Há nas políticas que pretendem, principalmente, nas comunidades social e economicamente desprivilegiadas uma perspectiva assistencialista da política social. Estas, por sua vez, tendem a atribuir ao esporte uma perspectiva salvacionista, com poderes quase que sobrenaturais de afastar e/ou impedir, isoladamente, a juventude pobre de se associar a criminalidade, a drogadição, a evasão escolar e outros conflitos sociais que existem em cidades/bairros periféricos.
Nossa análise nesta seara se dará a partir de três contextos que perpassam essas políticas: a) Certo determinismo aliado a um preconceito com a juventude pobre; b) Uma precariedade na execução dessas políticas; c) Uma pretensão de controle e disciplinamento dessa população a aceitar o status quo.
O determinismo e o preconceito ocorreriam quando se tem a ideia de que o jovem por morar numa área pobre e periférica estaria fadado à criminalidade e/ou drogadição. Segundo
146 Melo (2005, p. 81-82), há a “impressão de que a juventude pobre teria quase uma tendência ‘natural’, um destino inevitável, a enveredar-se pelo caminho das drogas e do crime, e que as políticas de esporte e lazer seriam relevantes para tentar ‘livrar’ esses jovens de seu ‘destino’”. Ou ainda, encontramos neste pensamento a ideia de que o jovem por estar desocupado em parte do seu dia estaria mais exposto à criminalidade.
[...] Percebemos claramente a posição de que o jovem se envolveria com o crime por não ter outras coisas a fazer, indicando uma suposta linearidade entre falta de opções de lazer e o ingresso no mundo do crime, além de estabelecer uma relação de causa- consequência. Assim, o esporte seria o “antídoto” perfeito para coibir tais práticas, uma espécie de analgésico social, sempre numa perspectiva conservadora de controle social (IDEM, p. 82).
Para Rodrigues (2008), a noção de esporte como um instrumento de combate à violência e à criminalidade se baseia numa livre associação que se convencionou estabelecer entre esporte, jovens como poucas condições materiais e subjetivas de superar os entraves sociais dos quais se deparam para ter uma vida digna e plena e a criminalidade. Esta, de certa forma, escancara e aprofunda a cisão de uma sociedade na qual se tornou lugar-comum a naturalização das desigualdades, exclusões, e estigmatizações sociais. Neste contexto, para os
[...] “jovens carentes” – presumidamente mais pré-dispostos a aderirem às atividades prejudiciais tais como o uso de drogas e a participação no crime – o esporte surge como uma espécie de vacina capaz de imunizálos e protegê-los durante seu período de tempo livre para que não venham a ser infectados pelos vírus da marginalidade. Já aos “jovens não carentes”, a prática de esportes no período de tempo-livre costuma ser associada a uma função lúdica e recreativa: um hobbie alheio à tarefa de educar para a vida (ao menos de forma direta) (RODRIGUES, 2008, p. 128).
Trata-se de uma visão também incorporada à retórica do discurso político-partidário. O deputado Ronaldo Martins do PRB/CE, por exemplo, em encontro oficial com o ex- ministro do Esporte (George Hilton), de mesmo partido, descreve os motivos que o levam a solicitar apoio a políticas de esporte em seu estado natal. Ele ressalta que88
[...] o esporte é o melhor caminho para preencher o tempo ocioso dos jovens, além de formar a consciência de cidadão, respeito e disciplina. “Buscamos algumas obras para os municípios de 55 mil habitantes, para incentivar os jovens a saírem das drogas e entrarem no esporte. Vejo que o esporte é a saída para tirar os jovens das drogas. No Ceará, temos vários exemplos que incentivam os jovens a prática esportiva. No boxe, por exemplo, nós temos um professor campeão que ensina a modalidade gratuitamente nas comunidades. A experiência mostra que qualquer tipo de incentivo tem tirado muitos jovens das drogas”.
88 Trecho da reportagem intitulada “Ministro George Hilton Debate Ações Esportivas em Município cearense”
retirada do próprio sitio do Ministério do Esporte em 25 nov. 2015. Conferir em
http://www.esporte.gov.br/index.php/noticias/24-lista-noticias/50323-ministro-george-hilton-debate-acoes- esportivas-em-municipio-cearense
147 No tocante à precariedade das políticas sociais de esporte, a lógica perene é políticas pobres para a juventude pobre. Essa, por sua vez, da vazão à relação de que as políticas sociais de caráter público e gratuito são precárias e de baixa qualidade e ilustram no consciente e inconsciente de seus usuários um conceito de cidadania deficiente e inconclusa quando advinda do Estado e/ou de seus parceiros. Como efeito, esse pensamento enriquece a ideia de que os serviços de qualidade estão na esfera do privado e que para que se tenha algo justo e satisfatório o cidadão deve adquiri-lo no mercado, fortalecendo, assim, a lógica do cidadão consumidor.
O controle e a integração social da população é uma ferramenta das mais antigas atribuídas ao esporte. Inclusive está ligada a sua gênese e desenvolvimento na sociedade. No Brasil esse papel é conferido a ele mais fortemente a partir do Estado Novo e desde então em maior ou menor grau a depender da direção ideopolítica a frente do Estado. Não diferente, as políticas sociais esportivas de caráter assistencialista tem a função oculta, de criar uma dependência da população atendida às benesses da classe política e da filantropia, arrefecer a luta sociais e mascarar as tensões sociais latentes nessas comunidades. Em Mandel (1982), encontramos aporte teórico para análise dessa problemática, referimo-nos à função do Estado no capitalismo tardio de integração das classes dominadas, que tenta “garantir que a ideologia da sociedade continue sendo a da classe dominante e, em consequência, que as classes exploradas aceitem sua própria exploração sem o exercício direto da repressão contra elas” (p. 334).
Face ao exposto, percebemos que as políticas sociais [esportivas] reproduzem de forma retórica o objetivo de “formar” cidadãos por meio do esporte, focalizando seu atendimento nas chamadas populações vulneráveis – exatamente aquelas mais afetadas pela exploração do modo de produção capitalista. Nesse caso, evidencia-se que essas políticas, de fato, cumprem duas funções: a) suavizar/arrefecer os efeitos colaterais das relações de produção e as precárias condições de vida dessa população; b) operar um falseamento da consciência e uma despolitização, mitigando a “questão social” expressa pela luta de classes, e garantindo a falsa noção de que a ordem social vigente é a única possível e imaginável.
Apesar das críticas, não temos a pretensão de nos alinharmos a reflexões que negam o esporte e desconsideram sua importância na vida das pessoas, nosso intuito é colocá-lo em seu devido lugar no campo das políticas sociais. Em outras palavras, o esporte não deve ser o redentor das mazelas sociais, mas vivenciado como parte da cultura e espaço de integração
148 com vistas a melhor sociabilidade entre os seres humanos. Para tal, torna-se relevante olharmos o direito ao esporte tendo no horizonte as necessidades humano-sociais e não do capital, o que possibilitaria avançar ao encontro de um conceito ampliado de cidadania, que não se reduzisse a sua condição reificada ligada ao consumo. Assim, teceremos no próximo tópico um ensaio teórico acerca do que seria democratizar o esporte no Brasil e das possibilidades deste ser uma mediação para a construção de sociedade humanamente emancipada.
3.3. Democratização do esporte e emancipação humana: possibilidades nas políticas