atender a um novo modelo de fazendeiro, surgido com a diversificação da agricultura, que ocorreu no País, a partir de 1895, com a crise do café (Martins, 2001). A publicação de revistas especializadas em agricultura se inicia de maneira modesta, mas cresceu nas primeiras décadas do século XX, procurando atualizar o homem do campo com a transmissão de conhecimentos especializados e tornando-se, acima de tudo, uma atividade lucrativa (Martins, 2001). A oferta de informação técnica por parte dessas revistas levou à ampliação do público leitor, alcançando, inclusive, o público feminino (ibidem).
Nas primeiras décadas do século XX, o periodismo agrícola brasileiro se ocupou em divulgar a política do setor e os benefícios técnicos por ele alcançados (Martins, 2001). Os primeiros periódicos agrícolas foram produzidos pelo Estado. Nos anos seguintes, a iniciativa privada assumiu esse gênero de publicação, tendo à frente empresários do setor editorial que guardavam ligações com o governo (ibidem). Em sua primeira fase, o empreendimento era dirigido por intelectuais, alguns deles pertencentes à elite agrária brasileira, com atuação no governo republicano. Posteriormente, especialistas envolvidos com pesquisas nas áreas de agricultura e pecuária lideraram o setor, aperfeiçoando a atividade (ibidem).
Dentre as revistas agrícolas do período, Chácaras e Quintais destacou- se por vários fatores. Primeiro por sua longa duração, de 1909 a 1970, depois pelas altas tiragens que alcançou: dois anos após ser lançada, contava com uma tiragem de 16 mil exemplares, com representantes comerciais espalhados em várias capitais brasileiras. Além disso, e talvez o fator mais importante, a revista contava com cientistas de renome entre seus colaboradores, alguns deles dirigentes de instituições de pesquisa, de ensino e de órgãos governamentais, como Arthur Neiva, Vital Brasil, Antônio Carini, Arthur Torres Filho, Edmundo Navarro de Andrade, Benjamin Hunnicutt, Carlos Moreira, Oscar Monte, Gregório Bondar, Parreiras Horta, Melo Leitão, entre outros.
Desde sua criação, Chácaras e Quintais estabeleceu uma forte ligação com seus leitores, por meio das diversas seções de consultas de que dispunha, nas quais os diferentes colaboradores da revista, cientistas e práticos respondiam às perguntas dos leitores. Segundo o conde Amadeu A. Barbiellini, editor de Chácaras e Quintais, esse seria um dos principais serviços que poderia ser prestado aos agricultores e criadores brasileiros.
A ciência brasileira era assunto de destaque nas páginas da revista. Ela aparecia não apenas por meio da produção de seus pesquisadores, como pelo espaço reservado na publicação para divulgar eventos institucionais. Assim eram noticiadas inaugurações e comemorações de instituições de ensino agrícola de níveis médio e superior e de institutos de pesquisa científica. Eram publicados também eventos, relatórios e atas de reuniões de associações científicas e profissionais, como a Sociedade de Agricultura Paulista, a Sociedade Brasileira de Entomologia e a Sociedade Comissária Avícola.
Outros periódicos agrícolas contemporâneos de Chácaras e Quintais que contaram com cientistas entre seus articulistas foram: A Lavoura, O
Criador Paulista, O Fazendeiro, a Revista de Veterinária e Zootecnia e o Boletim do Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio.
Apesar de serem todos periódicos agrícolas, seu público-alvo podia variar um pouco, estendendo-se dos pequenos aos grandes proprietários rurais, sendo O Fazendeiro mais voltado aos cafeicultores. O conteúdo das revistas também variava bastante, acompanhando o público leitor, incluindo
temas como: criação de animais, agricultura, produção de alimentos, botânica, veterinária, horticultura, entomologia, saúde pública, ensino agrícola, imigração e exposições.
Parte dos cientistas que publicavam em revistas agrícolas pertencia a instituições de pesquisa e ensino, as quais empreendiam estudos que atendiam aos setores agropecuários ou a áreas que subsidiavam estes, como o Instituto Agronômico de Campinas, o Jardim Botânico do Rio de Janeiro, o Instituto Biológico de Defesa Agrícola do Rio de Janeiro, o Instituto Biológico de São Paulo, a ESALQ, a ESAMV, o Museu Nacional e o Museu Paulista. No entanto, alguns cientistas que publicavam neste tipo de revista pertenciam a instituições científicas das áreas de saúde pública e ciências biomédicas, como o Instituto Oswaldo Cruz, o Instituto Butantan e o Instituto Pasteur de São Paulo, os quais, a princípio, não teriam nenhum vínculo com a pesquisa agrícola. A inter-relação se estabeleceu na medida em que as pesquisas realizadas nessas instituições adotavam o paradigma da medicina pastoriana, que estabelecia, muitas vezes, relação entre doenças humanas e doenças animais. As pesquisas nessa área resultaram, por exemplo, no desenvolvimento e especialização da entomologia, que identificava nos insetos a transmissão e a causa de doenças humanas, de doenças animais e de pragas na lavoura. Assim, nas instituições de saúde citadas, desenvolveram-se pesquisas em áreas como: entomologia, veterinária, ofidismo e química, que interessavam tanto a agricultores quanto a criadores. Publicar em revistas agrícolas representava para os cientistas um contato mais direto com os indivíduos a quem se destinavam suas pesquisas, era a oportunidade de ver aplicados na realidade os conhecimentos desenvolvidos por eles em seus laboratórios.
A divulgação científica em periódicos agrícolas tem sido pouco estudada. Entre os trabalhos mais recentes sobre o tema, podemos citar a tese de Moura sobre a revista Chácaras e Quintais e a dissertação de Temperini sobre o periódico O Campo.
O trabalho de Moura concentra-se na relação de Chácaras e Quintais com a educação rural, que se caracterizava pelo incentivo ao ensino agrícola e
às atividades como os clubes agrícolas, os quais estimulavam em crianças e jovens o interesse pela horticultura. Dedica-se, também, a descrever o pensamento de educadores paulistas, como Sud Menucci e Tales de Andrade, preocupados com o ensino rural e com as condições do homem no campo. Sua tese reúne informações detalhadas sobre a história da revista e de seu editor- proprietário, o conde Amadeu A. Barbiellini, que esteve à frente da publicação por mais de 40 anos, imprimindo na publicação a marca que associava o empreendimento comercial ao conteúdo científico (Moura, 2004).
Em seu estudo, Temperini apresenta o periódico O Campo na década de 1930 como um espaço de comunicação entre os cientistas e os agricultores. A autora o classifica como um “periódico de práticas”, explicando que assim o denomina por ser um meio de comunicação voltado à difusão de novas técnicas e conhecimentos agrícolas (Temperini, 2003 p. 35). Temperini identifica nos artigos da revista uma ênfase na necessidade de substituição, no campo, dos conhecimentos tradicionais pelos conhecimentos científicos. Os cientistas que publicavam na revista acreditavam que o trabalhador rural não deveria trabalhar apenas para suprir as suas necessidades: deveria planejar seu trabalho ao longo prazo. Esses cientistas incorporaram em suas atividades o ideário da modernidade e propugnaram uma agricultura nacional moderna. Para Temperini, os articulistas de O Campo veriam na ciência mais do que um papel civilizador; a ciência assumiria, até mesmo, um papel pedagógico (Temperini, 2003).
Como vemos, a atividade de divulgação proporcionaria para esses cientistas uma forma de intervenção social, no caso específico, nas áreas de agricultura e pecuária. É o caso também da produção dos cientistas na revista
Chácaras e Quintais. Em seus artigos, os cientistas buscaram transmitir
informações visando à melhoria das atividades agropecuárias, bem como das relacionadas com os cuidados da saúde.
A idéia de intervenção na sociedade pelos cientistas é recorrente, ela é destacada na literatura da história da saúde pública, por exemplo, quando se
caracteriza a medicina como uma ciência social na qual a atuação dos higienistas extrapola o exercício de atividades vinculadas aos conhecimentos médicos, intervindo na própria organização da sociedade (Lima, 1999). Segundo Murard e Zylberman, a idéia da “organização social” de que a ciência emprestaria seu conhecimento ao governo é uma herança iluminista (Murard e Zylberman, 1985, p. 58). Esse movimento dos médicos no sentido de organizar a sociedade se fortalece no século XVIII, na França, e está ligado ao aumento de confiança nos conhecimentos da higiene para curar e prevenir doenças. As epidemias de febre amarela e cólera na França nos anos 1830 fizeram com que fosse maior a sensação dos perigos sanitários e levaram os higienistas e médicos a buscar, cada vez mais, intervir na organização da sociedade (ibidem). Na metade do século XIX, houve uma mudança no objeto do campo de saber da medicina e de suas competências; a medicina não é responsável apenas pela saúde, ela passa a ser também responsável pela organização social. Médicos e sociólogos franceses se unem e estabelecem uma “ciência das sociedades”, que vem a ser a higiene social (ibidem, p. 60-61).
O que está sempre presente é a idéia de que os cientistas, em suas diferentes áreas do conhecimento, são detentores de saber que os capacita a intervir na sociedade e transformá-la. A atividade de divulgação científica seria uma das possibilidades de intervenção dos cientistas. Essa atividade proporcionaria aos cientistas ver seus conhecimentos aplicados na prática, operando mudanças na realidade, intervindo na sociedade, transformando conhecimento em prática e no processo, legitimando seu saber e ofício.