéias dos que nelas escreviam, mantendo seus leitores, ao mesmo tempo, informados e atualizados com o que acontecia e o que se pensava na sociedade brasileira (Martins, 2001 e Freire, 2006). Para Martins, a característica mais marcante da revista seria “espelhar o presente”, mostrar o tempo no qual foi feita, retratando a prática e a produção cultural de determinado período (Martins, 2001, p. 148).
A boa aceitação das revistas estaria vinculada ao desenvolvimento das artes gráficas, a seu conteúdo mais leve e ao fato de serem de menor custo em relação aos livros (Martins, 2001). Outros fatores apontados para o sucesso das revistas seriam: a possibilidade de reunir em uma única publicação assuntos variados, a ampliação do número de leitores e a apresentação do texto com muitas ilustrações, o que facilitava o consumo por parte de um público pouco acostumado a ler (ibidem). A profusão de imagens nos periódicos permitia, inclusive, que eles pudessem interessar aos que não soubessem ler – fatia essa que, no caso do Brasil, alcançava a marca de 80% da população (ibidem). A proliferação das revistas seria, ainda, devida ao surgimento de uma classe média urbana, interessada em temas culturais e ao fato de elas terem assumido um papel de vanguarda e modernidade, o que agradava aos leitores, também ansiosos por se tornarem “modernos” e atualizados (Velloso, 1996).
A partir de 1900, as revistas vão deixando de ser apenas iniciativas de homens de letras e passam a ser produzidas por homens de negócios, começando a se voltar aos públicos especializados (Martins, 2001). As revistas de maior tiragem e que tiveram vida mais longa foram dirigidas por empresários, homens que se dedicavam à editoração como um negócio rentável (ibidem). Acompanhando essa mudança, a revista começava a se caracterizar como o veículo ideal para a publicidade, na medida em que as duas tinham objetivos comuns: tornarem-se conhecidas, divulgar e vender. A revista se transformaria, assim, na “embalagem ideal para o produto publicidade” (Martins, 2001, p. 244). Na opinião de Martins, por intermédio do
periodismo agrícola via publicidade, muitos produtos norte-americanos entraram no País: de utilidades domésticas a equipamentos agrícolas (Martins, 2001).
Muitas revistas assumiam as características de revistas de variedades e ilustradas. Na tentativa de atrair o público leitor, mesmo entre as revistas especializadas, essa orientação se mantinha, podendo tais revistas ser consideradas de variedades, pois, dentro de suas especialidades, os temas se diversificavam (ibidem). O mesmo pode ser dito em relação à literatura, que se espalhou no periodismo do fim do século XIX e das primeiras décadas do século XX, inclusive nas revistas especializadas, as quais apresentavam em suas páginas poesias, contos e outros gêneros literários (ibidem).
Em levantamento sobre o periodismo brasileiro entre 1912 e 1930, no que se refere à origem geográfica das revistas, São Paulo obteve o primeiro lugar, no ano de 1912, com 341 periódicos, ficando o Rio Grande do Sul, com 124, em segundo lugar (Martins, 2001). Em 1930, São Paulo manteve-se na liderança com 706 títulos, cabendo ao Distrito Federal o segundo lugar, com 524 (ibidem). Em outro levantamento referente às revistas por especialidade, no mesmo período, as revistas agronômicas apresentaram um total de 23 em 1912, contra 34 no ano de 1930, significando um crescimento da ordem de 47,8% (ibidem).
O papel dos periódicos, seus leitores e a divulgação científica no Brasil têm sido tema de vários estudos7 históricos. Ferreira em seu artigo sobre
periódicos médicos argumenta que o papel social atribuído ao periódico pela sociologia (de regulador do comportamento do cientista, tanto no que se refere à livre comunicação do conhecimento, como ao reconhecimento da
7 FERREIRA, Luiz Otávio (1999). “Os periódicos médicos e a invenção de uma agenda sanitária para o
Brasil (1827-1943)”. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, V. 6, n. 2, pp. 331-51; FERREIRA, Luiz Otávio (1996). O nascimento de uma instituição científica: os periódicos médicos brasileiros da primeira metade do século XIX. Tese (Doutorado em História Social). São Paulo: USP; VERGARA, Moema Rezende (2003). A Revista Brasileira: vulgarização científica e construção da identidade nacional na passagem da Monarquia para a República. Tese (Doutorado em História Social da Cultura). Rio de Janeiro: PUC; DUARTE, Regina Horta (2004) “‘Em todos os lares, o conforto moral da ciência e da arte’: a Revista Nacional de Educação e a divulgação científica no Brasil (1932-1934)”. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, V. 11, n. 1; De LUCA, Tânia Regina (1999) A Revista do Brasil: um diagnóstico para a (N)ação. São Paulo: UNESP.
propriedade intelectual) ficaria aquém do que ele acredita ser a função social do periódico (Ferreira, 1999). Este cumpriria uma
“
função social mais ampla de intermediário entre a comunidade científica e a sociedade” (Ferreira, 1999, p. 333). Ainda segundo seu estudo, esse diálogo fica claro quando se observam os temas escolhidos para publicação, os quais espelham questões sociais da época, demonstrando a preocupação dos médicos em “falar” para uma audiência menos restrita (ibidem). O mesmo se aplica aos cientistas que publicavam em periódicos agrícolas e que desenvolviam pesquisas em suas instituições, nas áreas relacionadas à agricultura e à pecuária. Publicar nessas revistas, principalmente quando se tratava de revistas de grande circulação, garantia a eles um contato maior com potenciais usuários dos conhecimentos e produtos gerados por eles. Entendo que, nos trabalhos que tratam de divulgação científica, tem sido este um dos enfoques: procurar entender o comportamento do cientista, como ele interage com seus pares e com a sociedade como um todo, e o papel de um instrumento que estabeleça esse vínculo, no caso, o periódico.A história dos periódicos científicos é também a história da institucionalização da ciência. Os primeiros periódicos, Journal des Savants e
Philosophical Transactions of the Royal Society, com início em 1665, eram
publicados respectivamente pela Académie des Sciences de Paris e pela Royal Society de Londres. Com a publicação de periódicos começou também o sistema de árbitros, que julgaria o que devia ou não ser publicado, reforçando o sistema de avaliação da ciência. Para Merton e Zuckerman (1985), o sistema de árbitros surgiu como um “subproduto da emergente organização social dos cientistas” (Merton e Zuckerman, 1985, p. 581). Segundo esses autores, ainda, o aparecimento dos periódicos científicos propiciou a efetivação do imperativo institucional chamado de comunismo – a comunicação aberta de descobertas científicas, o que permitia seu compartilhamento com todos os cientistas. O artigo de periódico garantiria também ao cientista a prioridade de suas descobertas e asseguraria a propriedade intelectual.
No século XIX, foram criados milhares de periódicos no Brasil, dos quais cerca de 10% eram relacionados à ciência, observando-se um crescimento acentuado nos periódicos voltados à ciência a partir de 1860 (Moreira e Massarani, 2003). Assim, em 1857, foi criada a Revista Brazileira – Jornal de
Sciencias, Letras e Artes, dirigida por Cândido Batista de Oliveira, que tinha
como seus colaboradores os cientistas: Freire Alemão, Emmanuel Liais e Guilherme S. de Capanema. No ano de 1876, foi lançada a Revista do Rio de
Janeiro, com o intuito de se vulgarizar as ciências, entre outros temas (ibidem).
Para Ferreira, os periódicos médicos brasileiros do século XIX se configuraram como instituições científicas, fazendo parte de uma fase da institucionalização da ciência no País (Ferreira, 1996). Os periódicos científicos cumpriram segundo essa argumentação, um papel de legitimação social da atividade científica e de produção de conhecimento, em um momento no qual a ciência ainda não era totalmente reconhecida como atividade profissional (ibidem).
O momento era de valorização da atividade e do conhecimento científico no Brasil, de institucionalização da ciência nacional, pois, além da criação de várias instituições científicas, os temas relacionados à ciência começavam a aparecer na grande imprensa e em revistas especializadas (Figueirôa e Lopes, 1997). Os periódicos científicos ou relacionados à ciência começavam a se proliferar, muitos deles publicados pelas próprias instituições científicas, como:
Archivos do Museu Nacional (1876), Memórias do Instituto Oswaldo Cruz
(1909), Memórias do Instituto Butantan (1918) e Arquivos do Instituto Biológico (1928), entre outros.
As instituições científicas criam seus próprios periódicos como meio de garantir um canal de divulgação dos trabalhos de seus pesquisadores. O Instituto Biológico de São Paulo, por exemplo, preocupou-se em criar dois periódicos, esses destinados a públicos distintos. Em 1928, iniciou-se a publicação de Arquivos do Instituto Biológico, voltado ao público especializado, nas palavras de José Reis: “repositório dos trabalhos originais de pesquisa realizados no Instituto” (Reis, 1939, p. 79). Em 1935, já sob a direção de Rocha
Lima, foi criado O Biológico, também escrito pelos cientistas do Instituto, mas dedicado ao público mais amplo, direcionado a garantir um canal de comunicação com os criadores e agricultores (Reis, 1939; Reis, 1983a).
Entre as publicações especializadas que começaram no período, incluíam-se as revistas agrícolas, médicas, jurídicas e culturais; entre as culturais, pode-se destacar a Revista do Brasil (1916) – importante publicação periódica, devido à longevidade que alcançou entre as revistas do gênero e por ter sido espaço privilegiado de debate em torno das questões nacionais (De Luca, 1999).