Na memória de Samico, não estão presentes apenas assuntos religiosos. O assunto que despertou sua memória da infância como fonte temática para suas gravuras foram as histórias dos folhetos. Ao relembrar as epopéias, o artista encontrou em sua mente também as imagens religiosas, formuladas a partir das imagens com as quais teve contato. No entanto, podemos observar uma relação de suas gravuras com a heráldica, o estudo da descrição e a criação dos brasões, uma maneira de uso laico das imagens herdadas do ocidente medieval123. Os brasões eram utilizados para evocar nobreza, ou atribuir tradição a uma linhagem familiar ou institucional, e têm um uso largamente popularizado no nordeste brasileiro.
Essa relação com os brasões pode ser encontrada na gravura “O pecado” (fig. 29), de 1964. Com poucos elementos visuais, o tema contido no Gênesis está presente, desde o título às figuras utilizadas. No centro da gravura, um demônio segura lateralmente um estandarte em cada mão, os brasões dos estandartes são os rostos de um homem e de uma mulher de perfil. Enquanto sua cauda dupla percorre duas curvas simétricas apontando na direção do homem e da mulher simultaneamente, sua língua comprida e pontuda sustenta uma maçã entre os dois.
Diferente da maçã presente na gravura “A luta dos anjos” (pág. 75), que vimos anteriormente, nesse caso ela parece evocar o fruto do pecado original, da árvore proibida, do conhecimento do bem e do mal. Aquela que ao ter seu fruto comido, produziu a ciência no homem e na mulher de que estavam nus, a noção de pecado. A língua do demônio aponta para a maçã como uma seta, além de sustentá-la entre os dois oferecendo-lhes o fruto. Na iconografia ocidental cristã, a maçã na boca de uma serpente simboliza o pecado original124. Faz uma referência à linguagem, às palavras que a serpente usou para induzir Eva a provar do fruto proibido. Embora na Gênesis o texto bíblico se refira a “fruto”, na Europa a maçã é símbolo da tentação e do pecado125. Vermelha, é o único elemento colorido, o que faz com que se destaque. Por estar posicionada no centro da gravura e ter diversas setas apontando em sua direção, é onde a atenção se concentra.
O fundo está dividido em duas áreas separadas horizontalmente, a superior é branca e a inferior, que diz respeito à parte da terra, é recoberta de um reticulado. O demônio tem a parte inferior de seu corpo sobre a estrutura gráfica que ornamenta o fundo, equilibra e
124 HEINZ-MOHR, op. cit. p. 230. 125 BIEDERMANN, op. cit. p. 230.
Fig. 29 – Gilvan Samico – O pecado, 1964. Xilogravura, 39,3 x 44,2 cm.
contribui com a estabilidade da gravura, concorrendo com o movimento gerado pelas caudas e pela língua. Suas duas caudas, longas e peludas, descrevem curvas simétricas que se projetam e apontam na direção dos estandartes. Sua cabeça e seus braços, também recobertos de pelos, estão sobre o fundo branco. A criatura segura os dois estandartes acima da cabeça, um à sua direita outro à sua esquerda. Como na heráldica medieval, são como símbolos de brasões que o homem e a mulher estão representados. Mas estão voltados um na direção do outro, entre eles e diante de si tem o pecado, vermelho. Fruto que originou o conhecimento do bem e do mal, que deixou a mulher e o homem envergonhados por se perceberem nus, um diante do outro126. Assim como os temas e os símbolos se repetem em suas gravuras, as formas persistem, como o arremate que encima o mastro dos estandartes. Essa mesma forma está na gravura “O triunfo da virtude sobre o demônio”, e assim como na gravura “O pecado” também formam um par, adornando uma das torres da fachada da igreja.
Samico conta que quando era criança sua mãe o obrigava a ir à missa todos os domingos. Mas, na igreja, se interessava mais em reparar nas meninas do que nos ensinamentos do padre. Havia um sentimento de culpa que perturbava o menino, a sensação de cometer um pecado ao reparar nas meninas. Incomodado por se sentir atraído por uma mulher dentro da igreja, justamente no lugar onde deveria ter os pensamentos mais puros127. Esses eventos nos interessam apenas por terem sido sentimentos que marcaram a memória de Samico. Talvez seja essa sua principal formulação da idéia de pecado, ou talvez ele esteja apenas se referindo a um tema profundo na cultura cristã, que faz parte de uma longa corrente coletiva de pensamentos. Acreditamos que as duas coisas se somam, como uma imagem resultante do encontro da intuição sensível do artista com uma corrente de pensamentos.
Para Halbwachs, não é possível distinguir por um lado uma memória separada dos contextos e por outro um panorama histórico, sem memória. A partir do momento em que a criança começa a se interessar pelo significado das imagens que vê, começa a pensar em comum com outras pessoas. Seu pensamento passa a se dividir entre o fluxo de impressões pessoais e as diversas correntes do pensamento coletivo. Assim, é pela da atitude dos adultos que as crianças, diante de certos fatos, compreendem que eles merecem ser retidos. É porque as crianças percebem que as pessoas em sua volta se preocupam com o fato que elas retêm melhor alguns acontecimentos, mas apenas mais tarde a criança irá compreender o sentido do
126 (Gn 3,1-24).
acontecimento128. Por isso, Samico guardou os eventos religiosos de sua infância, pois seu grupo familiar atribuía uma grande importância aos rituais e à moral cristã. As impressões do artista quando criança e seus pensamentos se formularam segundo sua ética familiar, aos fatos e circunstâncias que sua família atribuía importância. Dessa maneira, mesmo sem compreender os sentidos dos eventos e ensinamentos, o artista recorre a temas cristãos, como na gravura “O pecado”, retidos em sua memória. O homem e a mulher, se olhando de frente, com uma maçã diante de si, manobrados e instigados pelo demônio, não assumiram a responsabilidade por seu pecado, ao se eximirem da culpa, o homem transferindo sua responsabilidade para a mulher, e a mulher para o demônio ambos admitiram terem sido manobrados pela criatura do mal.
Na medida em que uma criança passa a perceber essas comoções no grupo e se envolve nesses assuntos, começa a ter seu círculo social ampliado. São círculos de interesses diferentes, nem todos os assuntos dos adultos são de interesse das crianças. No entanto, nas famílias com empregados domésticos, as crianças adotam uma atitude de maior liberdade com alguns deles, e eles com as crianças. E também com seus avós, talvez por estarem ausentes dos eventos contemporâneos dos adultos. Assim, os relatos dos velhos para as crianças fixam na memória delas, não apenas os fatos, mas também o modo de ser e de pensar de antigamente129. Fica claro quando Halbwachs se refere a uma família com empregados, de uma classe social privilegiada. De modo que sabemos que não podemos generalizar as relações das crianças com adultos, talvez os empregados pudessem ter a mesma atitude de liberdade com seus filhos que com os filhos do seu patrão. Mas não pretendemos entrar nessa discussão porque o exemplo citado por Halbwachs parece se encaixar com a situação de Samico. O artista vem de uma família tradicional, ao menos privilegiada socialmente, e sua infância aconteceu na primeira metade do século XX, não muito distante da infância de Halbwachs. Acrescentamos o fato de que o próprio artista disse que ouvia as histórias contadas pelo empregado de sua casa. Uma liberdade que não tinha diante de seus pais, com quem não podia gritar, muito menos falar palavras grosseiras ou obscenas. Mesmo quando substituía o xingamento por outra palavra qualquer, mas falando de maneira enfática, sua mãe o reprimia. Algo que veio a entender mais tarde, que o problema não era o termo usado, mas o pecado da ira na maneira de pronunciar130.
128 HALBWACHS, op. cit. pp. 81 – 82. 129 Ibid., pp. 81 – 84.
O contato que Samico teve na infância com as narrações orais contribuiu com o estabelecimento de um vínculo entre diferentes gerações. Paul Ricoeur aponta esse vínculo, dentro do discurso de Halbwachs, como a conexão, a transição entre a história aprendida e a memória viva. Na infância, há uma disparidade entre o passado que é lembrado e a história ensinada nas escolas, que tem como uma das principais referências a história das nações. Assim, a história é percebida como algo exterior, a partir de fatos que não puderam ser testemunhados. Para o autor, na medida em que as novas gerações têm contato com as narrativas das pessoas de gerações mais antigas, a memória histórica aos poucos se integra à interioridade da memória viva. Ricoeur aponta a noção de geração no sentido de uma sequência de gerações que vão sendo substituídas, mas também da convivência de pessoas de diferentes gerações, diferentes idades, em uma mesma época131. Assim como Samico em sua infância ouvia as narrativas apresentadas por gerações anteriores à dele, histórias e imagens contribuíam para a formação de um conteúdo na imaginação do artista, hoje suas gravuras refletem sua imaginação e o artista produz narrativas visuais que fazem uma ponte com o passado, mas também exprimem características do presente.