Alguns autores interpretam o sincretismo religioso como expressão tipicamente pósmoderna, em analogia ao fenômeno do ecletismo cultural presente na pósmodernidade (FILORAMI;PRANDI 1999, 286) pensam naquilo que chamam de “ocidentalização do mundo”,
uma homogeneização cultural de nível planetário da qual a religião não escapa, pois ela está inserida em todas as esferas da sociedade, relativizando assim o processo de secularização.
Quando MAX WEBER falou da modernidade como “desencantamento do mundo”, a
pósmodernidade foi chamada de “desencantamento do desencantamento” (GUTIÉRREZ 2004,
137). Nunca antes, segundo FILORAMI; PRANDI (1999, 286), a religião foi objeto de tantos
estudos, por parte das mais variadas disciplinas. Essa homogeneização e ocidentalização do mundo, e esse re-encantamento do mundo afetam até sociedades onde parecia soberano o ateísmo de Estado, como, p.ex., na China, percebe-se como resultado das radicais mudanças que ali também ocorreram, por debaixo da crosta dessa ideologia imposta às massas, que continuam a fermentar tradições e exigências religiosas que um dia ou outro virão violentamente à tona. Nesse contexto, FILORAMO; PRANDI (1999, 287) prevêem até uma
espécie de ciência política da religião que corresponderia às demandas da crítica ideológica em relação à religião. Também com relação ao novo papel das mulheres nas religiões interpretam esse fenômeno como mais um sinal da importância recuperada da religião no discurso público (FILORAMO;PRANDI 1999, 288).
PASSOS (2007, 137), por sua vez, observa que a religião, muitas vezes, é afirmada
como salvação da decadência moderna dentro de projetos conservadores e de movimentos fundamentalistas que pretendem superar as contradições do mundo atual. Além disso, a religião precisa servir como fonte segura de verdade que deve ocupar seu lugar na sociedade de modo geral e, frequentemente, na comunidade acadêmica, em particular. Sob esse aspecto, a experiência religiosa geralmente é apresentada como conhecimento científico por certo tipo de discurso que mistura o místico com o científico o que é o caso de alguns movimentos esotéricos. Ou usa-se a ciência para fundamentar cientificamente dados de fé, tal como o fazem determinadas linhas espirituais e a própria parapsicologia.
santos e pecadores, sem possibilidade de saber exatamente quem pertence a que grupo. O conceito recebe em alguns autores a interpretação no sentido de poder pensar uma maior pluralidade de modos de ser membro da Igreja.
Outro traço da religião na sociedade pósmoderna é identificado por STEIL (2008, 10)
no trânsito religioso. Esse consiste no deslocamento dos atores religiosos por diversos espaços sagrados e/ou crenças religiosas bem como na prática simultânea de diferentes religiões. Um trânsito se dá tanto entre as religiões institucionalizadas quanto entre as religiões e outros sistemas de práticas sociais e foi chamado de “religiões analógicas ou metafóricas”: orientação espiritual, ecológica, terapêutica ou psicológica. Este trânsito religioso tem sua analogia no ecletismo cultural, presente em obras de arte, arquitetura e filmes de cinema. Trata-se de uma expressão artística auto-referencial e que cita obras conhecidas. Esta auto- referencialidade do fenômeno religioso atual é um dos típicos elementos da cultura pósmoderna.
A idéia de que os diferentes sistemas religiosos são complementares e não excludentes parece constituir uma das marcas preponderantes da sociedade pósmoderna contemporânea, embora tal idéia contraste com os fundamentalismos que emergem como uma reação à tolerância e aos trânsitos religiosos. A complementaridade recíproca das religiões se confronta com uma concepção exclusivista de religião que vê verdade e a possibilidade de encontrá-la, em seu caráter absoluto e único, realizada apenas em sua própria religião, excluindo todas as demais religiões categorialmente dessa possibilidade. Nesse sentido, do ponto de vista dos atores individuais, que se posicionam no pólo inverso dos fundamentalismos, as religiões não estariam competindo entre si. Pelo contrário, estariam completando-se em vista da garantia de maior proteção para aqueles que as buscam pretendendo fornecer uma resposta a sua aflição (STEIL 2008, 10). Torna-se necessário compreender de que modo a mudança do paradigma
religioso, no sentido de uma intensificação das formas místicas de expressão religiosa, está produzindo uma diversidade de movimentos transversais de espiritualidades presentes nas instituições religiosas, engendrando novas articulações entre o tradicional e o moderno, o popular e o institucional, o local e o universal. Com isso dá-se conta de que a religião não é algo que existe isoladamente em si, como se fosse uma “substância” imutável e permanente, mas antes, apresenta-se como uma configuração histórica que resulta da “negociação” contínua entre formas diversas de expressar a experiência religiosa (STEIL 2008, 14).26
26 DOLL (1997, 198) lembra que somente desde a década de 1970, começa-se a desenvolver uma consciência
cósmica e inter-relacional. O desafio deste conhecimento é duplo: por um lado, respeitar o caráter local das nossas percepções e, por outro, perceber que as nossas perspectivas locais estão integradas numa matriz cultural, ecológica e cósmica muito mais ampla. O nosso progresso e a nossa existência – como indivíduos, como comunidades, como uma raça, como uma espécie, como uma forma de vida – dependem da nossa capacidade de criar uma harmonia complementar entre essas duas perspectivas. Interessante, nesse contexto,
Uma perspectiva positiva do sincretismo religioso na juventude como fenômeno pósmoderno é apresentado por SPIEGEL (1997, 169) no sentido em que interpreta o
sincretismo religioso como resultado de um esforço hermenêutico considerável elaborado pelos jovens. Partindo da tese de que não é a juventude que se afasta da igreja católica, mas pelo contrário é a igreja católica que não está mais conseguindo comunicar-se adequadamente com os jovens, SPIEGEL confia na capacidade dos jovens de procurar e encontrar respostas aos
seus contínuos e constantes questionamentos religiosos. Por conseguinte, ele considera a tese da indiferença religiosa entre os jovens como falsa. Em contrapartida, ela deve ser interpretada como indiferença em relação às igrejas institucionalizadas. Essas não percebem o contínuo interesse dos jovens por questões religiosas que por sua vez procuram e encontram no sincretismo as respostas que as igrejas não conseguem transmitir. Nesse sentido existe algo como uma “coação para a heresia” (SPIEGEL 1997, 170) porque a procura sincrética
desemboca na “bricolagem” de novos “feixes” religiosos.
Outra abordagem positiva do sincretismo religioso como fenômeno pósmoderno é apresentada por SOARES (2007a). Ele alega que o próprio conceito de diálogo interreligioso é
questionável em casos como o diálogo entre cristãos e religiões de origem africana, “uma vez que 90% dos membros do Candomblé já são – ou, pelo menos, sempre se sentiram – católicos”(SOARES 2007a, 115).