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2.5 Presentasjon av LIMM og Sue Buckley ordbildemetode

2.5.2 Sue Buckley ordbildemetode

Deseja mesmo saber o que eu fazia por lá? comer quando havia o quê e, havendo ou não, trabalhar.

João Cabral de Melo Neto

Morte e Vida Severina Nos primeiros anos da administração de Elony Sampaio, quando a energia elétrica ainda não chegara ao Tupinambá e havia duas linhas de cozimento na fornalha, cerca de vinte operários trabalhavam diretamente na fabricação da rapadura. Número estimado para o processo de moagem, cozimento e guarda das rapaduras. Embora não tenha sido encontrada nenhuma relação de empregados do Tupinambá em moagem, essa quantidade

de trabalhadores foi calculada — assim como quantos homens em cada função do processo — articulando as informações de vários relatos de trabalhadores e proprietários que tratam do cotidiano da produção. A esses vinte operários pode-se acrescentar um ou dois ajudantes na fornalha e alguns meninos que auxiliavam o bagaceiro.

Havia uma variação nesses números, em função do ritmo da moagem. Ao surgir a necessidade de produzir com mais rapidez, seja para satisfazer encomendas, seja pela ameaça de chuvas fortes, ou ainda, para que canas acidentalmente queimadas não se perdessem, o feitor colocava mais um

metedor de cana, pedia um fogo mais forte aos botadores, ou chamava

ajudantes para que o bagaceiro desse conta do combustível. Seria também necessário, convocar um ou dois homens adicionais para caixear, pois, como recorda Yony Sampaio: “Os caixeadores variavam, na hora que apertava

chegava a se usar três caixeadores de cada lado”.349 Nesses momentos, era possível encontrar 25 homens trabalhando sob o alto teto do engenho.

Cabia ao mestre da rapadura, e em instância maior ao feitor, determinar o ritmo da produção. Era prerrogativa deste ultimo, colocar mais pessoas para trabalhar. Para isso não havia dificuldade, nem seria preciso buscar gente fora da propriedade, pois na época, havia muitos trabalhadores nas canas, nos pastos, no transporte. Graças a intercambialidade de funções e ao tipo de vivência e aprendizado desses homens, não era difícil encontrar um bom trabalhador do eito, que soubesse meter cana ou caixear rapadura.

Quando, a esses números, agregamos os empregados permanentes da plantação, os cambiteiros (cerca de 20 continuaram trabalhando nos primeiros anos do trator), os vigias da mata, os encarregados da aguação das canas, entre outros, chega-se a uma estimativa de cerca de sessenta trabalhadores fixos. Um número que iria diminuir na década de 70, quando reduziu-se a produção do Tupinambá. 350

A remuneração recebida pelos operários referente ao desgastante trabalho de fabrico da rapadura era calculada por dia de serviço, independente do número de horas trabalhado, num sistema que persistiu até a última

349 Yony Sampaio, em 14 de abril de 2006.

350 Infelizmente não foi encontrado qualquer registro de empregados: lista, folha de

moagem do Tupinambá. Para os trabalhadores do canavial, também por muitos anos a diária foi a única forma de pagamento.

Tal sistema não se limitava ao engenho referenciado. O pagamento pela jornada diária era padrão neste tipo de propriedade rural da região, com forte presença de trabalhadores permanentes e moradores. O sistema de remuneração por produção ou empreita, bastante disseminado em engenhos e usinas de Pernambuco, só foi introduzido efetivamente no espaço da cana do

Tupinambá, a partir da década de 60. Por iniciativa de Elony Sampaio, a

empreita passou a ser feita com alguns empregados fixos. Os acertos verbais eram feitos com o feitor, e mais raramente com o patrão. O empregador estipulava um valor pela tarefa351 de cana limpa ou plantada. Quando perguntado como esses acertos eram feitos, Elony Sampaio respondeu: “Isso

era eu com eles, não é mesmo? Tinha indivíduo que preferia ou rendia mais por empreita e outros ficavam satisfeitos com o dia”.352

Nas narrativas de Francisco Alves e Zé Pindó, encontra-se a convivência das duas formas citadas de trabalho:

Era trabalhando “por dia” mesmo. Cambiteiro, cortador... Empeleita mesmo era no tempo de limpação de cana, né? Naum (feitor) dava uma tarefa pra quatro (homens), né?Tinha deles que quando era meio-dia, até meio dia tirava, né? Tinha deles que levava o dia todinho e não tirava.353

Pois é, mas aí em seu Elony, logo que nós cheguemos, nós trabalhemos por dia, mas depois ele não deixou mais a gente trabalhar por diária, era de empeleita. Era eu, pai, Zé Gamenha, Mané Jorgino, nós só trabalhava de empeleita, somente. Toda semana, todo sábado eu entregava a ele seis, sete, oito tarefas de cana ao feitor.354

Na fabricação da rapadura, no engenho propriamente dito, não havia empreitas. Todos os operários recebiam semanalmente um valor por dia trabalhado, independente da produção, que variava de um dia para o outro. Os trabalhadores mais diretamente envolvidos — os da fornalha — relatam: “... eu

botei (fogo) pra 26, 27, 28 (cargas), teve dia de sair 30”.355

“A faixa de rapadura

de Elony no começo, quando eu comecei a trabalhar, era até 23, 24 cargas,

351 No Cariri uma tarefa corresponde a um terço de um hectare, ou 3.333m2 (10.000 m2/3). 352 Elony Sampaio, em abril de 2005.

353 Francisco Alves, em 28 de setembro de 2005. 354 Zé Pindó, em 28 de setembro de 2003. 355 Francisco Alves, 28 de setembro de 2005.

né? E quando passou a só uma fornalha era 28! Nós cheguemos a fazer quarenta cargas de rapadura, só numa fornalha só”.356

Um dos pontos de unanimidade nos depoimentos dos trabalhadores é a exigüidade das remunerações recebidas, que pontuam a pobreza relatada de seu viver. Todos eles falam de seus pequenos ganhos, que mal davam para sobreviver. São quantias sempre muito pequenas, difíceis de ser transformadas em valores atuais, já que os nomes das moedas recebidas: tostões, réis, cruzeiros, cruzados, se confundem na mente dos entrevistados. O que fica é a unanimidade do adjetivo: o ganho era pequeno, mal dava para sobreviver, uma impressão espontaneamente presente em todos as falas, sem exceção:

No engenho não, só era aquela gaínho. Enquanto não chegava os legumezinhos da roça a gente sofria um pouco porque era só aquele gaínho.357

De todo jeito eu achava bom trabalhar. Mas o ganho era fraquinho nesse tempo, o ganho era fraco, era fraco demais.358

O ganho naquele tempo era pouquinho...pouquinho ainda hoje é pouquinho.Só que naquele tempo rendia mais do que hoje. Dinheiro hoje não ta valendo nada.359

Tuta lembra que durante a década de 50, Luís, um de seus irmãos, decidiu ir trabalhar em outro engenho à procura de um pagamento “melhor”:

“seu Antonio Coelho pagava a ele de dois e cinqüenta, dois mil réis e cinco tostões, o dinheiro que o povo chamava naquele tempo”... Enquanto isso, com

o pai recém falecido por mordida de cobra coral, Tuta trabalhava em casa, no pequeno roçado e procurava outras formas de contribuir para o orçamento doméstico. Eram tempos difíceis. Seguindo os passos do irmão, Tuta foi à procura de serviço na propriedade vizinha:

As coisas era barata, mas o dinheiro era pouco demais! Não dava pra comprar nada... Eu fui apanhar arroz lá. Bem ali no Brito. Passei tempo apanhando arroz e ganhando também. Naquele tempo as mulheres ganhavam mil e quinhentos [réis].360

Raros são os casos relatados de moradores do Tupinambá que

saíram para trabalhar em outros sítios, com a aquiescência do proprietário.

356 Zé Fulô, em 2 de novembro de 2005. 357 Zé Fulô, em 14 de setembro de 2003. 358 Zé Pindó, em 28 de setembro de 2003. 359 Dito Barnabé, em 14 de setembro de 2003. 360 Tuta, em setembro de 2003.

Normalmente tal mudança implicava na perda da condição de morador. Na continuação da narrativa, Tuta espontaneamente fez menção à reação do patrão: “Mas o ganho era pouco e eles foram trabalhar lá em seu Antonio

Coelho, e ele [Zé Major] não se incomodou e não mandou dizer vai sair pra fora porque os filhos deixou de trabalhar! Nós ficamos aqui!...Até hoje”.361

Em 1949, quando os Cabral de Melo passaram a morar no Tupinambá, o trabalhador adulto ganhava cinco mil réis, enquanto seus filhos

ganhavam a metade como ajudantes. “Quando eu fui trabalhar no engenho, foi

que eu passei a ganhar cinco mil réis. E daí ó... ficou a vida toda. Sem subir...”362

Algumas observações podem ser feitas, a partir do exame de folhas de pagamentos avulsas do Tupinambá. Escritas à mão em papel almaço, são relações referentes a algumas semanas da entressafra de 1981, ou seja, no ano seguinte à última moagem, quando os empregados fixos trabalhavam na plantação de cana. Nas oito listagens encontradas, repete-se o nome de três empregados recebendo valores fixos pela semana: o tratorista, o vaqueiro (cada um Cr$ 800,00) e o feitor (Cr$ 1000,00). Em seguida vê-se entre 13 e 21 nomes de trabalhadores (dependendo da semana registrada) ao lado da indicação do número de dias trabalhados e do total pago. Deste grupo, quase todos perfaziam Cr$ 120,00 por dia. Os restantes, 3 ou 4 nomes, possivelmente trabalhadores menos qualificados ou ajudantes, ganhavam entre Cr$ 100,00 e Cr$ 50,00 pela jornada. Há ainda um grupo menor (entre 5 e 8 trabalhadores) com anotações de valores pagos por produção, por tarefa. Essas poucas folhas de pagamento encontradas, mesmo restritas a um só período, podem ser tomadas como amostragem. Algumas informações nelas contidas corroboram afirmações recolhidas entre trabalhadores e proprietários, que davam conta da preponderância do pagamento por jornada de trabalho, mesmo após a introdução do regime de empreita.

Outra constatação possível a partir do exame desse material, diz respeito aos papéis exercidos pelo feitor e pelo patrão nas operações de

361 Idem.

362 Zé Fulô, em 2 de novembro de 2005. Desde 1942, a moeda nacional era o cruzeiro.

Contudo, era comum ver pessoas utilizar durante anos o nome da moeda anterior, embora ela não mais circulasse. Um cruzeiro equivalia a mil réis. Em dezembro de 1948 o salário mínimo nominal era de Cr$ 360,00 (o que correspondia, neste uso popular, a 360 mil réis).

pagamento. Nas folhas, vê-se uma caligrafia, possivelmente do feitor Naum, na relação de nomes e dias trabalhados (além de despesas com óleo diesel para o trator e arame para as cercas). Outra escrita, identificada como de Elony Sampaio, registrou, ao lado da primeira, os valores a pagar e a totalização. Os operários entrevistados contam que o feitor fazia os apontamentos de todas as despesas, diárias e empreitas, e a seguir levava para o patrão, que fazia as totalizações e ia buscar o dinheiro no banco. Outro encarregado, Agildo, agia de forma semelhante: “as folhas dos diaristas né? E as folhas dos empreiteiros,

que a gente chamava. Lá ele [Elony] conferia aquelas contas, né? E dava o dinheiro”.363 Os indícios nas folhas encontradas parecem confirmar tais procedimentos.

Ficam também evidenciadas a relativa uniformidade e a pequenez dos ganhos dos empregados fixos. Os já citados Zé Gamenha e Zé Fulô aparecem recebendo o correspondente a CR$ 120, 00 por dia.364 Este último, ao completar sua narrativa a respeito das remunerações recebidas afirmou: “Aqui

[Tupinambá] o maior dinheiro que eu ganhei foi quando foi o real. Era três reais. Por dia”.365

Mas o que representavam concretamente esses ganhos para o orçamento familiar? Qual o seu poder de compra? Segundo esses homens, o dinheiro recebido no sábado era utilizado para a aquisição de alimentos não supridos pelos roçados. Realizavam suas compras na feira, ou em armazéns e mercantis da cidade. Havia semanas em que o pagamento se efetivava demasiadamente tarde, a ponto de não ser possível aproveitar os preços mais razoáveis do fim da feira dos sábados.

Referindo-se a valores pagos na década de 1960, Socorro Souza estima o valor de compra do ganho de um dia de seu pai Severino: “Eu lembro

que minha mãe comprava três quilos de feijão do mais péssimo. Mas a gente comia conformado porque não tinha outro meio!” 366

363 “Seu Agildo”, em 12 de abril de 2007.

364 Sendo época de entressafra, observa-se que o maior número de dias trabalhados nas

semanas registradas para um só trabalhador foi de 4 dias e meio. O que corresponde a Cr$ 540, 00 em uma semana, e Cr$ 2.160,00 em um mês. Para efeito de comparação, em outubro de 1981, por decreto presidencial, o salário mínimo fixado para o Ceará (6ª região) foi de Cr$ 324,40 valor dia, e Cr$ 9.732,00 valor mês.

365 Zé Fulô, em 2 de novembro de 2005. 366 Socorro Souza, em 29 de setembro de 2005.

Os legumes advindos do roçado não cobriam todas as necessidades alimentícias e nem duravam o ano inteiro. Para os moradores, mesmo estando isentos de despesas de aluguel e da compra de lenha para combustível, tornava-se muito difícil adquirir um calçado, vestimenta, ou remédio de

farmácia, com a remuneração semanal do Tupinambá. Essas lacunas eram

cobertas com outros ganhos: trabalhos de membros da família, mulheres e filhos, já apontados anteriormente. Nesses serviços extras, a maioria deles realizados fora do sítio, havia o cuidado de informar o patrão ou o feitor e em alguns casos obter consentimento. Socorro Souza conta que a situação em sua casa só melhorou efetivamente quando seu pai começou a vender rapadura do Tupinambá nas feiras da região, em seus dias de não obrigação.

Era assim. No sábado era Barbalha, na segunda era Crato [dias de feiras]. Na quinta, ele ia pro Sítio dos Moreira [Pernambuco]. Aí ele não vinha. Ele ficava lá pra outra feira do Parnamirim. Aí ele tirava dois dias, três dias. Quando ele tirava dois dias, às vezes o feitor já vinha perguntar por qual motivo. Pai dizia: “Não! É porque eu fui receber um tal dinheiro, fui vender minha rapadura...” [Aí o feitor dizia:] “Não! Tá bom!”367

No tempo de Elony surgiu o costume de fornecer um vale aos trabalhadores, antecipando parte do pagamento da semana: “...na quarta feira

ele fornecia um valezinho mas... Elony nunca parou dentro de casa o dia todo. O cabra tinha que esperar... pra receber aquele valezinho”.368

O administrador do Tupinambá não comercializava alimentos para trabalhadores: não havia na região o sistema de barracões, tão comuns nas zonas canavieiras de açúcar e usinas. Entretanto, sendo um proprietário respeitado na cidade, seus vales eram aceitos nas vendas e bodegas próximas.

A antecipação de parte do pagamento acontecia em função da extrema carência e da necessidade dos moradores de comprar seus alimentos. Muitos vivenciavam aquela realidade de trabalhar de dia para comer de noite. A princípio pode ser difícil compreender como esses homens se sujeitavam a todos os já citados componentes de obrigações e sujeições, realçados por um trabalho tão parcamente remunerado. Contudo, não se pode esquecer que se tratava de pessoas extremamente pobres, destituídas de tudo. Até a morada, não era, e nunca seria delas. Famílias que preferiam ter um

367 Idem

dinheiro certo ao final da semana, mesmo pequeno, que permitisse fazer uma

feira. Os moradores mais carentes esperavam ansiosamente o fim da jornada

de trabalho e a boa vontade do feitor em antecipar pagamentos, para receber o equivalente a uma diária, que lhes permitia comprar o de comer na bodega mais próxima e alimentar a família naquela noite. Após o breve descanso do sono, uma jornada de trabalho igual: labutar de dia para ter o que comer a noite. Mais uma vez, a fala de Socorro Souza expressa esse viver: “Às vezes

papai dizia assim: “Amanhã é sábado, mas a gente já comeu o dinheiro todinho, vamos trabalhar o dia de sábado que é pra comprar alguma coisa pra o domingo.” 369

Pode-se argumentar que a situação de carência relatada pela família Souza estava num dos extremos da categoria dos moradores. Ao observar o nivelamento das remunerações monetárias dos operários, deve-se lembrar que tais valores representavam apenas uma parte dos elementos que compunham a sobrevivência e as condições de reprodução desta categoria. A disposição ou a iniciativa dos trabalhadores para buscar outros ganhos complementares dentro da mesma propriedade — tentar fazer empreitas, criar porcos — resultava em um diferencial entre o passadio das famílias. Angariar a simpatia do feitor e com isto ver designada para si uma parcela de terra de melhor qualidade para o roçado, poderia ser outro fator de diferenciação. Sobretudo, como boa parte da reprodução da categoria estava embasada no trabalho por

unidade familiar, o tipo de família e o número de membros aptos para a labuta

tornavam-se fatores preponderantes para a determinação da qualidade de vida daquele grupo.

A partir das falas, observa-se que os trabalhadores, além de serem unânimes quanto à pequenez do valor monetário recebido por seu trabalho, concordam na insuficiência dessa quantia para a sobrevivência familiar. A este respeito há uma interessante discussão de Antonio Candido sobre valores mínimos de sobrevivência. Esse autor não dissocia as necessidades exclusivamente materiais daquelas de interação social, presentes em qualquer grupo humano. Ele trabalha com a categoria de mínimos vitais e sociais, que admite ser utilizada em sentido comparativo em sociedades complexas, com diversidade de grupos sociais e níveis de vida: