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Apesar do recurso prolífico a sanções ou a ameaça do seu uso (como a proibição da entrada de certos indivíduos na Austrália), da cooptação forçada de alguns elementos das elites do Pacífico – sendo que algumas personalidades, apesar dos constrangimentos, não têm pejo em se considerar pró-australianas, pelos dividendos pessoais imediatos que tal posicionamento possa acarretar – e do uso de outros instrumentos de hard power ou híbridos, como a ajuda ou o projeto de estabelecimento do dólar australiano como moeda regional oficial (Dobell, 2007a), o Estado Federal australiano não tem, todavia, negligenciado totalmente os seus instrumentos de soft power. Com efeito, para além de uma tentativa expansão da rede diplomática australiana (Oliver & Shearer, 2011), ainda que na senda de uma viragem asiática constante do Livro Branco de outubro de 2012 (Commonwealth of Australia, 2012), bem como de um incremento de outros instrumentos de diplomacia pública como o Australian International Cultural Council (Broinowski, 2012), especificamente em relação às “audiências-alvo” no Pacífico, a Australian Network, televisão estatal, apesar das críticas e da necessidade de reformulação interna, bem como a Radio

Australia, parecem continuar a ser referências no Pacífico (Oliver & O’Keefe, 2011; Oliver,

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2012a e 2012b;), sobretudo tendo em conta a lenta penetração de novas tecnologias naquela região (Ley, 2012; Oliver, 2012b). Oliver (2012b) refere:

The Australian Network (…) remains the most-watched or the second-most watched international broadcaster in Pacific Island Markets. (…) Not only is it one of Australia’s principal vehicles for communicating its image, culture, strengths and values to the world, it’s also a valuable (and highly valued) source of independent news and current affairs for the region. (p.1)

A importância não só da Australian Network como dos órgãos de comunicação social australianos é evidenciada por Toby Ley (2012), que alega existir uma diferença entre os

media ocidentais, mais transparentes, e os do Pacífico, tendencialmente monopolizados

pelos Estados e veículos de propaganda, sendo crescentemente alvo de descrédito. É neste contexto que os órgãos de comunicação social australianos têm permitido certa permeabilização das políticas estatais australianas, veiculando conceitos e preceitos que lhes são favoráveis e de escopo universal, como defende Nye – contrastando com o que defende Ratuva (2008), quando acusa a Austrália de ser narrow-minded e paroquial no seu relacionamento com o Pacífico. Além de que, como revela Schultz para se referir ao caso Sandline, mas que poderá, eventualmente, aplicar-se a outras situações, “[t]he information and media offensive served to attract support for the Australian position both within Australia and by other key international players with influence (…)”(Schultz, 2012, p. 159).

Ley (2012) alerta, contudo, para ao impacto que as novas tecnologias (que chegarão, a prazo, às Ilhas do Pacífico de forma massiva) poderão ter na veiculação de informação, designadamente as redes sociais e a influência que estas poderão exercer no esboroamento e mudanças de regime. Neste particular, Ley (2012) dá conta da importância dos blogues no combate ao regime do Comodoro Bainimarama, nas Fiji, e da página de

Facebook do Pacific Institute of Public Policy, no tentativo mapeamento e influência de

sensibilidades populares, pelo menos na Melanésia.

O desporto tem sido, igualmente, um tentativo catalisador de influência no Pacífico, na medida em pode estimular as economias insulares e criar oportunidades de desenvolvimento pessoal e profissional da juventude insular, sendo instrumento de soft

power não negligenciável, como enfatiza Bubalo (2005 e 2010). Herr e Bergin (2011)

referem que a Comissão de Desporto australiana, em conjugação com a AusAID, têm desenvolvido programas desportivos que, caso sejam coordenados com o DFAT, podem

conferir valor acrescentado à diplomacia australiana, ao mesmo tempo que cumprem com alguns objetivos de desenvolvimento.

Outro dos instrumentos de soft power utilizado tem sido a denominada “diplomacia do Tsunami”, como vimos acima, longamente utilizada pela Austrália, na região do mundo mais suscetível a desastres naturais – sismos, ciclones e tufões, com 207 desastres desde 1950 (Herr & Bergin, 2011, p. 43) – e a ameaça de aumento do nível médio das águas do mar têm proporcionado a visibilidade das equipas de socorro australianas, bem como a possibilidade de a Austrália se tornar refúgio permanente para os Estados, como Nauru, ameaçados pela inexistência física.

Também os intercâmbios estudantis e a concessão de bolsas de estudo a estudantes do Pacífico se têm revelado particularmente profícuos, no estabelecimento de elites cultivadoras de certa “australofilia” – Thompson (2010) alude inclusivamente ao aprofundamento de ações que promovem a cooptação de futuros líderes e académicos do Pacífico –, ao mesmo tempo que pacotes de ajuda, no âmbito da saúde, têm ajudado a veicular uma boa imagem do continente-ilha no Pacífico insular (Herr & Bergin, 2011).

Por outro lado, a presença de comunidades de ilhéus na Austrália, para além da geração de remessas, tem-se revelado ambígua: ao contrário da Nova Zelândia, a Austrália acolhe um número diminuto de ilhéus (cerca de 40 000, segundo os dados de 2006) (Schultz, 2012, p. 58), não facilitando a compreensão mútua entre povos. Acresce ainda que, pelo facto de grande parte destes imigrantes possuir elevada qualificação, a Austrália tem sido acusada de promover uma “fuga de cérebros”, fragilizadora das economias e das sociedades do Pacífico (Thompson, 2010).

Para além destes instrumentos de soft power, cremos que a disseminação da língua inglesa será um dos mais significativos. Fruto do passado colonial britânico e, no caso da Melanésia, de uma proliferação de línguas autóctones, sem que haja idiomas agregadores e facilitadores da comunicação inter-étnica, o inglês (no seu padrão australiano ou britânico, ou nas múltiplas variedades de inglês insular) continua a ser a língua franca da região. Usada como língua oficial em 11 entidades da região75 e língua de trabalho das

organizações regionais, o inglês é, ademais, a língua primordial dos órgãos de comunicação social e dos sistemas de educação, desde o ensino primário até ao ensino superior, assumindo a Universidade do Pacífico Sul, em Suva, Fiji, um papel de protagonista no

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Designadamente: PNG (a par do crioulo e língua nacional tok pisin e do hiri motu), Ilhas Salomão, Vanuatu (onde o francês e o crioulo e língua nacional, bislama, têm estatuto de cooficialidade), Fiji (a par do hindi e do fijiano), Tuvalu (com o tuvaluano), Tonga (a par da língua tonganesa), Toquelau (com o toquelauano), Samoa (em conjunto com o samoano), Samoa Americana (a par do samoano), Niue (com o niueano) e as Ilhas Cook (em simultâneo com o rarotongano) (Lynch & Mugler, 1999).

desenvolvimento da produção científica da região (Lynch & Mugler, 1999). Também a literatura regional encontra espaço crescente na língua inglesa (1999, p.15-16), tornando-se numa sorte de veículo que, pelo modus cogitare que transporta e por se constituir como meio facilitador de comunicação, tende enformar a natural influência australiana na região, que não parece ameaçada sob este aspeto – não obstante algumas quezílias linguísticas no Vanuatu (Aldrich, 1987; Mrgudovic, 2006).