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SUMMARY

In document Coastal Zone Research (sider 5-8)

A aprendizagem baseada em problemas é mais do que uma técnica ou uma metodologia de ensino-aprendizagem. É um paradigma em que se propõe ao aprendiz que se torne o principal responsável pela aquisição de conhecimento e nessa condição se relacione com outros aprendizes buscando trocar pesquisas e informações, construindo uma relação de cooperação que possa trazer elementos capazes de agregar novas informações e novas formas de interagir.

O problema é o ponto central do paradigma, mas ele não é um fim em si mesmo. A solução do problema é importante para permitir ao aluno se apropriar do conhecimento, porém mais importante que o resultado encontrado são os caminhos percorridos para se chegar até eles. Esses caminhos se iniciam com a determinação dos objetivos de aprendizagem, se desenvolvem com momentos de estudo individual e discussão em grupo e se completam com a integração das pesquisas realizadas pelos alunos.

Na aprendizagem baseada em problemas, o aluno faz parte de um grupo com oito a dez componentes que deverão cumprir determinadas tarefas durante um módulo do curso. Concluído o módulo, o grupo se dissolve e seus integrantes são reorganizados em outros grupos para cursar novos módulos.

Os alunos se reúnem para receber um problema que deverá ser solucionado pelo grupo. Discutem, inicialmente, os principais aspectos que precisam ser esclarecidos no problema e, em seguida, realizam a pesquisa individual. Em uma

outra reunião, os componentes do grupo apresentam o resultado de suas pesquisas e constroem uma solução para o problema, considerando os vários aspectos pesquisados.

Desde o início, os alunos são orientados por um tutor cuja função é diferente da de um professor tradicional. É um professor que deve agir como um facilitador da apreensão do conhecimento por parte dos alunos. Para isso, orienta os alunos na pesquisa, na apresentação do material obtido e na discussão e solução do problema no grupo.

O problema é o desencadeador do processo de aprendizagem, mas solucioná-lo não é o único momento de aprendizagem que o aluno vivencia. A busca de informações de maneira individual e coletiva, a proximidade do problema com a realidade e o desenvolvimento da aprendizagem de forma contínua, são os elementos responsáveis pela construção do conhecimento do aprendiz.

A aprendizagem está presente no conteúdo obtido a partir das pesquisas individuais e da reflexão coletiva e, também, em todo o processo elaborado pelo aluno, principalmente na vivência que ele partilha com o grupo e o tutor do grupo.

O aluno aprende quando lê o problema e busca identificar, com os demais componentes do grupo, quais os principais aspectos a serem esclarecidos; quando realiza a pesquisa individual e decide quais os elementos que deve utilizar; quando sistematiza o material pesquisado a fim de prepará-lo para a discussão no grupo tutorial; quando escolhe o momento mais adequado para expor suas idéias; quando ouve o resultado das pesquisas realizadas pelos outros participantes; e, por fim, quando agrega os conhecimentos e reflexões de seus colegas às suas próprias reflexões e organiza o resultado da discussão promovida pelo grupo.

As dificuldades encontradas pelo aluno na pesquisa individual, na discussão com o grupo e no relacionamento com os demais participantes ou com o tutor são elementos que contribuem para a aprendizagem aproximando o aluno das situações que enfrentará na vida profissional e, muitas vezes semelhantes àquelas vivenciadas na aprendizagem baseada em problemas.

Nesse sentido é que a aprendizagem baseada em problemas é um paradigma. Constitui-se um modo de apreensão do conhecimento em que todas as etapas utilizadas para essa apreensão são relevantes e não apenas o resultado final obtido.

A solução do problema é ponto de partida e de chegada, mas ela não concentra a exclusividade da aprendizagem, porque se desenvolve desde o momento em que o aluno recebe o problema do tutor para ler e discutir os aspectos fundamentais que vão orientar a sua pesquisa individual.

Consultar livros, periódicos, portais na rede mundial de computadores, profissionais da área, professores do curso, ou qualquer outro meio de obtenção de dados, são opções que o aprendiz deverá avaliar, considerar e, por fim, escolher.

Organizar os dados encontrados e sistematizá-los de modo a realizar uma apresentação ou intervenção que seja proveitosa para o grupo, a fim de contribuir para a solução conjunta que está sendo construída é também uma forma de aprendizagem.

O relacionamento com o grupo e com o tutor, a opção do momento de falar, a maneira de sistematizar os dados trazidos pelos componentes do grupo, de argumentar, de criticar e ser criticado, a responsabilidade pela coleta de dados que contribuam para a discussão do grupo, entre outras tarefas e escolhas, são modos

de aprendizagem para o aluno. Além disso, são ocasiões que aliam a apreensão do conhecimento e a construção da identidade como adulto e profissional.

Toda essa dinâmica é diferente daquela que acontece com frequência nas salas de aula dos cursos de direito nas quais, normalmente, o professor é o transmissor do conhecimento e o aluno o receptador passivo.

A relação que os alunos estabelecem entre si próprios na aprendizagem baseada em problemas é diferente porque fundamentada no trabalho em grupo e na contribuição que as pesquisas e reflexões de cada um têm para o todo. Esse relacionamento nem sempre estável e harmônico é, em certa medida, um microcosmo das relações profissionais que os alunos irão vivenciar após o curso. Saber superar as dificuldades de relacionamento, assim como potencializar a contribuição do grupo, também é um diferencial na formação do aluno.

O aluno inserido em uma relação de ensino-aprendizagem convencional raras vezes desenvolve a competência para interagir em grupo, porque realiza sozinho suas atividades pedagógicas.

Por conta dessas características é que se pode afirmar que a aprendizagem baseada em problemas é um paradigma e não uma metodologia de ensino-aprendizagem. É uma proposta de outra organização da atividade de aprendizagem. Repensa o papel e a identidade do professor, configura uma outra possibilidade de convivência entre os alunos e entre estes e o corpo docente e reestrutura o próprio espaço universitário com o objetivo de potencializar as formas possíveis de acesso à pesquisa.

Nos cursos da área da saúde que implantaram a aprendizagem baseada em problemas, como a Universidade Estadual de Londrina e a Faculdade de Medicina de Marília, a proposta pedagógica se alicerçou também na atividade dos

alunos de medicina e de outros cursos da área de saúde junto à população carente de cada cidade, viabilizando a prática profissional em caráter comunitário e multidisciplinar.

A proposta de apreensão do conhecimento, aliada à integração do futuro profissional com a população carente, durante o período de sua formação, completa a efetivação de uma postura ética diferenciada do aluno envolvido no paradigma da aprendizagem baseada em problemas.

A postura ética se desenvolve no relacionamento com o grupo e com o tutor. Esse relacionamento deve ser caracterizado pela atitude colaborativa, de integração e respeito mútuos, além da solidariedade nas dificuldades enfrentadas por todos os alunos na trajetória.

O objetivo da aprendizagem baseada em problemas é formar um profissional com espírito crítico, com iniciativa para construir pesquisa e para aprender a aprender de forma permanente, preparado para atuar em equipes multidisciplinares e com a dimensão de respeito à dignidade da pessoa humana, seja daquela que dependerá de seu trabalho, seja daquela com quem irá conviver na vida profissional.

Masetto afirma

“Em sua filosofia curricular (o PBL) propõe o desenvolvimento de um processo de auto-aprendizagem, em contexto de aprendizagem colaborativa, a partir de problemas que são formulados pelos participantes do curso, explicitando os objetivos educacionais a serem alcançados. (...) Os componentes centrais para a operacionalização deste paradigma são: um problema como desencadeador da aprendizagem, atividades em grupos com acompanhamento de tutor, estudo individual, avaliação do desempenho do estudante e a organização de unidades de aprendizagem.” (Masetto, 2004, p.02-03)

A interação do estudo individual com o coletivo ocorre durante todo o tempo, em um contínuo ir e vir da reflexão e da pesquisa individual para a reflexão e

a pesquisa em conjunto, propiciando aos alunos buscar conhecimento sozinho e leva-lo para análise e contribuição do grupo e do tutor/facilitador.

Os grupos de alunos, permanentemente acompanhados por um professor que atua como tutor/facilitador nas discussões conjuntas e na orientação da pesquisa individual, são modificados ao final de cada módulo, propiciando aos alunos que convivam com diferentes colegas durante o período de duração do curso.

Para resolver o problema, aspecto central do paradigma, algumas instituições (Universidade de Londrina, Faculdade de Medicina de Marília, entre outras) que aplicam a aprendizagem baseada em problemas mencionam em seus manuais e documentos a necessidade de serem cumpridos sete passos:

1. leitura do problema, indicação e esclarecimento de termos desconhecidos;

2. identificação do problema proposto pelo enunciado;

3. formulação de hipóteses explicativas para o problema identificado no passo anterior;

4. resumo das hipóteses;

5. formulação dos objetivos de aprendizagem, ou seja, do que o aluno deverá estudar para aprofundar o conhecimento incompleto formulado nas hipóteses explicativas;

6. estudo individual dos assuntos levantados nos objetivos de aprendizagem;

7. retorno ao grupo tutorial para rediscussão do problema diante dos novos conhecimentos adquiridos na fase de estudo anterior.

Essa seqüência nem sempre é obedecida de forma rígida pelas escolas que utilizam a aprendizagem baseada em problemas. Komatsu (2002,p.172), por exemplo, sugere doze etapas. Uma delas prevê a repetição de algumas anteriores, caso fique constatado, por exemplo, que a pesquisa individual dos alunos não supriu adequadamente as necessidades.

Não há, a rigor, desvantagem alguma ou atraso no processo de construção do conhecimento se uma ou outra etapa tiver que ser repetida, desde que os próprios alunos cheguem a essa conclusão e sintam-se motivados a retornar ao estudo individual e à pesquisa de novos dados, pois no encontro com o grupo perceberam que os conhecimentos sistematizados não solucionaram integralmente o problema.

Esse retorno é saudável e não pode ser associado a fracasso ou incapacidade em solucionar o problema. Ao contrário, o trabalho realizado anteriormente não se perde e nem se torna inútil, mas apenas insuficiente em razão da complexidade do problema. O grupo, ao concluir dessa forma, provará ter maturidade para construir o conhecimento de que necessita.

A seqüência dos passos dá a dimensão dos aspectos essenciais do paradigma que combina o estudo em grupo e o individual, de modo a permitir que o aluno compare o conhecimento que pesquisou sozinho com o dos outros membros do grupo, que desenvolva a habilidade de pesquisar, sistematizar, sustentar as hipóteses formuladas e apresentar as dúvidas não resolvidas. Ao mesmo tempo, o processo leva a um questionamento maior sobre o problema e suas possibilidades de solução.

A análise dos sete passos propostos pela aprendizagem baseada em problemas permite estabelecer uma relação com o método científico, pois este

também parte de um problema e busca compreendê-lo, fundamentá-lo e construir hipóteses para se chegar à solução. Essas hipóteses devem ser checadas para depois serem comprovadas e certificadas como válidas.

Na aprendizagem baseada em problemas, as hipóteses para sua solução, construídas coletivamente no chamado grupo tutorial, são identificadas nas pesquisas individuais realizadas pelos alunos e no debate subseqüente promovido no grupo. Isso permite ao aluno não apenas realizar a tarefa de pesquisar, mas também, como já afirmado, realizar a etapa de organização das informações pesquisadas a fim de submetê-las à avaliação e análise de todo o grupo, inclusive do tutor, para então comparar os dados obtidos com aqueles que os demais membros do grupo apresentaram.

É um estimulante exercício de busca e organização coletiva do conhecimento que se torna significativo para os alunos, pois é resultado de um processo de aprender que vai da prática à teoria, assumindo um sentido inovador para os alunos, que estão habituados com a teoria antes da prática.

Ao estudar um problema inspirado na sua realidade de vida e que pode ocorrer no seu cotidiano, o aluno se sente motivado a pesquisar porque percebe a utilidade de seu ato, de seus esforços de busca de respostas. Esse trabalho é otimizado no grupo, local privilegiado para que as pesquisas individuais se integrem e alcancem novos questionamentos gerados pelo debate entre os participantes. Esses novos questionamentos deverão ser igualmente solucionados, o que permite aprofundar as questões propostas iniciais suscitadas pelo problema.

3.3 JOHN DEWEY E A FILOSOFIA DA APRENDIZAGEM BASEADA EM

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