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Ao procurar as imagens do passado no emaranhado da memória, Samico não pôde imaginá-las sem que tenha operado alguma mudança, por mais simples que seja, em cada uma delas, toda vez que a formulou em sua mente. As imagens, porém, também apresentam repetições, variações promovidas pela própria memória. Há formas que são repetidas em várias gravuras, mas em cada uma delas recebe um tratamento diferente. A extremidade da cauda das figurações dos demônios e dragões muitas vezes tem uma forma triangular, como a ponta de uma seta, ou uma lança (figuras 10, 11, 12, 13, 14 e 15).

Nessas repetições, o artista define a ponta de cada cauda de uma maneira diferente, e ainda assim de modo semelhante. Segundo Didi-Huberman, exumar os objetos do passado é modificar o presente e o próprio passado. Na cultura como na psique não há destruições completas nem restituições completas, por isso o historiador deve estar atento aos sintomas, às repetições e às sobrevivências. As impressões nunca são completamente apagadas, mas também nunca são idênticas61. Como os processos mnemônicos utilizados desde a Antiguidade que atuaram em um sentido que visava a repetição das formas no processo de

61 DIDI-HUBERMAN, op. cit. p. 326.

Fig. 10 – Gilvan Samico –

Tentação de Santo Antônio, 1962. Detalhe

Fonte: SAMICO: do desenho à gravura

Fig. 11 – Gilvan Samico – Apocalipse, 1964. Detalhe

Fonte: SAMICO: do desenho à gravura

Fig. 12 – Gilvan Samico – O pecado, 1964. Detalhe

Fonte: SAMICO: 40 anos de gravura

Fig. 13 – Gilvan Samico –

A luta dos anjos, 1968. Detalhe

Fonte: SAMICO: do desenho à gravura

Fig. 14 – Gilvan Samico –

A luta dos homens, 1977. Detalhe

Fonte: Samico: 40 anos de gravura

Fig. 15 – Gilvan Samico –

A espada e o dragão, 2000. Xilogravura, 93 x 48,7 cm.

memorização de construções arquitetônicas para a formação dos lugares mentais. As formas memorizadas eram repetidas a cada vez que o orador organizava um discurso.

O conteúdo de formas, de imagens, elaborado pelo artista é revisitado não apenas quando ele busca soluções para as mesmas figuras, como a extremidade das caudas figuradas. A mesma solução formal pode ser encontrada em elementos diferentes, como observamos nas texturas, também o arremate superior dos estandartes representados na gravura “O triunfo da virtude sobre o demônio” (fig. 16) tem uma forma semelhante ao acabamento superior de uma das torres da igreja figurada na gravura “O pecado” (fig. 17).

As formas não precisam estar vinculadas ao mesmo elemento, elas transitam entre um e outro, e transitam por elas mesmas ao representar o mesmo elemento em cada reformulação. Entendemos as imagens de Samico como sinais de uma origem situada em um terreno móvel. As formas que constituem o repertório visual do artista podem ser repetidas, mas estão em constante deslocamento, apresentando diferenças toda vez que são revisitadas, que são procuradas na memória, no meandro de suas lembranças.

Alguns temas, imagens, formas, texturas, símbolos, arquétipos, alegorias, persistem na memória familiar de Samico. Formados no passado, esses conteúdos atravessam o tempo sofrendo transformações e são fixados em suas gravuras, alterando a temporalidade do presente que se projeta para o passado. Didi-Huberman demonstra que Warburg comparou o tempo com camadas geológicas, que em sua biblioteca um livro clássico sobre geologia se situa entre a seção destinada ao inconsciente e a destinada à memória dos gestos. Nessa comparação geológica, os sintomas são associados a fósseis em movimento, procurando entender o fóssil não como algo petrificado, morto, mas como algo que contém os traços, a expressão de uma vida, que contém impressões de energias antigas. O movimento é o que

Fig. 17 – Gilvan Samico – O pecado, 1964. Detalhe

Fonte: SAMICO: 40 anos de gravura Fig. 16 – Gilvan Samico – O triunfo da virtude sobre o demônio, 1964.

Detalhe

mistura a energia presente do gesto com a energia antiga de sua memória, a ocorrência de uma crise e a sobrevivência de um eterno retorno62. Tomando as camadas geológicas como um paradigma para o tempo, percebemos que o artista ao se aprofundar no passado encontrou conteúdos e formas como um arqueólogo encontra objetos enterrados. Samico encontraria algo, mas havia um conjunto de outros elementos que foram encontrados em sua memória que o artista não poderia imaginar que iria encontrar, assim como os arqueólogos são guiados por uma busca, mas não sabem o que irão encontrar até ter o objeto em mãos. No entanto, Samico tem a possibilidade de imaginar, de manipular as formas visitadas na memória. Ao reaver as formas, o artista operou transformações nelas. Não apenas a memória de Samico, mas a memória coletiva dos grupos do qual fez parte, as lembranças das imagens que marcaram sua memória, dos lugares por onde passou, das construções que viu, das histórias que ouviu. Assim, essas lembranças coletivas são como sintomas que contém impressões de uma energia antiga, manifestos por meio de arquétipos, alegorias, símbolos, e se entremeiam com a sociedade no presente. As matrizes de suas gravuras, ricamente trabalhadas em relevo, são como os fósseis em movimento. Contém lembranças e expressões de energias antigas como se estivessem fossilizadas na superfície da madeira.

No processo criativo, havia lembranças que surgiam com persistência na memória de Samico, são imagens ou temas que foram absorvidos pelo artista no passado. Relacionados com questões morais religiosas ou profanas, com formas mnemônicas visuais e verbais, orais ou escritas, esses conteúdos visuais e verbais foram amalgamados com os conteúdos éticos e morais. Algo que o artista se apropriou e que retorna repetidamente tanto nas formas como nos conteúdos. Ao buscar um processo de identificação, encontrou na memória os conteúdos que havia incorporado durante sua vida, principalmente na infância. No processo criativo, o artista “carrega” e “maneja” esses conteúdos, se apropria deles, os transporta e transforma, modifica as suas funções, atribui novos significados, os insere em novos contextos, se perde nos conteúdos em busca de uma afirmação.

Na busca de uma identificação com um conteúdo nacional, Samico se voltou para o regional e produziu as gravuras com a temática da literatura oral nordestina, como “Juvenal e o dragão” (fig. 04). Nesse ponto, o artista inicia um processo de transformação gráfica e temática em suas gravuras. Com o desbaste da goiva, passou a construir as gravuras mais claras, iluminadas, com maiores áreas brancas, poucos elementos. Conforme o artista se

aprofunda na sua busca, encontra os conteúdos cristãos, incorporados na infância, transportados pela memória familiar. As imagens que remetem aos temas bíblicos passam a receber um tratamento gráfico que conduz ao ornamental, como as imagens medievais. As texturas passam a ser mais elaboradas, a própria composição obedece a princípios de hierarquização dos conteúdos, como nas imagens cristãs, situando acima da gravura o espaço celestial e abaixo o espaço terrestre, ou mesmo o mundo subterrâneo, como na gravura “Apocalipse” (fig. 18). A combinação de símbolos e texturas diversas permeia sua gravura na medida em que desenvolve seu processo criativo. O visível e o invisível se misturam e tomam forma e conteúdo em sua gravura. O invisível se faz presente pelo conteúdo metafísico, relacionado principalmente com a religiosidade cristã. Como na gravura “A espada e o dragão” (fig. 5), que, nesse sentido, sintetiza uma linha de contato entre o visível, enquanto construção geométrica e o invisível, pela representação de um conteúdo religioso.

Por um lado, Samico concebe uma gravura que dialoga com a obra de seus mestres, Abramo e Goeldi, sem perder suas características próprias. O artista explora cores, texturas e formas geométricas, quase como um uso figurativo do concretismo, mas o conteúdo, que transcende aos valores sensoriais da gravura, apresenta o invisível. Apesar de algumas áreas brancas comporem a gravura, áreas com texturas e cores ocupam boa parte da composição,

Fig. 04 – Gilvan Samico –

Juvenal e o dragão, 1962. Xilogravura, 33,7 x 39,4 cm. Fonte: Samico, do desenho à gravura

Fig. 18 – Gilvan Samico – Apocalipse, 1964. Xilogravura, 36 x 50,8 cm.

Fonte: SAMICO: do desenho à gravura

Fig. 05 – Gilvan Samico –

A espada e o dragão, 2000. Xilogravura, 93 x 48,7 cm. Fonte: Samico, do desenho à gravura

assim atuam em um sentido de adornar a imagem, reforçando e integrando os significados ambíguos das figuras representadas.