As classificações bibliográficas, como as conhecemos atualmente, são fruto do final do século XIX, quando foram elaboradas tabelas sistemáticas que pretendiam dividir o conhecimento de forma a ser funcional para encontrar informações e documentos. Chegamos aqui no terceiro e quarto nível da problemática das classificações discutido por Pombo (2002). A classificação dos livros e das informações representa, para a autora, um novo domínio no mundo das ciências, já que se propõe a especificamente tratar dos sistemas de classificação para organização de documentos.
o objecto de análise é então o conceito de classificação na sua idealidade e abstracção máxima; o objectivo, a constituição de
uma teoria da classificação que estude a totalidade dos possíveis sistemas de classificação e determine os meios da sua realização. (POMBO, 2002, p.3).
A autora faz uma observação em relação a Diemer que considera que mesmo que a classificação tenha fins utilitaristas é necessário, para sua elaboração, a ajuda dos filósofos, pois tratam de problemas clássicos da teoria do conhecimento.
Com a finalidade de estabelecer as relações devidas entre os documentos, mantendo as características intelectuais de sistemas de pensamento que foram desenvolvidos até o momento, os sistemas de classificação se tornaram instrumentos imprescindíveis para as funções dentro de uma unidade informacional. Desta forma, a classificação bibliográfica pode ser definida como:
[...] la agrupación u orden de libros y outro tipo de documentos según su contenido, formando grupos dentro de los campos de conocimiento humanos en que estos campos resultan ser compartimentos conceptuales. (SAN SEGUNDO MANUEL, 1996, p.69).
O ordenamento de documentos de acordo com o assunto de que tratam e sua separação ou junção que leva em consideração as semelhanças e diferenças é a base das classificações bibliográficas, pois, “Na verdade, quando nos referimos á classificação bibliográfica, subentendemos uma classificação que tem por base os assuntos tratados nos documentos.” (PIEDADE, 1983, p.65). Mesmo sendo bibliográficas, Piedade (1983), explica que uma classificação pode ter base filosófica ou não, e as que não tem são denominadas classificações utilitárias. A autora cita uma série de estudiosos29 que concordam ou não que as classificações bibliográficas sejam acrescidas de elementos das classificações filosóficas e descreve algumas características necessárias para tratar os documentos:
1. uma classe que reúna as obras sobre todos os assuntos, subdividida pela forma do documento;
2. subdivisões de forma, aplicáveis aos vários assuntos;
29Ver Piedade (1983, p.65-66).
3. uma notação, isto é, um conjunto de símbolos para representarem os assuntos e permitir a ordenação lógica dos documentos;
4. um índice, para facilitar a consulta. (PIEDADE, 1983, p.66).
Elementos para que seja realizada uma “boa classificação são enumerados por outros autores como em Pombo (2002), quando esta descreve, baseada em Apostel (1963), cinco elementos que seriam principais para uma classificação “real”: o mecanismo classificador, que incide numa execução boa ou má do ato de classificar; a determinação da estrutura classificatória a partir da sistemática multiplicidade de fins; a aplicação das classificações a um determinado domínio da realidade; há uma contextualização e uma historicidade a respeito dos domínios onde a classificação irá ser aplicada; todas as classificações se apresentam no formato arborescente, respondendo a estruturação de classes e subclasses originadas de domínios da realidade. De acordo com a autora, estas características se aplicam, diferindo por vezes conforme uma ou outra área do conhecimento ou contextualização, a todas as classificações que se propõe real, onde é possível compreender que às classificações bibliográficas podem ser também aplicáveis.
Em relação ao conceito de classificação bibliográfica, San Segundo Manuel (1996, p. 70) escreve que estas:
[...] se basan prioritariamente en las clasificaciones del conocimiento, pero añaden a éstas distintas características que las conforman como tales. En las clasificaciones documentales las consideraciones de orden práctico priman sobre los fundamentos filosóficos, aunque éstos sean la base de su estructura, además estas clasificaciones son aplicadas indistintamente a bibliografías y bibliotecas. Así la practicidade de las clasificaciones documentales conlleva características o critérios que determinan la adecuación y utilidad del sistema. A autora explica que as classificações bibliográficas têm o objetivo de ordenar os grupos temáticos de uma determinada unidade documental e elaborar catálogos e bibliografias sistemáticas que sejam úteis à recuperação das informações, sendo que toda a documentação seria regida
por uma ordem que se interrelaciona (SAN SEGUNDO MANUEL, 1996). Nesta direção, Tálamo et al (1995), escrevem que o acesso à informação sempre é realizado através de intermediações, ou seja, sempre terá um meio para ser transmitida, sendo assim, as intermediações, em uma biblioteca, se materializam nas figuras dos catálogos e bibliografias onde as informações podem se relacionar de forma a dar acesso a documentos que estariam eventualmente dispersos. Tálamo et al (1995, p.53), explicam que:
Para entender essa organização é preciso considerar, inicialmente, os sistemas que lhe servem de base. Pode-se afirmar, sem erro, que tais sistemas são de natureza classificatória, isto é, partem do princípio de que as informações podem ser organizadas em um número infinito de classes.
A exemplo de outros autores, San Segundo Manuel (1996), também aponta algumas características e requisitos para que uma boa classificação seja realiza sendo que em primeiro lugar é necessário envolver de forma geral os diversos assuntos, em toda a sua extensão, para que sejam contemplados os diferentes ramos do conhecimento e deve ser expansiva, tendo espaço para novos assuntos e conceitos; deve ser lógica e compreensível e ter um esquema de facetas, para conseguir chegar a todos os assuntos mesmo os menos específicos; deve incluir aspectos como divisões que se remetem a forma, lugar e tempo para a classificação se tornar mais completa; deve conter uma notação adequada à organização e representação dos assuntos; deve ter o cuidado de relacionar e combinar conceitos a partir do desenvolvimento de símbolos documentais, onde é possível expressar por exemplo, pontos de vista sobre um assunto; o índice alfabético deve ser claro e funcional para localização mais rápida de assuntos e por último deve explicar de forma clara como o instrumento pode ser utilizado (SAN SEGUNDO MANUEL, 1996).
Com base em San Segundo Manuel (1996), nos referimos ao sistema de classificação de Jacques Charles Brunet, que, no mercado livreiro parisiense do século XIX, escreveu o Manuel du libraire et de l’amateur de livres, um repertório bibliográfico para os fundos de livros que seriam comercializados (SAN SEGUNDO MANUEL, 1996). A autora explica que
Brunet não foi o primeiro a elaborar um instrumento assim, sendo que em 1678, um teólogo francês chamado Jean Garnier, elaborou um sistema de classificação para organizar a Biblioteca del Colegio Jesuita de Paris, onde, de acordo com a autora, inovou ao deixar as divisões das disciplinas que eram oferecidas nas faculdades e estabelecer grupos temáticos que incluíam a Teologia, Filosofia, História e Jusriprudência. No contexto onde se encontrava, a classificação de Garnier foi um marco por ter sido realizado sob uma estrutura doutrinal. Desta forma, com a influência de Garnier, Jacques Brunet elaborou o seu sistema que apresentou notações mistas e complexas, que combinava algarismos arábicos e romanos e letras maiúsculas e minúsculas (SAN SEGUNDO MANUEL, 1996; PIEDADE, 1983).
Por ter sido muito difundido, este sistema leva o nome de Brunet, sendo até hoje visto como um esquema de classificação que teve grande expansão. De acordo com Piedade (1983, p.71)
Este sistema foi a classificação européia que maior influência exerceu no continente e serviu de base às classificações utilizadas na biblioteca Nacional de Paris, na Biblioteca de Sainte Geneviève (Paris) e no British Museum.
No século XIX pode-se dizer que o sistema francês de classificação foi dominante, no entanto, de acordo com San Segundo Manuel (1996), no final do século foi sendo substituído pelos sistemas anglo-saxões como o de Melvil Dewey.
O exemplo de um sistema de classificação bibliográfica de grande difusão é a Classificação Decimal de Dewey. Em 1873, Dewey apresentou à biblioteca onde trabalhava um plano que sugeria a reorganização dos livros a partir da divisão dos campos do conhecimento. A partir do estudo das obras dos grandes filósofos como Aristóteles, Locke, Bacon, Harris, a CDD não rotulava as estantes e sim permitia de forma específica que os livros fossem encontrados. Tálamo et al (1995, p.54) definem o sistema da seguinte maneira:
[...] sistema de classificação geral porque apresenta a ordenação de todo o conhecimento humano. Qualifica-se como bibliográfica porque, ao contrário dos sistemas de classificação
filosóficos que se preocupam com a hierarquização do conhecimento e com a ordem da ciência e das coisas, serve de base para a organização de documentos estabelecendo relações entre eles, para facilitar sua localização.
Desta forma, o sistema de Dewey se apresenta como uma classificação enumerativa, onde indica os assuntos de forma a apresentar símbolos que representam o conhecimento (PIEDADE, 1983). O sistema, como indica San Segundo Manuel (1996), nasceu para responder às necessidades práticas de uma determinada biblioteca de tipo específico, semelhante a uma biblioteca municipal ou escolar, que precisavam dispor de forma imediata os livros acessíveis a seus usuários. A CDD é totalmente fruto de sua época e contexto, sendo que a autora coloca que “[...] no tuvo nunca Dewey la pretención de hacer una clasificación científica, sino que trató en todo momento, de solventar unas necesidades prácticas.” (SAN SEGUNDO MANUEL, 1996).
Desta forma, a classificação tem a função ordenar fisicamente documentos em estantes de bibliotecas e ordenar as fichas bibliográficas nos catálogos de bibliotecas (TÁLAMO, et al, 1995). Para o estudo das similaridades entre assuntos, a CDD é útil, pois os trata sistematicamente, no entanto, há algumas críticas a respeito da representação adequada das ciências, mostrando suas relações de interdisciplinaridade. Pode-se visualizar, nos apontamentos onde se discute a separação das Ciências Sociais da História e a distância entre as Línguas e a Literatura (PIEDADE, 1983).
A estrutura da CDD contém as ciências divididas em dez classes que são subdivididas em dez e assim por diante. Também contém tabelas auxiliares onde é possível definir tempo, lugar, forma, etc, para que as classificações se tornem mais específicas. Em relação à elaboração do sistema de classificação por Dewey, Vikchery (1980, p.203) explica que:
O ponto de partida de Dewey foi o pensamento crítico especulativo, de mod que o grupo 1 foi constituído da Filosofia. O espírito individual, ainda não absorvido na multiplicidade dos fenômenos mas concentrado na abrangência, fica próximo à Religião...Conseqüentemente nos dois primeiros grupos encontra-se uma transição da concepção individual para a concepção coletiva, uma transição que assume uma forma mais concreta no grupo 3, onde se acham as Ciências
Sociais... Em seguida, a comunidade que busca e constrói seu conhecimento faz uso da Linguagem... Então, segue em primeiro lugar a Ciência Pura... levando às Ciências Aplicadas....A abordagem de Dewey foi assim apenas tão subjetiva quanto a dos outros idealistas do século XIX, usando dicotomias como abrangência e múltipla, individual e coletiva.
A visualização do sistema de classificações de Dewey é a seguinte:
Quadro 6: Sistema de Classificação de Dewey - CDD
000 Generalidades 100 Filosofia 200 Religião 300 Ciências Sociais 400 Línguas 500 Ciências Puras 600 Ciências Aplicadas 700 Artes 800 Literatura
900 Geografia. Biografia. História
Fonte: Elaborado pela autora
Dewey dividiu o conhecimento, de acordo com Piedade (1983) como se fossem nove bibliotecas especializadas e criou uma décima classe para incluir os materiais como enciclopédias, revistas, etc. O sistema teve grande aceitação sendo adotado para a Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos e pela British National Bibliography, o que mostra a importância que a organização sistemática trouxe.
A hierarquia é estabelecida através de dois aspectos: na notação, onde tem-se a representação com assunto
Além das criticas em relação às áreas do conhecimento, como exposto acima, o sistema de classificação de Dewey também é acusado de um nacionalismo exacerbado, já que foi criada para uma biblioteca norte americana, com influências culturais tipicamente de seu meio. Neste sentido, (SAN SEGUNDO MANUEL, 1996) utiliza De Golier (1976), para comentar o fato:
de todas las criticas [...] que, teóricamente justificadas pero la práctica inoperantes, denunciaban sus multiples defectos: nacionalismo manifesto, debido al lugar preponderante asignado a los temas relativos a los Estados Unidos de Améria; carácter arbitrário de ciertas separaciones [...]; falta de idoneidad de la sistematización com respecto al estado de los conocimientos científicos.
O sistema de Dewey nasceu em uma época em que os Estados Unidos passavam por mudanças como o final da Guerra Civil, a imigração em massa, a industrialização e o uso da mão-de-obra imigrante e a abertura de muitas bibliotecas públicas, que tinham a função de ser uma extensão do colégio, para assimilar e educar os imigrantes que chegavam. Os valores da classificação de Dewey são os valores da sociedade de sua época (SAN SEGUNDO MANUEL, 1996).
Mesmo com todas as críticas o sistema de Classificação Decimal de Dewey conseguiu seu lugar, pois tratou de utilizar os números decimais para dar a alternativa da organização, utilizando as classificações filosóficas como modelo para algo prático. Na introdução da 27ª edição da Classificação Decimal Universal, é colocada a importância da CDD quando mencionado o fato de seu importante papel no estabelecimento de fazer com que o assunto fosse representado por um código e que este fosse o principal recurso de organização de livros numa biblioteca, unindo os assuntos semelhantes.