Nascido em Saquarema, município situado no estado do Rio de Janeiro, em 1883, Oliveira Vianna estudou na Faculdade de Direito do Rio de Janeiro, quando entrou em 215FARIA, Luis Castro. Op Cit. p. 17.
contato com ideias que fariam parte de formação. Sua primeira publicação em livro foi Populações meridionais do Brasil, em 1920, outros livros importantes apareceriam mais tarde como Pequenos Estudos de Psicologia Social (1922), Evolução do Povo Brasileiro (1923), O Idealismo na Constituição (1930) e Raça e Assimilação (1932). Portanto, o Oliveira Vianna que publicou no Dicionário havia estreado a pouco no mundo das letras e ainda não era o intelectual de peso que se tornaria anos mais tarde, embora seu livro de estreia tivesse alcançado um bom reconhecimento.
Oliveira Vianna elege como tema de sua reflexão no Dicionário Histórico, Geográfico e Etnográfico do Brasil, em O typo brasileiro: seus elementos formadores, a questão das raças e da miscigenação no Brasil. Seu argumento tem início com a posição de que politicamente a questão étnica é um problema de extrema simplicidade, pois não existiria diferenciação nas leis brasileiras sobre o assunto. Em suas palavras, “Homens de raça branca, homens de raça vermelha, homens de raça negra, homens mestiços dessas tres raças, todos têm aqui as mesmas oportunidades economicas, as mesmas oportunidades sociaes, as mesmas opportunidades políticas”.217 No entanto, se para Vianna o problema étnico era simples do ponto de vista político, quando observado pela ciência adquiria uma complexidade desconcertante, se transformando em um objeto de pesquisas e discussões para a Antropologia, Etnologia e Antroposociologia.
A complexidade da questão estava, segundo o autor, no fato dos elementos étnicos que compunham a formação do Brasil não pertencerem ao mesmo ramo como no caso europeu, que embora tivesse subdivisões todos pertenciam à ramificação ariana. No Brasil, as três raças formadoras eram de ramos diferentes e duas dessas exóticas, fato que ainda gerava problemas de adaptação ao meio. E por fim – ao contrário do caso norte-americano onde, afirmava Oliveira Vianna, as raças se mantiveram isoladas e infusíveis – no Brasil a miscigenação ocorreu entre as raças “duas a duas, tres a tres e recruzam-se até o infinito”218 formando uma grande variedade de tipos étnicos.
217VIANNA, Oliveira. O typo brasileiro: seus elementos formadores. In. Dicionário, Histórico, Geográfico e Etnográfico do Brasil. Rio de Janeiro: IHGB, 1922, v. 1, p. 277.
Essa multiplicidade de typos anthropologicos, oriundos da mestiçagem de raças tão diversas, torna, por seu turno, extremamente ardua a fixação do nosso typo nacional. Como essas diversas raças não se distribuem egualmente e nas mesmas proporções pelo nosso territorio e, muito ao contrario, se concentram mais intensamente neste ou naquelle ponto, os typos ethnicos regionais reflectem essa diversidade de coeficientes de caldeamento e accentuam mais este ou aquelle atributo anthropologico, conforme o grupo ethnico preponderante na sua formação.219
Somado à complexidade dos tipos antropológicos Vianna diz ser necessário acrescentar a complexidade dos tipos psicológicos. Cada raça possuiria uma característica psicológica inerente, segundo sua concepção: o indígena como selvagem, o negro como bárbaro e o branco como civilizado. Todas as questões inerentes às raças faziam necessária uma preocupação eugênica de avaliação “da maior ou menos potencialidade ascensional dos seus elementos inferiores” e da “contribuição que cada uma dessas raças tem trazido à nossa civilização e a nossa história, etc”.220
É impossível, pois, estabelecer, de uma maneira precisa, os caracteristicos do typo anthropologico do brasileiro. Brasileiro é o negro; brasileiro é o indio; brasileiro é o branco das diversas raças aqui confluentes; brasileiro é o mestiço indo-arico, é o mestiço afro-arico, é o mestiço indo-negro; é o mameluco, é o mulato, é o cafuzo. Cada qual desses typos, ou puro ou cruzado, apresenta uma incomparável variedade somatologica: qual delles representará o nosso typo anthropologico nacional? Todos elles e nenhum delles; dahi a impossibilidade de um typo unico.221
Apesar da preocupação demonstrada pelo autor na desigualdade da distribuição dos tipos pelo território, pois existiriam subdivisões e diferenças internas das raças que gerariam por sua vez uma multiplicidade ainda maior de tipos com a miscigenação. Acreditava que o sentido da evolução étnica do povo brasileiro era “arianizante”: “tudo parece indicar que o futuro typo anthropologico do brasileiro será o ariano modelado pelos trópicos, isto é, o ariano vestido com aquillo que alguém chamou a libré do clima”222. 219Idem.
220Idem. 221Idem, p. 80. 222Idem, p. 81.
Embora afirmasse ser impossível estabelecer as características de um tipo brasileiro, Oliveira Vianna enxergava o elemento ariano como aglutinador de uma unidade nacional étnica. Maria Stella Bresciani argumenta que Oliveira Vianna em sua obra formulava a intenção de:
[...] mesmo reconhecendo as diversidades regionais, integrá-las em uma unidade, propondo apagar ou minimizar as diferenças entre as várias correntes de população que vivem em território brasileiro, construindo um denominador comum da identidade e da unidade nacional.223
Essas ideias foram apresentadas no Dicionário publicado pelo IHGB em 1922, instituto que Oliveira Vianna ingressaria como sócio dois anos mais tarde, em 1924. É interessante notar que o texto de Vianna aparece ao lado do escrito por Rodolfo Garcia e intitulado Etnografia Indígena. Este e O typo brasileiro formaram o item dedicado ao tema pelo Instituto. Os estudos dedicados aos indígenas ocupavam a grande maioria das publicações daquilo que era entendido como etnografia, enquanto a questão da mestiçagem não tinha tanto espaço dentro da instituição.
O typo brasileiro é uma antecipação de suas teses que seriam apresentadas um ano mais tarde em Evolução do povo brasileiro e apresentava semelhanças com a obra de 1923. Na Evolução do povo brasileiro Oliveira Vianna “utilizou métodos considerados, para a época, rigorosamente científicos. Tabelas, estatísticas, fontes primárias. Com enorme detalhamento, sobretudo em dados geográficos, o tratado propõe a necessidade de fortalecimento racial do país”224. O typo brasileiro contém o mesmo tipo de citações, diversas tabelas com dados populacionais por Estados e regiões, divididos pelas diferentes raças observadas pelo autor. Esses dados se fazem presentes para discutir o sentido da arianização do país, que é o objetivo do texto. Mas é a caracterização das populações que chama a atenção, uma vez que não são discutidas a partir de fontes ou por contato.
223BRESCIANI, Maria Stella M. O charme da ciência e a sedução da objetividade. Oliveira Vianna entre
intérpretes do Brasil. São Paulo: Editora da UNESP, 2007, p. 170.
224GUIZBURG, Jaime. Política da memória no Brasil: Raça e história em Oliveira Vianna e Gilberto Freyre,
Ha um ponto, em que o negro e o indio revelam uma mentalidade identica: é a indifferença pelo futuro, a extrema limitação das ambições, o descaso pela melhoria do seu triste viver. Barbaros uns e outros, contentam-se com pouco, o bastante para satisfazer ás suas necessidades quotidianas,e, no seu esforço para garantir a subsistencia, não dilatam os objectivos da sua actividade para além do dia seguinte.225
Esse tipo de caracterização não se limita aos negros e indígenas. Mas é ampliada quando o autor discute as populações brancas com migração para o país.
Hoje ainda, pelo que toca ao contingente branco, o elemento principal da nossa formação é o portuguez. Dotado de extrema fusibilidade, não tendo nem pelo negro e muito menos pelo indio a repugnancia do anglo-saxão, elle, desde o primeiro seculo da nossa colonização, caldêa-se largamente com estes dois elementos formadores da nossa nacionalidade e infunde a toda a massa social do paiz, das classes aristocrticas ás classes populare, da gente de ribamar á gente do interior, o seu espirito, a sua sensibilidade, o seu temperamento, o seu genio especifico e original.226
A raça lusa teria aptidão para o comércio, o que levaria ela a gravitar em torno das cidades e não explor o interior do país. Os alemães teriam disposição ao mundo rural, se instalando em áreas que os portugueses não penetravam e criando um vínculo com a terra que nenhum outro povo era capaz de criar. O italiano é ativo e ardente, não possuía o apego rural do alemão, pois via o campo apenas como ponto de partida para a cidade. Ao contrário do português e o espanhol, o italiano possuía uma maior ambição, combinada com maior tenacidade e disciplina. Interessante notar que todas essas características são apresentadas no texto como intrínsecas a raça.
Portuguezes, hispanhóes, allemães, polacos, russos formam, em nosso paiz, o vasto grupo das raças dotadas de solubilidade. Ha, porém, dois typos de immigrantes - o syrio e o anglo-saxão- que se conservam absolutamente insoluveis, como verdadeiros corpos extranhos em nossa
225VIANNA, Oliveira. Op. Cit. p. 287 226Ibdem.
sociedade, embora um delles, o anglo-saxão, exerça em nossa economia social uma acção poderosamente estimuladora e dynamogenica.227
As migrações e a fusibilidade das raças formaria novos brasileiros capazes de dar as diretrizes para o progresso da nação, podemos ver na forma como Oliveira Vianna encerra seu texto essa tese:
Nestes dominios das actividade praticas, veremos então esses neo- brasileiros, filhos e netos de lusos, de italianos, de allemães, que nos parecem hoje deprimidos pelo clima, revelarem a soberba estructura moral de que são dotados, as suas esplendidas reservas de energia e tenacidade, accemuladas pela hereditariedade. Elles serão, na nossa economia social, o que são os seus ancestraes actualmente: - elementos dynamogenicos, forças de salubrização e vitalidade, factores de renovação e progresso, capazer de fornecer a essa massa innumeravel de mestiços improgressivos, que formam o grosso das nossa populações do Norte e do Sul, esses elementos de direcção e commando, sem os quaes ellas jámais poderão sahir daquella “inacção e indingencia”, de que ja fallava, ha seculo e meio, o marquez de Lavradio.228
As duas questões que se destacam na leitura deste texto são: qual o motivo da mestiçagem ter sido tão pouco discutida nas páginas do IHGB? Quais características que levaram o texto a ser classificado ao lado do trabalho de Rodolfo Garcia como etnografia? A primeira questão, infelizmente, está além de nossas possibilidades de resposta. O que observamos com facilidade é que existe um grande silêncio em relação a este tema no Instituto. Edgard Roquette-Pinto propôs temáticas que se relacionavam com a mestiçagem para o congressos de História, mas não obteve publicações em resposta. Assim, O typo brasileiro de Oliveira Vianna foi o único texto explicitamente da temática que encontramos. Quanto ao texto ter sido publicado como etnografia podemos refletir algumas hipóteses. A forma deste texto se distancia daquilo que discutimos até o momento neste trabalho - por um lado o uso da etnografia para escrita da história e por outro o fazer etnográfico de alguns integrantes do IHGB. O que nos leva a compreender que o termo etnografia está funcionando neste caso como uma temática vinculada a discutir características de 227Idem, p .289
determinadas populações. Se aqui não está baseada na observação ou na pesquisa histórica é porque a preocupação gira em torno do conceito de raça. Raça organiza o pensamento de Oliveira Vianna, que apresenta suas ideias como um organismo que pode ficar mais saudável ou doente de acordo com os elementos que compõem o todo. Não há observação e nem história nesse texto. A aproximação é maior em relação à biologia neste caso, que faz parte da discussão quando ampliamos o olhar e percebemos a etnografia praticada no IHGB dentro de um contexto intelectual mais amplo, onde ela está integrada com um rol de interrogações sobre o povo brasileiro. Esse capítulo demonstra a diversidade que o termo etnografia abrangia. Temos viagens, balanços historiográficos e aproximações com a biologia.