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Vezes sem número a mulher é temerosa, covarde para a luta e fraca para as armas; se, todavia, vê lesados os direitos do leito conjugal, ela se torna, então, de todas as criaturas a mais sanguinária!

(Eurípedes, 1991, p. 29)

A Mulher na Psicanálise Freudiana

Desde que Freud foi para Paris em 1885 estudar na Salpêtrière com Charcot, já vinha defendendo o tratamento da histeria ou das mulheres. Embora haja homens histéricos, por muito tempo se teve a ideia de que somente mulheres eram histéricas. Freud fala de uma superestimação da frequência da histeria feminina, mesmo com Charcot apresentando trabalhos nos quais tal quadro clínico também estivesse presente em homens. Freud então aborda o preconceito que havia em relação às histéricas e a luz que trouxe Charcot, retirando- as do caos das neuroses, atribuindo à histeria uma sintomatologia, extremamente multiforme, mas na qual imperava uma lei e uma ordem.

Durante as últimas décadas, é quase certo que uma mulher histérica seria tratada como simuladora, do mesmo modo que, em séculos anteriores, certamente seria julgada e condenada como feiticeira ou possuída pelo demônio. Sob outro aspecto, é possível que até se tenha dado um passo atrás no conhecimento da histeria. A Idade Média estava familiarizada de modo preciso com os “estigmas” da histeria, seus sinais somáticos, e os interpretava e utilizava à sua própria maneira (FREUD, 1886/1998, p. 16).

Como se sabe, ao longo dos anos de 1895 e 1896, Freud formulou algumas teses cruciais sobre a sintomatologia histérica e seus processos psíquicos. Em 1901 escreveu um estudo aprofundado de um caso de histeria, o Caso Dora, vindo a publicá-lo somente em 1905, quase que concomitantemente ao Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade. Na apresentação desse caso, o autor, refere que, desde Estudos sobre Histeria, a técnica psicanalítica sofreu muitas mudanças:

Naquela época o tratamento (de análise) partia dos sintomas e visava esclarecê-los um após os outros. Desde então abandonei essa técnica por achá-la totalmente inadequada para lidar com a estrutura mais fina da

neurose. Agora deixo que o próprio paciente determine o tema do trabalho cotidiano, e assim parto da superfície que seu inconsciente ofereça a sua atenção naquele momento” (FREUD, 1905/1989, p. 20).

Em 1905, em Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, formulou a estrutura da teoria psicanalítica, revelando uma base rica de muitas variações da sexualidade humana.

Mas convém lembrar ainda que parte do conteúdo deste escrito – a saber, sua insistência na importância da vida sexual para todas as realizações humanas e a ampliação aqui ensaiada do conceito de sexualidade – tem constituído, desde sempre o mais forte motivo para a resistência que se opõe à psicanálise. No afã de encontrar tópicos grandiloquentes, chegou-se a falar no “pan-sexualismo” da psicanálise e a fazer a esta absurda censura de que ela explicaria tudo a partir da sexualidade. Só é possível assombrar- se com isso quando se esquece quão cofuso e distraído se pode ficar em decorrência dos fatores afetivos (FREUD, 1905/2002, p. 11 - 12).

Nos termos deste estudo, é na puberdade que se estabelecem os caracteres masculinos e femininos, embora na infância já se reconheça bem tais disposições, sendo que nas meninas as inibições da sexualidade ocorrem mais cedo e o recalcamento parece maior, mas a atividade auto-erótica é idêntica em ambos, o que suprime na infância a diferenciação que ocorrerá na puberdade, tendo a sexualidade nas meninas, durante a infância, um caráter masculino. “A rigor, se soubéssemos dar aos conceitos de ‘masculino’ e ‘feminino’ um conteúdo mais preciso, seria preciso defender a alegação de que a libido é, regular e normativamente, de natureza masculina, quer ocorra no homem ou na mulher, e abstraindo seu objeto, seja este homem ou mulher” (FREUD, 1905-2002, p. 96). Neste estudo, ele trata das pulsões parciais e da perversão polimorfa da criança, em que ela constrói a teoria da relação entre os sexos, no entanto deixando intacta a questão de saber o que distingue a mulher. Em nota acrescentada em 1915 sobre a libido ser uma só para ambos os sexos, Freud diz que há em cada pessoa uma mescla de caracteres sexuais biológicos com os traços biológicos, bem como uma conjugação entre atividade e passividade, dependendo ou não do caráter biológico. Ainda em 1905 há uma analogia do clitóris com o pênis: “Quando se quer compreender a transformação da menina em mulher, é preciso acompanhar as vicissitudes posteriores dessa excitabilidade do clitóris” (FREUD, 1905-2002, p. 98).

Em 1914, em um artigo cujo título original é Zur Einführung Des Narzissmus, Sobre a Introdução do Conceito de Narcisismo, Freud fala de diferenças fundamentais entre o sexo masculino e feminino quanto ao tipo de escolha objetal, acentuando que tais diferenças não são universais. No sexo masculino há uma supervalorização sexual originária do narcisismo

primário da criança, portanto há uma transferência desse narcisismo para o objeto sexual, há um empobrecimento do ego em relação à libido em favor do objeto amoroso. No sexo feminino isso não ocorre, pois com o amadurecimento dos órgãos sexuais femininos que estavam em latência há uma intensificação do narcisismo original, sendo isto desfavorável a uma escolha objetal com uma supervalorização sexual. Freud fala das belas mulheres que exercem um grande fascínio não só por serem belas, mas que o narcisismo de outra pessoa exerce certo fascínio sobre aquele que renunciou a uma parte de seu narcisismo em busca de seu amor objetal. “Rigorosamente falando, tais mulheres amam apenas a si mesmas, com uma intensidade comparável à do amor do homem por elas” (FREUD, 1914/1989 p. 105). Freud defende-se dizendo que não se trata de desvalorizar as mulheres mas, sim, de notar que existem mulheres que amam nos moldes masculinos.

Em 1924, em seu artigo A dissolução do complexo de Édipo - ou O declínio do complexo de Édipo, tradução mais adequada a “untergang” (declínio) - , Freud dá ênfase aos cursos diferentes que toma o desenvolvimento da sexualidade dos meninos e meninas. Afirma que o sexo feminino também desenvolve um complexo de Édipo, um superego e um período de latência, mas a sua maneira: “Aqui a exigência feminista de direitos iguais para os sexos não nos leva muito longe, pois a distinção morfológica está fadada a encontrar expressão em diferenças de desenvolvimento psíquico” (FREUD, 1924/1996, p. 197). É neste texto que Freud faz a conhecida analogia do clitóris com o pênis, dizendo que a menina, ao se comparar com o menino, sente-se injustiçada e fundamentando sua inferioridade, consolando-se com a expectativa de vir a adquirir, quando mais velha, um apêndice como o do menino e também presume que em algum tempo teve um e que foi castrada, a castração, portanto, para a menina é um fato consumado enquanto o menino teme sua ocorrência. O fato de já ser castrada, faz com que a menina não tenha o temor da castração o que faz cair: “(...) um motivo poderoso para o estabelecimento de um superego e para a interrupção da organização genital infantil” (FREUD,1924-1996, p.198). Para a menina essas mudanças são oriundas do exterior e a ameaçam com uma perda de amor.

Até aqui Freud diz que o Édipo feminino é simples e não vai além da identificação com a mãe e com a atitude feminina em relação ao pai, além de não aceitar a falta do pênis e reivindicá-la, deslizando em uma equação que vai do pênis ao bebê. “Seu complexo de Édipo culmina em um desejo, mantido por muito tempo, de receber do pai um bebê como presente – dar-lhe um filho” (FREUD, 1924/1996, p. 198).

No verão de 1931, Freud escreve seu artigo Sexualidade Feminina. A diferença entre este artigo e o de 1925 está na ênfase que ele confere à ligação pré-edipiana da menina com a

mãe. Explica novamente o Complexo de Édipo, no qual encontramos a criança ligada ternamente ao genitor de sexo oposto e hostil ao do próprio sexo. No caso do menino, diferente do texto de 1924 (aqui a simplicidade estava no Édipo feminino), diz que nos meninos isso não é difícil de explicar: “Seu primeiro objeto amoroso foi a mãe. Continua sendo, e, com a intensificação de seus desejos eróticos e sua compreensão interna mais profunda das relações entre o pai e a mãe, o primeiro está fadado a se tornar o seu rival” (FREUD, 1931/1996, p. 233).

Freud assinala agora dois aspectos que complicam o desenvolvimento da sexualidade feminina, o primeiro é abandonar o clitóris por outra zona genital, a saber, a vagina, o qual já havia postulado, o segundo é a troca da mãe (seu primeiro objeto) pelo pai. Freud conclui a partir de sua observação de mulheres que tinham ligações fortes com seus pais:

Dois fatos sobretudo me impressionaram. O primeiro foi o de que onde a ligação com o pai era particularmente intensa, a análise mostrava que essa ligação fora precedida por uma fase de ligação exclusiva à mãe, igualmente intensa e apaixonada. Com exceção da mudança de seu objeto amoroso, a segunda fase mal acrescentara algum aspecto novo à sua vida erótica. Sua relação primária com a mãe fora construída de uma maneira muito rica e multificada. O segundo fato ensinou-me que a duração dessa ligação também fora grandemente subestimada. Em diversos casos, durará até quatro anos de idade – em determinado caso até os cinco - , de maneira que abrangera, em muito, a parte mais longa do período da primeira eflorescência sexual. (FREUD, 1996, p. 233-234)

Com isso lembra-nos que há muito já abandonou o paralelelismo entre o desenvolvimento sexual masculino e o feminino.

Há a primeira diferença que, apesar da disposição inata nos seres humanos à bissexualidade, isso está no primeiro plano nas mulheres em relação aos homens, pois o homem possui apenas uma zona sexual, enquanto as mulheres possuem o clitóris e a vagina e, como já havia pontuado no artigo de 1924, deve haver a passagem de uma zona à outra, no desenvolvimento feminino. A segunda diferença está relacionada ao que Freud chama de “o encontro do objeto”:

No caso do homem, a mãe se torna para ele o primeiro objeto amoroso como resultado do fato de alimentá-lo e de tomar conta dele, permanecendo assim até ser substituída por alguém que se assemelha ou dela se derive. Também o primeiro objeto de uma mulher tem de ser a mãe; as condições primárias para uma escolha de objeto são, naturalmente, as mesmas para todas as crianças. Ao final do desenvolvimento dela, porém, seu pai – um homem – deveria ter-se tornado seu novo objeto amoroso (FREUD, 1986, p.

Portanto, não é exatamente isso que acontece e há três caminhos que Freud aponta para o Édipo feminino, com isso rejeitando o “complexo de Electra”, equivalente ao Édipo masculino.

É apenas na criança do sexo masculino que encontramos a fatídica combinação de amor por um dos pais e, simultaneamente, ódio pelo outro, como rival. No caso dela, é a descoberta da possibilidade de castração, tal como provada pela visão dos órgãos genitais femininos, que impõem ao menino a transformação de seu complexo de Édipo e conduz à criação de seu superego, iniciando, assim, todos os processos que se destinam a fazer o indivíduo encontrar lugar na comunidade cultural. Após o agente paterno ter sido internalizado e ter-se tornado um superego.

Em 1925, no artigo Algumas Consequências Psíquicas Da Distinção Anatômica Entre Os Sexos, Freud reavalia suas opiniões sobre o desenvolvimento psicológico das mulheres. O autor admite que, no Complexo de Édipo feminino, haja um problema a mais que o dos meninos. Nos dois casos o primeiro objeto de amor é a mãe e o menino o retém no Complexo de Édipo, como ocorre com as meninas? Freud, então, fala da inveja do pênis: “Todo analista já se deparou com certas mulheres que se aferram com intensidade e tenacidade especiais à ligação com o pai e ao desejo, em que esse vínculo culmina, de terem um filho seu. Temos boas razões para supor que a fantasia de desejo foi também a força motivadora de sua masturbação infantil” (FREUD, 1925/1996, p. 312).

Claro que, para chegar a isso, há antes a comparação que a menina faz de seu órgão com o do menino, o que a leva a uma analogia e a ver o menino como superior: “dessa ocasião em diante caem vítimas da inveja do pênis” (FREUD, 1986, p. 313). E ainda: “Ela o viu, sabe que não o tem e quer tê-lo” (FREUD, 1986, p. 314).

Da inveja do pênis decorre o que se segue:

1) A menina querer tornar-se homem e assim permanecer até uma idade bem avançada.

2) Haver uma rejeição que na vida adulta significaria o começo de uma psicose.

3) Pode associar-se ao homem no desprezo às criaturas que não possuem pênis e insistir em ser como um homem.

4) Pode se transformar no ciúme que “desempenha um papel muito maior na vida mental das mulheres que na dos homens e isso se deve ao fato de ser enormemente reforçado por parte da inveja do pênis deslocada” (FREUD, 1986, p. 315 – 316).

5) Pode fazê-la voltar-se contra a mãe que passa a ser responsabilizada por sua falta de pênis. O que Freud chama de afrouxamento da relação afetuosa da menina com o objeto materno.

Aqui, Freud diz alcançar uma compreensão acerca do Complexo de Édipo feminino, sendo este uma formação secundária, existindo um contraste fundamental entre os meninos e as meninas. “Enquanto, nos meninos, o complexo de Édipo é destruído pelo complexo de castração, nas meninas ele se faz possível e é introduzido através do complexo de castração” (FREUD,1986, p. 318).

Assim, o complexo de castração incentiva a feminilidade. Na menina falta o motivo para a destituição do complexo de Édipo, em um desenvolvimento normal de um menino com o declínio do complexo de Édipo, o superego passa a ser seu herdeiro. No caso das mulheres:

(...) o nível daquilo que é eticamente normal, é diferente do que ele é nos homens. Seu superego nunca é tão inexorável, tão impessoal, tão independente de suas origens emocionais como exigimos que o seja nos homens. Os traços de caráter que críticos de todas as épocas erigiram contra as mulheres – que demonstraram menor senso de justiça que os homens, que estão menos aptas a submeter-se ás grandes exigências da vida, que são mais amiúdes influenciadas em seus julgamentos por seus sentimentos de afeição ou hostilidade – todos eles seriam amplamente explicados pela modificação na formação de seu superego (FREUD, 1986, p. 319-320).

Freud ainda assim afirma que tanto masculinidade como feminilidade são construções teóricas de conteúdo incerto, pois há uma disposição bissexual nos seres humanos.

Em 1931, Freud desenvolve mais amplamente sobre teoria da sexualidade feminina. Diz que a mulher só atinge a situação edipiana positiva após ter superado a negativa, quanto a isto ele diz em O Ego e o ID (1923) que um estudo mais aprofundado do complexo de Édipo revela-o “(...) dúplice, positivo e negativo, e devido à bissexualidade presente na criança” (FREUD, 1923/1996, p. 47).

Como Freud já havia postulado em 1925 a mulher reconhece sua castração e com isso a superioridade dos homens e sua inferioridade, levando-a a abandonar sua atividade fálica ou sua sexualidade em geral, afirmando-se à masculinidade, ela só atingirá a atitude feminina normal ao tomar o pai como objeto.

Assim nas mulheres, o complexo de Édipo constitui o resultado final de um desenvolvimento bastante demorado. Ele não é destruído, mas criado pela influência da castração; foge às influências fortemente hostis que, no homem, tiveram efeito destrutivo sobre ele e, na verdade, com muita frequência, de modo algum é superado pela mulher. (FREUD, 1931/1996, p. 238)

A fase pré-edipiana nas mulheres tem grande importância, refere-se à ligação com a mãe que é muito intensa.

Um ano após ter escrito o artigo sobre a sexualidade feminina, Freud realizou a não menos conhecida conferência de título Feminilidade. Neste momento, afirma que associar masculino com atividade e feminino com passividade não constitui uma verdade e que não se deve desprezar a relação da feminilidade e vida instintual. Acentua que a psicanálise não tenta descrever a mulher, mas indaga como ela se forma e como ela se desenvolve desde criança, ele também não se atém aos gêneros, sobretudo se baseado em distinções anatômicas: “(...) aquilo que constitui a masculinidade ou feminilidade é uma característica que foge ao alcance da anatomia” (FREUD, 1932-1996, p. 115).

Freud defende que o complexo de castração nas meninas não ocorre de modo análogo ao dos meninos, sendo o das meninas iniciado ao ver que os genitais femininos não têm o órgão que valorizam e também ocorre ao ver os genitais do outro sexo. Sentem-se injustiçadas e declaram que querem ter algo assim também, “(...) e se tornam vítimas da inveja do pênis” (FREUD, 1932/1986, p. 125). Tal inveja, ou desejo de ter um pênis, pode levar uma mulher a uma modificação sublimada desse desejo reprimido. Mais tarde, a psicanálise lacaniana evocaria uma operação em que o falo se desconecta do órgão masculino:

Pois o falo é um significante, um significante cuja função, na economia intra-subjetiva da análise, levanta, quem sabe o véu daquela que ele mantinha envolta em mistérios. Pois ele é o significante destinado a designar, em seu conjunto, os efeitos de significado, na medida em que o significante o condiciona por sua presença de significante (LACAN, 1998, p. 697).

Lacan também acentuaria que mesmo para Freud o falo não era um objeto (parcial, interno, bom, mau, etc), nem o pênis ou clitóris que ele simboliza.

Freud diz que se pode imaginar que é uma injustiça masculina ele afirmar que a inveja e o ciúme tenha um relevo maior na vida das mulheres que dos homens: “Não é que eu pense estarem essas características ausentes nos homens, ou julgue que elas não tenham nas mulheres outras raízes além da inveja do pênis; estou inclinado, no entanto, a atribuir sua quantidade maior nas mulheres a essa influência” (FREUD, 1932-1996, p. 125).

Appignanesi e Forrester argumentam que, por mais que Freud tenha tentado minimizar a influência da falta de pênis na configuração da feminilidade como ideia fixa, a história mostra que assim se deu e foram muitos os detratores de sua teoria, bem como os defensores não foram eloquentes. “Afinal, a teoria da inveja do pênis aparentemente era

apenas uma reflexão tardia, um apêndice a uma teoria da sexualidade cujos princípios fundamentais davam pouco espaço e atribuíam pouca importância às diferenças entre os sexos” (APPIGNANESI & FORREST, 2010, p. 573).

E em uma carta à Marie Bonaparte, Freud escreve: “A grande pergunta que ficou sem resposta, e à qual eu mesmo nunca pude responder, apesar dos meus trinta anos de estudo da alma feminina é a seguinte: o que quer uma mulher?” (JONES, 1986). Zalcberg (2007) quanto a isto faz a seguinte questão: “Por que Freud formulou esta pergunta que atravessa sua obra – ‘afinal, o que quer a mulher?’- se aparentemente já tinha encontrado a resposta? Ela quer ser amada”. Para Colette Soler (2005) a questão de Freud poderia se traduzir: “O Édipo produz o homem, mas não produz a mulher”. Mannoni (1998) diz que Lacan responde: ela deseja, muito simplesmente. Poli (2003), a partir de Freud responde: “Ela quer ser desejada”. André (1986), por sua vez, diz: “(...) que o que uma mulher quer é que alguma coisa advenha ao lugar deste significante faltoso, que um ponto de apoio lhe seja fornecido precisamente lá onde o inconsciente a deixa abandonada. Essa reivindicação pode tomar diversos caminhos”. O primeiro caminho seria pela via da histeria, o segundo pela mascarada, a terceira pelo amor, resposta que Zalcberg utiliza. Partindo do axioma de que Não há relação sexual, ou seja, de que não há possibilidade de fazer-se Um, não há um significante que diga sobre a mulher, que há sempre um desencontro entre um homem e uma mulher, ou como nos diz Zalcberg (2007): “(...) não há relação sexual porque o gozo do Outro como corpo é sempre inadequado, seja porque o lado perverso reduz o Outro a um objeto a, seja porque o lado louco ou enigmático se apresenta como gozo suplementar feminino”. Tomaremos o conceito de gozo suplementar feminino, cujo campo, para Lacan, Freud deixou de lado, ou seja, o que quer uma mulher? O campo que não se inscreve, do não sentido, a La femme barrada cuja relação é com o significante. Para conceitualizar que a partir da não reposta do que é ser uma mulher, pode-se encontrar no um a um, ou uma a uma, um savoir-faire único, singular, várias modalidades, já que como nos diz Soler (2005) que o Édipo produz o homem, mas não a mulher, em tempos de declínio do Édipo o que produziria a mulher?

Para Eric Laurent, a psicanálise colocou em destaque a representação da imagem do corpo e do gozo pela arte e Lacan nos indica, no Seminário 10, o paradoxo existente entre a representação do gozo no Oriente por meio das estátuas de Buda que se feminizam, originando as estátuas de Buda de Nara. No Seminário 20, Lacan assinala o período barroco, no Ocidente, como o momento da aparição dos corpos atravessados pelo gozo. Para ele, o êxtase de Santa Tereza envolve o gozo feminino numa reflexão enquanto singular, e é uma manifestação do Outro. O autor cita também Coubert, cujo A origem do mundo “(...)

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