3. Metode
5.7 Summa summarum
4º sentido
Geral “Branco” ao significar o não-verdeA significação, para Ockham, é algo que, entre outras utilidades, tem a capacidade de exprimir aquilo que é essencial à coisa individual que existe realmente, aquilo que define realmente a coisa, apesar de isso não querer implicar que haja uma natureza comum às coisas assim significadas10. Essa significação essencial, em um sentido apropriado, encontra-se em alguns termos de tipo categoremáticos absoluto, que são termos que se referem a coisas de modo primário e carecem de um tipo de contato ou familiaridade com essas coisas para significa-las apropriadamente. A tais termos absolutos podemos apenas fornecer uma definição real, que informe sobre o que a coisa é realmente. Em contrapartida a esse tipo de definição, podemos ressaltar aquela prática de Ockham em mostrar usos para as palavras, sentidos possíveis para as palavras, o que não implica um comprometimento ontológico forte, ao passo que se explica aquilo que está a se tematizar. Esse tipo de definição, que não é uma definição real, e assim nos informa apenas indiretamente sobre a coisa significada, dando maior relevância à
10 Para Ockham não há uma essência comum, mas podemos entender que haja essências, em sentido
individual, na medida em que elas se confundem com as próprias substâncias, no sentido de indivíduo concreto, segundo sugetão de Loux: “Essentially, Ockham is challenging the proponent of essences to locate the subject or bearer of the postulated essences. That subject must be something such that by adding the essence to it we get, for example, men. It might seem that the relevant subjects are the individual substance in question, but Ockham insists that this will not do. The individual substances already are men, so that there can be no question of adding something to them to make them men. (…) Ockham is claiming that the proponent of this view is committed to bare substrate because he distinguishes between substance and essence. Ockham’s counter is simply to identify the two.” (Loux,
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explicação de como uma expressão significa a coisa que significa, é chamada de definição nominal, explicada sob os seguintes termos:
“A definição que exprime o que é o nome (quid nominis) é uma oração que declara explicitamente o que é importado por uma expressão simples, assim como alguém que quer ensinar a outro o que significa o nome “branco” diz que significa o mesmo que a oração “algo que tem brancura.” 11
Dessa forma, é possível definir nomes que não tenham referência, como os termos sincategoremáticos, os verbos, etc. Se podem definir nominalmente os termos categoremáticos apenas se esses forem conotativos, ou seja, se eles conseguem indicar coisas tanto primariamente quanto secundariamente. A definição nominal leva, em última instância, à necessidade de definição real, que estabeleçam a significação dos termos que são usados na própria definição de um nome.
A definição real das coisas, para Ockham, é caracterizada da seguinte maneira:
“A definição que exprime o que é a coisa (quid rei) é tomada duplamente, a saber: amplamente, e assim compreende a definição tomada estritamente e também a definição descritiva. De outra maneira, o nome “definição” é tomado estritamente, e assim é uma expressão complexa sumária que exprime toda a natureza da coisa e que não declara algo extrínseco à coisa definida.” 12
Essa definição pode ser ampla ou estrita. A definição ampla envolve também descrições da coisa definida, descrições que não são de modo algum substanciais, mas apenas acidentais. A definição estrita é a que envolve apenas elementos essenciais à coisa, que são intrínsecos àquilo que está sendo definido. Definir, em um sentido apropriado, é a tarefa de encontrar uma determinada expressão finita que seja capaz de nos informar algo intrínseco à coisa (referida pelo termo a ser definido), características essas que devem ser, portanto, inalienáveis e próprias a essa coisa definida. Assim, a definição real de uma coisa é aquela que mostra características que não podem ser retiradas da coisa definida, pois assim descaracterizariam a coisa. Definição é a
11 Ockham, Lógica dos termos, Pg. 200 e 201. “Definitio autem exprimens quid nominis est oratio
explicite declarans quid per unam dictionem importatur, sicut aliquis volens docere alium quid significat hoc nomen ‘album’ dicit quod significat idem quod haec oratio ‘aliquid habens albedinem’.” (em Biard, trad. Somme de Logique, I, Cap.26, Pg. 92).
12 Ockham, Lógica dos termos, Pg. 197. “Definitio exprimens quid rei dupliciter accipitur, scilicet large,
et sic comprehendit definitionem scricte sumptam et etiam descriptivam definitionem. Aliter accipitur hoc nomen ‘definitio’ scricte, et sic est sermo compendiosus, exprimens totam naturam rei, nec aliquid extrinsecum rei definitae declarans.” (em Biard, trad. Somme de Logique, I, Cap.26, Pg. 88).
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explicitação do modo como podemos identificar as coisas através de certas propriedades essenciais e individuais, apesar da diferença numérica entre elas.
Essa definição real pode se dar de duas maneiras. Se na definição forem elencadas partes essenciais da coisa, então essa definição é chamada de “definição natural”, e o exemplo seria a definição clássica de ser humano: “O ser humano é uma substância composta de corpo e de alma intelectiva”. Se na definição for mostrado o gênero e a diferença específica da coisa, então a definição é chamada de “definição metafísica”, que também explicitam características intrínsecas à coisa, e outro exemplo clássico para isso seria: “O ser humano é um animal racional” 13.
A coisa definida tem uma natureza distinta da sua definição, definição essa que é a junção da expressão definidora e do termo a ser definido. A realidade das coisas definidas é singular, enquanto a das expressões definidoras é geral, dado num âmbito semântico. A significação essencial da definição real diz respeito à capacidade de duas expressões, uma complexa e outra incomplexa, significarem e descreverem uma mesma coisa, assim: “(...) quando dizem que a definição e o definido são o mesmo realmente, isto é, significam o mesmo” 14. Essa relação de significação essencial é uma relação semântica baseada na generalização construída a partir do contato entre a coisa significada e a expressão significante, que no fundo é o que dá base para que aquelas informações gerais descrevam de maneira inequívoca e essencial as coisas singulares que descrevem, apesar de ambas serem coisas distintas que nada têm realmente em comum15.
Apesar de existir certas expressões e significações que podem definir as coisas do mundo, o que garante realmente a necessidade da verdade de tais definições não é simplesmente o que é dito sobre a coisa, ou algo que se evidencia no contato com as coisas do mundo, mas é a forma em que é dito o que diz a definição, segundo sugestão dada por Ockham:
13 Cf. Ockham, Lógica dos termos, Cap. 26, Pg. 197 e 198.
14 Ockham, Lógica dos termos, Pg. 200. “(...) quando dicunt quod definitio et definitum sunt idem
realiter, hoc est significant idem.” (em Biard, trad. Somme de Logique, I, Cap.26, Pg. 91).
15 O contato epistêmico entre coisa (objeto significado) e sujeito (pensante/utente), que gera informações
necessárias à generalização humana do conhecimento, é dado de forma direta, sem maiores intermediações entre essa coisa apreendida e o ato cognitivo de apreensão. (Cf. Adams, William Ockham, Pg. 550).
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“(...) uma proposição composta da definição e do definido, se hipotética e também sobre o possível, ou equivalente a tal, é necessária, como é necessária “se um homem existe, um animal racional existe” (...) e, de maneira similar, “todo homem pode ser um animal racional” (...); todavia, nenhuma de tais proposições, se afirmativa, meramente de inerência e meramente sobre o presente, é necessária. Assim, “o homem é um animal racional”, bem como “o homem é uma substância composta de corpo e de alma intelectiva” são simplesmente contingentes, e isto porque, se não existisse homem algum, qualquer uma de tais [proposições] seria falsa.” 16
A mera definição afirmativa que diz que o ser humano é um animal dotado de razão ou é um composto de corpo e alma intelectiva seria uma afirmação contingente, que pode ou não ser verdadeira. O que torna necessária, em sentido lógico, a definição, além do que é propriamente dito e expresso na definição, é sua forma hipotética e condicional, ou qualquer outra forma que venha a expressar a definição como uma possiblidade para a coisa definida. Embora possamos ter acesso a significações que descrevem essencialmente as coisas, a única garantia da verdade das expressões dessas definições são suas formas linguísticas.
Ockham não trata da substância com ênfase na divisão em matéria e forma essencial, mas a discute como um composto significado, de modo contingente, por termos gerais. Para ele, como já foi esclarecido, não há uma propriedade essencial universal ou comum descrita pela definição real de algo. O modo essencial ou intrínseco de significar toma um sentido semântico, de “se não falarmos disso [apontando uma pessoa] em termos de animalidade e racionalidade, não estamos falando em ser humano”, e não um sentido metafísico, de “se esta pessoa não tem animalidade e racionalidade, então essa pessoa não é ser humano”. A essencialidade que Ockham acredita não é relativa a eventuais propriedades gerais e comuns existentes nas coisas, mas sim relativa a propriedades individuais essenciais, que são semelhantes em alguns casos (o que não implica nem pressupõe nenhum tipo de similaridade em comum que exista de alguma forma nessas coisas e compartilhada por essas coisas) e a uma relação essencial entre linguagem e mundo, que é gerada por provocação das coisas elas mesmas, em contatos cognitivos relevantes e suficientes17.
16 Ockham, Lógica dos termos, Pg. 200. “(...) aliqua propositio composita ex definitione et definito
hypothetica et etiam de possibili vel aequivalens tali sit necessaria, sicut ista est necessaria ‘si homo est, animal rationale est’ (...) et similar ista ‘omnis homo potest esse animal rationale’ (...) tamen nulla propositio talis affirmativa mere de inesse et mere de praesenti est necessaria. Unde ista est simpliciter contingens ‘homo est animal rationale’ sicut ista ‘homo est substantia composita ex corpore et anima intellectiva’, et hoc quia si nullus homo esset, quaelibet talis esset falsa.” (em Biard, trad. Somme de
Logique, I, Cap.26, Pg. 91).
17 Em Ockham não há explicitação de infalibilidade de nosso aparato linguístico-conceitual em descrever
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Enfim, temos quatro sentidos ou modos de significação dos termos linguísticos, onde a significação de um termo pode se dá desde sua aproximação semântica com qualquer palavra diferente dela até a significação que forme proposições verdadeiras ou falsas independentemente do momento de sua expressão. O que há de próprio à capacidade de “significar”, seja em que sentido for, é o poder de levar ao reconhecimento de algo, trazendo esse algo à mente e possibilitando o entendimento dele através desse reconhecimento18. Isso é uma ação que poderíamos generalizar como própria a todos os signos, apesar de que, se quisermos ser mais rigorosos na aplicação dessa descrição, poderíamos reservá-la apenas aos signos de tipo linguístico, apesar dessa definição de significação poder explicar os signos não linguísticos de maneira relevante. Dentre os sentidos apropriados da significação mostrados acima, podemos fornecer uma expressão finita capaz de informar características que identificam certas coisas no mundo, assegurada sua verdade pelo formato linguístico em que ela for enunciada, ou através de condicionais ou através de algum indicador da modalidade de possibilidade da afirmação. Dada essa exposição sobre o contexto semântico de Ockham, podemos adentrar no tema dos signos mentais.
(Cf. Goddu, Ockham’s philosophy of nature, Pg. 146 & Adams, William Ockham, Pg. 594 e 629).
18“(…) for Ockham, strictly speaking, to signify is to bring to mind or make understood.” (Adams.
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