Em resposta as perspectivas e desafios apresentados pelo fenômeno da globalização, autores como Held; Mcgrew (2001) consideram que os Estados nacionais contemporâneos configuram-se gradualmente como espaço fragmentado de decisões políticas, amplamente influenciado e permeado por redes transnacionais, as quais, acabam por alterar em grande parte sua dinâmica tradicional. Por vezes, os mesmos, têm aumentado suas participações no campo das relações internacionais contemporâneas especialmente nos assuntos de meio ambiente, cultura e comércio exterior. Dessa forma, entende-se que a globalização, como fenômeno de transformação econômica, politica e social do cenário internacional, têm contribuído significativamente para dar maior protagonismo às unidades governamentais
subnacionais. Por essa razão, nota-se, o surgimento cada vez maior de espaços propícios para que os governos locais desenvolvam iniciativas de inserção internacional, “visando novas dimensões do processo de cooperação, bem como parcerias para promover o desenvolvimento econômico e social de suas regiões” (GOMES FILHO, 2011, p. 45).
Sob a ótica de uma nova realidade, Globalizada e Interdependente, o sistema internacional demonstra que cada vez mais estão sendo criados cenários de interação e integração a nível internacional que já não se restringem somente aos Estados-Nação. Gomes Filho (2011) reitera que o século XX foi palco da emergência de novos atores que não poderiam mais ser contidos nas fronteiras nacionais e que passaram a cumprir ou influenciar determinadas funções que tradicionalmente eram prerrogativas dos Estados. A ascensão e inserção internacional de unidades subnacionais, como os estados regionais, cidades e municípios é um exemplo dessas transformações a nível mundial e foco de análise deste trabalho. Sathler; Monte-Mór; Carvalho. (2009, p. 4) aponta:
As abordagens mais comuns acerca das dinâmicas das redes urbanas buscam levar em consideração questões importantes, tais como a diferenciação funcional das cidades, as relações entre tamanho demográfico e desenvolvimento, a hierarquia urbana e as relações entre cidade e região. A rede urbana é concebida como um conjunto de centros funcionalmente articulados e, nesse sentido, a intensificação da globalização em vastas áreas do mundo tem remodelado os padrões de hierarquia e de relacionamento entre as cidades.
A intensificação do fenômeno da Globalização tem um papel decisivo no avanço dos mais diversos tipos de fluxo. Robertson (1992) e Soja (2000) demonstraram que a Globalização comprime o Mundo e intensifica uma espécie de consciência global, “que alarga e aprofunda as relações sociais, desse modo, eventos globais passam a moldar acontecimentos locais, e vice e versa”. As cidades passam então, nesse cenário globalizante e interdependente a estabelecerem redes de inserção internacional voltadas ao desenvolvimento local. Esse dinamismo e novo funcionamento das Cidades decorrem de uma série de impactos causados pela Globalização, descritos por Sathler; Monte-Mór; Carvalho (2009): i) intensifica os fluxos; ii) amplia o alcance das redes e dos diversos nós; iii) estimula a regionalização; iv) muda a direção dos fluxos com a possibilidade do aprofundamento das relações entre o local e o global sem a atuação de centros intermediários; v) amplia a possibilidade de especialização funcional por parte das cidades; vi) atua na criação de áreas de exclusão. Held (2001) acrescenta que a globalização reflete uma percepção geral de que o mundo está sendo moldado rapidamente por forças econômicas e tecnológicas em um espaço social comum. Globalização pode ser compreendida, assim, como uma linha contínua do local para o global.
Para tal, o declínio da autoridade dos Estados é compensado, nesse contexto, pela crescente interação de outras instituições e organizações, como os órgãos locais e regionais.
Em meio as discussões acerca da Globalização, Interdependência e novos atores internacionais, Castells; Borja (1996) consideram que se estaria vivenciando a ascensão das localidades (cidades, regiões e estados) como centros de decisão na promoção do bem-estar social, de inserção internacional e do desenvolvimento. Essa nova logica, segundo os autores, direciona as cidades e governos locais importância significativa às agendas de desenvolvimento local com ligação ao exterior. Dessa maneira, incentivadas pelos ditames que a globalização impôs as economias nacionais e motivadas pelo declínio das politicas centralizadas de desenvolvimento regional, as cidades e governos locais tem nas relações internacionais, forte instrumento de desenvolvimento local e tem marcado presença cada vez mais intensa em agendas no exterior.
Romero (2004) explicita que nos últimos anos houve um crescente envolvimento das cidades na esfera internacional, e isso, paulatinamente vem se firmando enquanto um novo fenômeno nas relações internacionais, ao mesmo tempo que incorpora um conceito inovador na gestão pública local: a projeção internacional das cidades. A autora argumenta que até pouco tempo a gestão local se dava apenas na execução de obras públicas e serviços básicos, e que, “a abordagem das problemáticas urbanas sob o viés da dimensão internacional não tinha sentido, inclusive porque o paradigma dominante das relações internacionais supunha os Estados-nação como únicos atores públicos globais” (ROMERO, 2004, p.14). Nesse sentido, a autora lista três processos que corroboram ao novo marco de atuação internacional das cidades, são eles:
i) Um aprofundamento do processo de globalização que vem conduzindo à formação de um novo sistema mundial no qual se intensifica a economia, e a vida política e cultural. As cidades aqui funcionam como pontos de relações, troca e produção e participam ativamente destes processos, vendo-se ao mesmo tempo afetadas por eles e sendo ainda o lugar onde se desenvolvem as economias globalizadas. As cidades são regiões estratégicas para propagação das forças globalizadoras.
ii) A configuração de uma nova relação Estado-Nação/território subnacional, onde este último se constitui no “novo ator do desenvolvimento”. No marco de um retraçado da noção e funções do Estado-Nação e das unidades territoriais subnacionais, produz-se uma fragmentação das trajetórias de desenvolvimento: as regiões e cidades não têm mais um horizonte pré-definido nem estabelecido centralmente e devem ser agora gestoras do seu próprio desenvolvimento .
iii) Um avanço nos processo de integração regional que faz com que as políticas urbanas não se satisfaçam mais com uma visão de gestão limitada às fronteiras locais ou nacionais, pois os governos locais enfrentam o desafio de dar resposta à matriz de oportunidades e ameaças decorrentes do entorno imediato de integração regional, ampliando-se assim sua esfera de atuação e agregando-se às suas funções novas competências.
As cidades passam então a assumir uma nova agenda de desenvolvimento local, “agregando temas, problemas, desafios e modalidades de gestão, alterando também a escala espacial de atuação das mesmas” (RIBEIRO, 2008a). A atuação internacional das cidades, como conceito somado a gestão urbana (com conteúdo, metas, espaço institucional próprio) é um fenômeno recente que direciona as cidades e governos locais novas atribuições e um novo tipo de protagonismo no enfrentamento de grandes problemas urbanos (como segurança, pobreza, transporte, saúde) e também, na adoção de estratégias alternativas de desenvolvimento, “voltadas de um lado, para a atração de investimentos e a modernização da infraestrutura urbana e, de outro, para a melhoria da qualidade de vida, do bem-estar social e de um governo mais participativo.” (ROMERO, 2004, p. 24).
Esse novo cenário globalizado, o qual, as cidades tem atuado de forma mais intensa, já vem sendo estudado e analisado por muitos autores e teóricos de diversas áreas do conhecimento. Os fenômenos da globalização, juntamente da ascensão das cidades e governos locais são focos de análise de renomados centros de pesquisa, como o GAWC3 (Globalization and World Cities – Research Network) ou Rede de Pesquisa em Globalização e Cidades Mundiais (em tradução livre), que reúne pesquisadores do mundo todo acerca da temática das Cidades e seus desdobramentos em tempos de Globalização. O GAWC tem como seus fundadores, teóricos como Manuel Castells, John Friedman, Peter Hall, Saskia Sassen e Peter Taylor. Por reunir pesquisadores e pensadores de inúmeros países e realidades distintas, o GAWC é um renomado thinktank4 sobre os fenômenos da Globalização na realidade desses “relevantes atores políticos” (CASTELLS; BORJA, 1996, p. 45 ). Outro centro de pesquisa em torno da temática das cidades é o LSE CITIES5 (da London School of Economics and
Political Science), que é um centro internacional de estudos e pesquisas voltado as mais variadas interações advindas no âmbito das cidades, seja no campo econômico, social, político, ambiental, e até mesmo, cultural, arquitetônico e urbanístico. O centro tem como pesquisadores Ricky Burdett, Paul Kelly, Suzanne Hall e conta também com a colaboração de Saskia Sassen e Anthony Giddens, dentre outros.
3 Para maiores INFORMAÇÕES (LBORO, 2013)
4 Ou “Usina de Ideias”, são organizações ou instituições dedicadas a produzir e difundir conhecimentos e estratégias acerca de assuntos relevantes sejam eles de cunho político, econômico ou cientifico. Os think tanks podem atuar no campo do grupo de interesses, filiados a partidos e ideologias políticas, ou mesmo a governos e corporações privadas. No meio cientifico, a utilização de tal termo se dá em decorrência da congregação de pesquisadores ou centros de pesquisa (Como é o caso do GAWC e do LSE CITIES) em torno de temáticas comuns (no caso de ambos, as cidades) para que haja uma notável produção na área e que a mesma seja referenciada a tal centro, como referência e excelência para tal assunto.
A produção cientifica de enfoque multifatorial acerca das cidades, é algo em frequente expansão no meio acadêmico, dado as consequências de caráter dialético que o pós-Guerra Fria, a Globalização e a Interdependência entre as nações trouxeram as urbanidades. Entretanto, faz-se necessário um entendimento de que ainda que haja um esforço de centros renomados como o GAWC e o LSE CITIES, as cidades ainda são atores políticos recentes nessa esfera internacional e a produção cientifica voltada para tal, ainda é dominada pelos centros de pesquisa do Norte Geopolítico, o que muitas das vezes faz com que realidades especificas (como as da região amazônica) não integrem ou mesmo não sejam contempladas no espectro teórico acerca das cidades e governos locais. Dessa forma, faz-se necessário também adentrar tal espectro teórico com as experiências e o know-how local do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA), para demonstrar a Amazônia e suas duas maiores Metrópoles como atuantes nesse novo cenário global interdependente, multifatorial, conectado e propício as interações entre o local e o global.