• No results found

No final do século XIX, a instrução pública no Ceará era registrada pelos intelectuais em volta em corrupções, descaso e indiferença189. Em 1898, Andesrson Ferro observava o estado da instrução pública a partir dos exames realizados no Liceu e caracterizava a situação de “Decahimento moral” e “atentado à vida”. As imagens da instrução pública foram carregadas de negatividade e denúncias do que o poder político fazia dos recursos para a educação no Ceará. A situação era dramática e as possibilidades de construção de uma outra perspectiva eram “sofríveis”. Todavia, grupos de intelectuais participantes da atmosfera árdua do trabalho com a instrução imprimiam no tecido social, tramas na contraposição da situação de descaso estabelecida pelo poder local, no que tange a instrução para todos.

Os trabalhos voluntários e o movimento de doações movimentavam o ambiente da instrução pública. Embora sejam poucos os testemunhos, através dos jornais e das memórias intelectuais abrem-se frestas para as suas vozes. Eles acenam com a possibilidade de visibilidade dos trajetos dos livros em meio ao estado precário da educação. Sem apoio do poder local e acreditando no poder e na necessidade da educação para a transformação dos espíritos e da sociedade, esses homens de letras almejavam construir oportunidades de instrução para a população pobre, nas quais o livro didático não é coadjuvante.

Narrando seus dissabores com a educação no Ceará do final do século XIX, Anderson Ferro discorre sobre “o fecha e abre” de bibliotecas e gabinetes de leitura190. Ele afirma que, por falta de frequentadores, tantos eram os gabinetes que abriam quanto eram os que fechavam. Mas, saudoso, ele lembra quando os moços frequentavam todos os dias os gabinetes e liam jornais e revistas. No movimento

189

Ver FERRO, Anderson. Minhas Viagens (com apêndice sobre a educação). Fortaleza: Typ. Moderna de Louis C. Cholowieçki, 1898, p. 148-247.

190

Ver FERRO, Anderson. Minhas Viagens.(com apêndice sobre a educação). Fortaleza: Typ. Moderna de Louis C. Cholowieçki, 1898, 148-247.

das leituras, o autor recorda o Reform Club, um capitólio das letras composto de biblioteca e salas de leituras. Seu acervo constava de vinte mil livros, entre obras raras, revistas, jornais. A indiferença e o desleixo do povo pelas letras levou o

Reform Club a ser substituído por um clube de dança, e seu acervo a ser queimado.

Dando continuidade à cultura dos gabinetes de leitura, Ferro participou do movimento de abertura de alguns no Ceará. O do Ipu, que logo foi também trocado pela dança, e o de Campo Grande, que em 1898 ainda resistia às asperezas de sua manutenção. Para empreender a abertura desses gabinetes, Ferro trilhou um caminho que lhe pareceu possível na empreitada. Escreveu cartas para intelectuais e políticos no Ceará, no Brasil e na França. As respostas foram poucas, mas suficientes para garantir o benefício à classe desvalida. Seguindo o modelo português, o Gabinete de Leitura tinha, em anexo, aulas. Essas aulas eram especificamente noturnas e para operários, chegando a registrar 200 alunos.

Das respostas obtidas, Ferro recebeu 600 livros somente do Barão de Macaúbas, outro tanto do Dr. Junqueira Filho, de Antonio Bezerra de Menezes, Justiniano de Serpa, da casa Guillard, Aillaud & Cia de Paris, entre outros. Nesse ritmo, o entusiasta abriu 15 cursos noturnos no interior do Ceará, contando com trabalho voluntário de Theodorico de Castro, João de Medeiros, Gonçalo do Nascimento e Francisco de Morais. Os professores enfrentaram as dificuldades de manter o fluxo dos materiais didáticos doados, como os livros com os quais os alunos estudavam, como Ferro fez questão de notificar191. Na operação voluntária e de doação de Anderson e seus parceiros, as trilhas do livro são recriadas e se imbricam na sociedade.

A prática das doações de exemplares representou uma abertura para a difusão do livro didático, prolongando-se no início do século XX. Odorico Castelo Branco narrava a História de doação de vinte e tantos livros à inspetoria da educação para uso nas escolas públicas sem saber com exatidão o destino do produto do seu trabalho192. Isaías Alves, em 03/06/29, ofereceu seu Tratado de

Inteligência e fórmulas para experiências com alunos a Joaquim Nogueira193. O

191

FERRO, Anderson. Sobre a educação. In: Ver Ferro, Anderson. Minhas Viagens.(com apêndice sobre a educação). Fortaleza: Typ. Moderna. 1898, p.148-247.

192

CASTELO BRANCO, Odorico. Reminiscências do Oficio. Fortaleza: Typ. Minerva, 1920, p. 115. 193

diretor do Instituto de Humanidades enviou a Alves uma edição sobre o Ensino Secundário, e ao diretor da Instrução Pública do Ceará enviou os trabalhos de Alves. Em 1931, o editor a Revista Escolar recebeu de Edgar Falcão 100 exemplares do

Almanaque Bayer194. Em troca, ofereceu as lições estudadas no Instituto. Quando do fechamento do Colégio Nogueira, o diretor doou os clichês da Revista Escolar à redação da Revista Nova Escola195. Nos primeiros meses de 1934, a Faculdade de

odontologia e Farmácia recebeu número volumoso de livros instrutivos provenientes do antigo Instituto de Humanidades196. Os intercâmbios entre editores e diretores representam um aspecto vigoroso da expansão da ideia de textos didatizados no início do século XX, no Ceará.

Sociedades propagadoras de leituras, grêmios e gabinetes alimentavam-se do fluxo das doações de livros. Os jornais cearenses abriam espaços em suas edições para comentários de livros com a ressalva da doação dos livros. E nas colunas espremidas das edições jornalísticas era corrente a listagem dos livros e periódicos recebidos, que os editores “tinham à mão”. Entre os títulos listados, o gênero didático era comum197.