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A notação da grade orquestral indica o som real, exceção feita às lautas piccolo, que são notadas uma oitava abaixo para evitar excesso de linhas suplementares. No entanto, algumas das partes cavadas estão escritas com algum tipo de transposição.

Todos os instrumentos são ampliicados por meio de microfones, e a partitura solicita, em momentos especíicos, um controle de intensidade por parte do operador da mesa de mixagem. Assim, pode acontecer que, independentemente da dinâmica sendo executada por um dado naipe, seu som esteja muito mais alto (onde marcado com dois sinais de soma [++] na partitura), mais forte [+], normal [N], ou um pouco mais suave [-]. Há também instruções para que se ligue (S) e desligue (S) determinados microfones (STOCKHAUSEN, 1994: p. XV).

Salvo indicação em contrário, todas as notas devem ser sustentadas por toda sua duração. Staccati devem ser bem curtos, e inais de frase marcadas com ligaduras não devem soar como staccato se não houver notação para tanto. Apojaturas devem ser amplas e executadas na mesma intensidade de outras notas mensuradas. Os acidentes b e # servem apenas para a nota em que estão escritos; ocasionalmente, sinais de n são utilizados para facilitar a leitura.

24) Em tradução livre de: “While there is certainly an element of broad comedy in the four ‘temptations’ that threaten to bring time to a stop, as of the four ‘incitements’ that set time in motion once again, the music is striking and severe enough in itself to complement an elevated rather than comedic choreography. Anyone who has seen a thousand-fold speeded-up nature ilm of seed sprouting, a crystal growing, or a caterpillar spinning a cocoon, will appreciate that fast motion does not always have to be funny (though for Stockhausen the idea of solemn actions teetering on the brink of farce is very much in character).”

Quase todos os instrumentos têm algum detalhe notacional ou tipo de informação peculiar (STOCKHAUSEN, 1994: X e XI, passim):

1) Harmônios – Os instrumentos utilizam a escala natural do órgão de boca japonês. Nas explicações, o compositor ressalta que acentos, crescendos e diminuendos devem ser executados com o pedal expressivo, e não com o pedal de dinâmica, pois este acrescentaria o registro de 16’. O instrumento deverá também ter “pelo menos três registros de 4’ e, aproximadamente, [sic] dois registros de 2’, bem como vox cœlestis, vox humana, æolian harp (todos com vibrato), e diversos outros para mudanças de timbre e diferenciação dinâmica”25. As indicações de performance

apontam ainda para o fato de que, na maioria dos harmônios, o registro superior termina na nota fá6 (meio tom abaixo da nota mais aguda utilizada na peça, o fá#6), o que diiculta o uso do instrumento. Por isso, é sugerido como alternativa o uso de sintetizadores ou samplers.

Figura 4.3: escala natural do shō

Figura 4.4: sequência de acordes do shō

2) Bigorna – É sugerido que, na ausência de um gongo shōko, se utilize uma bigorna percutida com um pesado martelo de ferreiro. Alternativamente, pode-se utilizar um tubo de ferro fundido ou de aço, tocado com baquetas de metal (para ataques simples) e baquetas de plástico duro (por serem mais leves) para trilos. Pode-se, ainda, utilizar um sino de gueixa.

3) Flautas piccolo – é solicitado que, sempre que possível, sejam utilizadas lautas de madeira. Além disso, para se conseguir o dó#5 no registro grave do instrumento, o compositor recomenda que se faça o dedilhado para a nota ré, mas inclinando a lauta em direção a boca. Alternativamente, pode-se usar o dedo mínimo para cobrir 2/3 da abertura no im do tubo da lauta e abaixar a ainação com a embocadura; no entanto, a partitura avisa que este método é menos coniável.

4) Bongô – a partitura informa que a ainação padrão do kakko é a nota sib3, e que o bongô, quando percutido no centro, deve ter essa mesma ainação, ou então o dó#4. No entanto, quando executando grupos de notas (como os que marcam o início de algumas décadas), o instrumentista deverá explorar todo tipo de nuance timbrística.

5) Saxofones – O compositor recomenda que saxofonistas ouçam uma gravação da obra com hichiriki, para que imitem o idiomatismo desse instrumento, particularmente nos

glissandi. A partitura indica uma maneira de produzir tais efeitos: sempre que houver uma letra do alfabeto26 escrita acima de uma nota musical na partitura, deve-se fazer o dedilhado da nota

indicada pela letra mas, por meio de controle da embocadura, o som resultante deve ser aquele da nota grafada com notação musical (e seu respectivo glissando). No entanto, é deixado ao instrumentista que tipo de técnica será utilizada (a maneira indicada na partitura ou à moda tradicional), desde que o resultado seja tão gradual quanto possível. As notas de performance também lembram que um glissando sem nota inal representa, em geral, uma distância de 2ª menor; porém, essa distância pode ser maior, particularmente se sugerido pela notação musical. 6) Bumbo – quando percutido no centro, deve ressoar a nota mi2; quando percutido na beirada da pele (indicado na partitura com a palavra hart), deve soar muito mais agudo (ré3), com longo decaimento. Deve-se sempre utilizar baquetas com cabeça de feltro.

7) Cravo – a microfonação deve solucionar as diferenças de intensidade sonora entre as várias oitavas do instrumento, e ampliicação geral deve ser controlada na mesa de mixagem, no centro da sala. O registro de oitava é notado à maneira tradicional (I para o primeiro manual, II para o segundo). O uso dos sinais + ou - associados aos registros de 16’ e de 4’ indica que se deva acionar ou retirar os respectivos registros. A letra K indica o acoplamento dos dois manuais.

Pode-se ainda utilizar um sintetizador ou sampler (como os harmônios). No entanto, o compositor chama a atenção para o fato de que, neste caso, o monitor de referência deverá ser bastante potente, de forma que possa ser ouvido pelos outros músicos do conjunto.

Figura 4.5: sequência de alturas absolutas utilizadas pelo cravo

8) Violão – deve ser tocado com um plectro e, dependendo do caso, sul ponticello. Apenas as quatro cordas mais graves são utilizadas, na scordatura lá3, ré3, lá2, mi2. Como alternativa ao violão, pode-se utilizar uma guitarra elétrica, embora “o violão clássico geralmente soe melhor que uma guitarra elétrica normal”27. Como no caso do cravo, a ampliicação geral é controlada

pela mesa de mixagem.

Figura 4.6: alturas absolutas utilizadas pelo violão. As notas entre colchetes indicam cordas soltas.

26) Stockhausen utiliza as letras do sistema alemão de graia musical alfabética. 27) STOCKHAUSEN, 1994a: p. XI (grifos do autor).