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Com esse novo redirecionamento funcional dado as Cidades, surgem às chamadas Cidades Globais ou Mundiais. Esse conceito, entretanto, fora cunhado bem antes da intensificação de um cenário Globalizante. Patrick Geddes em 1915, em sua obra “Cities in Evolution” apresentou a expressão “Capitais Mundiais”. Posteriormente, Peter Hall em 1966 e John Friedmann em 1986 (ambos fundadores do GAWC) também utilizaram esse conceito para definir as cidades que ocupavam o topo da hierarquia urbana mundial e/ou que comandavam a economia global. No estudo mais recente e mais direcionado aos conceitos utilizados neste trabalho, Sassen (1998, 2003), foi quem mais avançou no estudo das denominadas Cidades Globais. As constantes e intensas transformações ocorridas nas ultimas três décadas do Século XX, acarretaram significativas mudanças na economia e na política mundial, algumas dessas mudanças renovaram o papel e a importância das cidades como espaços destinados a diferentes tipos de atividade e/ou funções. Sassen (1998, p. 85) aponta:

Na fase atual da economia mundial, é precisamente a combinação da dispersão global das atividades econômicas com a interação global, mediante uma concentração frequente do controle econômico e da propriedade, que tem contribuído para o papel estratégico desempenhado por algumas grandes cidades, as Cidades Globais ou Mundiais.

Cidades Mundiais se apresentam, dessa maneira, segundo Sassen (1998): i) Pontos de comando da organização da economia mundial, ii) Lugares e mercados fundamentais para determinadas e especificas atividades e iii) Espaços de produção de inovações. Dessa forma, entende-se por Cidades Globais ou Mundiais, como espaços territoriais de destaque e comando à economia global, obtido em decorrência de certas vantagens competitivas para tal função. São exemplos de Cidades Globais: Nova Yorque, Londres, Pequim, Paris, São Paulo dentre outras.

No presente contexto, pode-se afirmar que todas as localidades são ou estão inseridas a nível global. “Pressões do mercado externo sobre a produção local, a queda significativa das arrecadações governamentais em momentos de crises internacionais, ou mesmo os efeitos de fenômenos como a mudança climática são formas de observar essa inserção global.” (CONFEDERAÇÃO NACIONAL DOS MUNICÍPIOS, 2011). Ainda que, em um município no interior da região amazônica, onde as infraestruturas de comunicação e logística são limi- tadas, é possível verificar os efeitos da globalização. Belém e Manaus, lócus da presente pesquisa e as duas maiores e mais importantes metrópoles no contexto regional amazônico, não podem ser consideradas Cidades Globais, entretanto podem ser classificadas enquanto Cidades internacionais modernas (SOLDATOS, 1996). Ambas as cidades, ainda que paulatinamente, não se encontram alheias às relações internacionais e vem desenvolvendo estratégias e mecanismos de inserção internacional. Soldatos (1996) aponta um conjunto de parâmetros que caracterizam uma cidade internacional moderna, são eles:

1) Posição geográfica de abertura para o mundo;

2) Recebe fatores de produção estrangeiros (investimento, mão-de-obra, etc.) e fluxo de comércio (mercadorias e serviços);

3) Abriga instituições estrangeiras e internacionais (empresas, bancos e diversas outras instituições sócio-econômicas, culturais e científicas; organizações internacionais; etc.);

4) Exporta fatores de produção e suas instituições econômicas, sociais, culturais e científicas têm presença no exterior;

5) Multiplicidade de comunicações sociais com o exterior;

6) É diretamente interligada com o exterior por meios de transportes e de comunicações;

7) Possui um setor de serviços voltado para o exterior e oferecendo um sistema de suporte aos atores estrangeiros ou internacionais (hotéis, escolas internacionais, centros de convenções, etc.);

8) Possui uma mídia de repercussão e difusão internacionais;

9) Acolhe, regularmente, encontros e outros tipos de atividades internacionais (congressos, exposições, festivais, jogos esportivos, etc.);

10) Abriga instituições nacionais, regionais e locais de reputação internacional ou ativas no âmbito das relações internacionais;

11) Exerce uma paradiplomacia urbana (municipal ou privada), apoiada em serviços especializados de relações internacionais e em estratégias de internacionalização;

12) Mantém entendimentos (acordos, protocolos, etc.) com atores estrangeiros ou internacionais e participa das redes internacionais de cidades ou de instituições de cidades;

13) Possui uma população com composição étnica diversificada.

Tais parâmetros, expostos pelo autor, evidenciam também dois tipos de internacionalização das cidades: a passiva e a ativa. A Internacionalização passiva é desempenhada pelas cidades-espaço, “que acolhem atividades e instituições internacionais, mas não acolhem instituições e serviços de importância estratégica para o desenvolvimento de funções de influencia e/ou controle (empresas multinacionais e organizações internacionais)” (SOLDATOS, 1996, p. 11). A Internacionalização ativa é desempenhada pelas cidades-atores e seu papel dinâmico em redes de serviços e redes internacionais de governança, além de possuírem uma avançada estrutura de transportes, comunicações, tecnologia e produção. Panayotis Soldatos introduz e protagoniza o uso do termo, Paradiplomacia para designar as estratégias e formas de internacionalização de governos subnacionais, como as cidades e de tais parâmetros expostos pelo autor, consubstancia o fortalecimento de Cidades Internacionais Modernas. Ao analisar os fatores que compõem direcionam uma cidade ao contexto internacional, fica evidente, a importância de se estudar tal fenômeno e destacar o relevante papel de Belém e Manaus para a continental região do Trópico Úmido, ainda que não disponham de todos os parâmetros acima mencionados, em referência a uma cidade internacional.

Entretanto, cabe ressaltar, que tais fatores que concebem e direcionam uma cidade internacional moderna necessitam de uma cooperação intersetorial, o que no contexto das

duas cidades analisadas, é um entrave a execução e continuidade de ações no campo internacional, como pretende-se explanar no último capítulo. Yahn Filho (2011, p. 76) reitera:

Portanto, ser uma cidade internacional moderna não é algo que decorre de uma iniciativa isolada de um município com vocações para tal, mas é preciso contar com a visão estratégica de outras esferas de governos, que percebam nesta vocação uma possibilidade de ampliar suas vantagens competitivas.

Outro aspecto que incita ainda mais o debate entre Cidades Globais e Cidades Internacionais (foco deste trabalho), baseia-se no fato de que grande parte das ações internacionais empreendidas na área internacional e protagonizada pelas cidades, se deu no contexto de cidades médias e grandes; uma vez que elas “tem tido condições de atuar de forma independente ou despertaram politicamente para as relações internacionais e passaram a exercer alguma forma de inserção internacional estruturada e sistemática” (RODRIGUES, 2004, p. 30). Todavia, o Mundo globalizado e interconectado não favorece ou incita somente as médias e grandes cidades, há também a “incorporação de princípios e valores globais na ordem local, ou seja, internacionalizando o modus vivendi das cidades”. Como exemplo a isso, vale ressaltar a Agenda 216 (e sua influência em diretrizes do Estatuto da cidade) e os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio7 (que pela sua amplitude, passaram a ser municipalizados para que fossem alcançados), que afetaram a nível micro ou macro muitas cidades e governos locais em todo Mundo.