Uma importante entrada do didático no Ceará do início do século XX ocorria quando os costumes compostos por gestos didáticos ritualizavam-se. Quando o corpo social era chamado a se engajar nas vivências didáticas inseridas em caminhos tão próximos da escola quanto distantes. As festas de formaturas, com
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Livro Vida Escolar do Colégio Nogueira, divisão de cartas e correspondências, 1931. 195
Livro Vida Escolar do Colégio Nogueira, divisão de cartas e correspondências, 1933. 196
Livro Vida Escolar do Colégio Nogueira, divisão de cartas e correspondências, 1933. 197
Sobre Arthimética Inicial de Odorico Castelo Branco, o Jornal Unitário faz comentário da oferta que recebeu. Jornal Unitário, Fortaleza 13 jun. 1905. Sobre o movimento de doações de livros e propagação de leitura, ver: Em 1908, a Liça, jornal publicado na cidade do Crato, publica os livros e jornais que recebem. Francisca Clotilde, Afonso Celso Junior e Emília de Freitas fazem doações para a biblioteca do Club Romeiro do Povir. A Liça. Jornal Literário e Noticioso. Órgão do Club Romeiros do Porvir. Crato. Ceará. 19 ago.1908. Em 1914, o Grêmio sobralense publica no seu jornal a lista dos doadores e dos livros recebidos. Grêmio. Órgão do Grêmio recreativo sobralense. 17 mai. 1914. O jornal de Camocim noticiava, em 1921, os 1040 volumes do Gabinete de Leitura da cidade. Camocim Jornal. Quinzenário independente, e de interesses gerais. 1 mai. 1921. Sociedade Propagadora da Leitura de Ubajara. O Rebate. Jornal Independente. Sobral-Ceará. 22 ago. 1908.
publicações nos jornais, levavam o mundo da escola e o processo de didatização a enquadramentos não escolarizados. As sabatinas e as premiações constituíam a visibilidade de um corpo social que ia se constituindo e permitindo-se participar da festa da escolarização e do didático.
Variação da apoteose do didático incidiu sobre as comemorações em torno dos aniversários dos periódicos de conteúdo didático. Joaquim Nogueira representou muito bem as iniciativas da difusão do didático por meio dos rituais do aniversário da Revista Escolar.
Todos os anos, Joaquim Nogueira reforçava a memória dos fortalezenses quanto à presença do periódico editado pelo seu Instituto de educação primária na cidade. No ano de 1907, os festejos foram eufóricos. Um ritual de rua aglomerava multidão de pessoas em Fortaleza no mês de julho. Mistura de carnaval, festa cívica e religiosa, tinha o perfil contido tanto quanto eufórico do sucesso de empreendimento comercial. Passeata de multidão se esparramava pelas ruas de Fortaleza. Homens e crianças participavam do préstito. Joaquim Nogueira providenciou registros fotográficos para dar visibilidade a seus negócios. Sobre o conjunto de fotos contidos no livro Anno Escolar recaem as interpretações sobre uma didática ritualizada e pública.
O trabalho historiográfico com as fotografias implica na consideração da complexidade dos suportes fotográficos198. Além de levar em conta o processo de composição de fotos que tangem o círculo das condições de emissão e recepção, o historiador leva em conta o aspecto da representação refletindo sobre o caráter social de mensagens que são codificadas em um conjunto de signos que exigem interpretação e que de maneira nenhuma são neutras, nem estabelecem vínculos diretos com o mundo empírico que possam atestar verdades absolutas, mas, ao contrário requerem referenciais para serem lidas. As fotos estão imbricadas em diversos aspectos sociais e representam a ordenação de mundos, pessoas, discursos. Ao trabalhar com as fotografias do livro Anno Escolar, as dimensões sociais e culturais foram pensadas tanto quanto as que dizem respeito à organização da memória. Nas páginas impressas do Livro, encontrei o desejo de se
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Sobre a hermenêutica de fotografias, ver GRANER-ABISSET, Anne Marie. O historiador e a fotografia. Projeto História. São Paulo: EDUC, Nº24, p. 9-26, Jun, 2002. MOREIRA LEITE, Miriam L. Fotografia e História. Ciência Hoje, Rio de Janeiro, V. 7, Nº39, p. 24-32. Jan. Fev, 1988
fazer conhecer, de se estabelecer e de perdurar num arroubo de organizações de eventos públicos relevantes para os empreendimentos de Joaquim Nogueira.
No livro Anno Escolar, de 1908, fotografias sintetizaram a festa em comemoração ao 3º aniversário da Revista Escolar, no ano de 1907199. Conjunto de quatro fotos em preto e branco registrou panorâmicas e detalhes do evento. Três fotos imprimiram imagens dos carros alegóricos da passeata. Um carro representava a Revista, outro o Ceará, um terceiro a imprensa brasileira e um último o Instituto de Humanidades. Cada carro conduzia uma menina que levava um estandarte. A Revista era personificada por uma menina de manto e coroada por uma coroa de metal. Com ares de nobreza, a criança, em sua pequena charrete “imperial”, era a síntese das dimensões escolares da revista e do lugar social que o editor lhe atribuía e difundia entre os cearenses.
A turba de homens e meninos pousava para as fotos como a querer registrar sua participação. Em procissão, caminhavam pela cidade numa aglomeração que atraía os olhares de pessoas localizadas em edificações. A imagem construída pelo fotógrafo deseja denotar que toda a cidade se movimentou para os festejos do terceiro aniversário da Revista. Comparável a grandes eventos como as procissões de dias santos ou às marchas escolares, no ano de 1907, por alguma razão desconhecida, as comemorações tomaram as ruas de Fortaleza e ampliaram a participação do mundo didático no cotidiano das pessoas e da Cidade. Imbricada à festa comemorativa do aniversário da Revista Escolar está a constituição das relações sociais envolvendo a escola e as noções didáticas.
Escola e didática tomavam o cotidiano das pessoas em Fortaleza, no início do século XX, no estabelecimento de uma memória cujo léxico é constituído por noções de ensino, conteúdos, necessidade de estudo, moral, civismo, necessária formação da infância, civilidade, produção de edições didatizadas e possibilidade de leituras de conteúdos acessíveis. Tudo isso sintetizado numa macha apoteótica que lembra, divulga, informa, seduz e convence uma comunidade da importância de textos didatizados e o papel relevante do educador-editor nessa dinâmica social.
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ANNO ESCOLAR DO INSTITUTO DE HUMANIDADES PARA O ANO DE 1908. Destinado ao uso de seus alunos. Fortaleza: seção de obras do Cruzeiro do Norte, 1908.