Na infância o corpo funciona como um dispositivo sensitivo de exploração e aprendizagem, sendo que tendencialmente as crianças têm reacções cinestésicas em ambientes com estimulação musical gravada.
Boucsin (1997) estabelece, nesse sentido, uma relação entre o desenvolvimento psicomotor da criança e a exploração espontânea que esta faz das suas capacidades motoras. Considera, então, que para se despoletarem situações de improvisação ou exploração de movimento podem ser utilizados estímulos de ordem visual, auditiva, táctil ou cinestésica.
Temos verificado, precisamente, que a utilização de música gravada em actividades no pré-escolar é uma prática frequente, comum quer a professores especialistas quer a educadores generalistas, com amplas possibilidades ao nível da exploração da percepção sonora e da realização de movimento corporal (Rodrigues, 2007, 2011).
Para Metz (1989), as acções motoras mobilizadas pela criança poderão ser um reflexo de elementos específicos do estímulo musical, como seja o ritmo. Assim, música com acentuadas características rítmicas pode constituir um incentivo ao movimento espontâneo das crianças (Haselbach, 2006). Isso mesmo referem Meiners e Schiller (2003), ao observarem que as crianças “find delight in the discovery of the rhythmic
motion of their bodies making patterns in space” (p. 92).
É também nesse sentido que Shehan (1987) afirma: “When we are receptive to
Ou, ainda, que Sloboda (1990) comenta os movimentos de crianças com dois anos:
“They seem to reflect a general motor enthusiasm and exuberance which music somehow elicits” (p. 207).
Tomando como referência as improvisações de movimento que as crianças fazem para explorarem as possibilidades motoras do seu corpo, poderemos considerar que a música utilizada não só define a dança – através da pulsação, da métrica, do ritmo, da forma, da dinâmica, do carácter ou da expressão emocional – como poderá, também, definir ritmicamente a criança que dança (Haselbach, 1978a). E ainda que os elementos musicais possam não se manifestar directamente no acto motor da criança, o movimento não deixará por isso de ter uma correspondência com a música. Cada movimento, tendo uma duração, uma intensidade, uma forma de projecção no espaço, terá também uma determinada relação com a música que a criança dança.
Num estudo com crianças dos quatro aos seis anos, Sims (1988) observou que as crianças derem respostas semelhantes de movimento para frases musicais semelhantes, o que atribuiu sobretudo à mudança da estrutura rítmica das frases. Poderemos considerar, no entanto, que essa capacidade de discriminação poderá ter sido influenciada pela instrução realizada na fase de demonstração – “students where
instructed to ‘hop like a kangaroo when the music sounds like the kangaroo is hopping, and to stop and pretend to look around for food or hunters when the music sounds like the kangaroo has stopped hopping.’” (Sims, 1988, p. 111).
Neste âmbito, a estimulação musical gravada pode funcionar como motivação psíquica para comportamentos motores espontâneos, fazendo realçar determinadas componentes rítmicas do movimento.
Nessa linha de pensamento, será de ponderar a interferência de dois factores no movimento da criança quando em presença de música gravada: (i) as condições, isto é, as características individuais da criança – o estádio de desenvolvimento, a predisposição ou tendência de comportamento, o modo de representação –, que podem influenciar as respostas de movimento em função da forma como a criança codifica as suas percepções e mobiliza essa codificação; e (ii) as interacções estabelecidas durante a realização de movimento, nomeadamente com outra criança ou com o adulto (Metz, 1989).
Assim, os comportamentos rítmico-motores observados serão resultantes quer das condições quer das interacções da criança, devendo a análise ponderar ambos os factores.
Considerando as interacções sociais em idade pré-escolar, um estudo de Brown e Flohr (1979) indica que a imitação dos pares influencia os tipos de movimento expressivo mobilizados pela criança durante a audição de música. Esse facto foi observado com mais frequência quando a música não era familiar, não se tendo registado diferenças entre andamentos rápidos e lentos.
Moog (1976a) indica que, após os dois anos e meio, a criança tenta controlar os seus movimentos quando dança acompanhada, uma vez que procurará agir também segundo o estímulo motor da criança (ou adulto) com quem dança. No entanto, crianças de três e quatro anos dançaram normalmente sozinhas (apenas 25% das crianças observadas por Moog procuraram um adulto ou outra criança para dançar), pelo que os comportamentos sociais evidenciados através do movimento estariam menos desenvolvidos do que noutros domínios de comunicação, como o verbal. No entanto, embora três quartos das crianças não tenham tido iniciativa social, nenhuma recusou um convite para se juntar a uma actividade de movimento.
No âmbito da análise das interacções na resposta das crianças a música gravada, Metz (1989) observou que a imitação de movimento ocorria com maior incidência nas crianças com dois anos do que nas com quatro anos e que, sem distinção entre idades, a modelação de movimento pelo adulto era mais efectiva que a modelação pelos pares. Sloboda (1990) comenta o facto de, no estudo de Moog, muitas das crianças com cinco anos não terem realizado movimentos com a música referindo-se a uma tendência de desenvolvimento para a imitação e a precisão: “Because there is no definite model for
specific movements to be made, children prefer to make none” (Sloboda, 1990, p. 207).
Será nesse sentido que Moog (1976a) refere que, no relacionamento social através da música, a criança revela capacidade em se adaptar às outras pessoas, em procurar comportar-se de forma semelhança ao que acontece ao seu redor.
Também o nível de preferência (ou adesão mais rápida) por determinado estilo musical ou por características particulares da estimulação sonora para além do ritmo – incluindo a melodia, o timbre, a dinâmica ou a forma – pode ter influência na percepção musical e na reacção motora (Aldridge, Atkins, Bower & Flohr, 2000). Nesse âmbito,
Moog (1976a) refere que crianças entre os seis meses e os cinco anos e meio realizaram acções de movimento mais intensas com música instrumental e canções do que com percussão rítmica.
Estudos sobre preferência musical de LeBlanc (1981), de LeBlanc e McCrary (1983), bem como de Colman, LeBlanc, Malin, McCrary e Sherrill (1988), em que se utilizou apenas música instrumental, indicam que a faixa etária dos oito aos dezoito anos demonstra uma preferência generalizada por andamentos mais rápidos, tendência que é mais acentuada nas crianças com oito anos (conclusão limitada aos estilos musicais utilizados, nomeadamente jazz). Na base destes estudos está a ideia de que a criança (ou qualquer ouvinte) reagirá a um estímulo musical mediante a conjugação de três factores que podem determinar o processo perceptivo e a tomada de decisões: (i) as características físicas da música; (ii) a influência do ambiente cultural do ouvinte; e (iii) as características de personalidade do ouvinte.
Assim, os comportamentos poderão diferir, também, em função de outros elementos do estímulo musical não relacionados com o ritmo. Poder-se-á considerar, contudo, que a estrutura rítmica do estímulo musical exercerá uma influência determinante sobre o movimento. Nesse caso, diferentes características rítmicas da música poderão estar na origem de comportamentos rítmico-locomotores diversificados.
5. Contributos teóricos para a definição de um modelo de observação do