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SUBJECT-MATTER ARRANGED SURVEY 0. GENERELLE EMNER GENERAL SUBJECT MATTERS

Não podemos deixar de visualizar a experiência do acesso sem considerar as relações cotidianas. É no universo do dia-a-dia das organizações que os acordos, sejam eles tácitos ou não, acontecem, revelando o modelo prático da política de inclusão digital e sua efetividade. Nesse quesito, a informalidade é um dos elementos mais expressivos das relações internas das organizações, aparecendo em vários momentos de nossa pesquisa. Abaixo, relacionamos algumas situações chaves que caracterizam esse fazer político.

O comando paralelo

Chamamos de comando paralelo, o poder exercido pelo crime organizado na periferia das cidades. Em nossa pesquisa, ele aparece no Projeto Anchieta como um problema local, no discurso de duas pessoas ligadas diretamente às atividades pedagógicas e política na instituição: Talita, a educadora de inclusão digital e Felipa, a responsável pelas articulações locais. Mas, enquanto para Talita o problema aparece como limitação para realização do seu trabalho frente às demandas do CDI; para Felipa, que tem o olhar da rua, o problema representa o descaso do governo para com a região.

Na prática, o crime é um poder local paralelo, pois é capaz de conviver e mediar conflitos, dando a direção que deseja para os problemas locais sem intervenção efetiva do governo e da sociedade civil politicamente organizada. A prática é favorecida pelo descrédito da população local da polícia e da política de segurança do governo159.

159 Segundo Peralva (2000) não podemos deixar de pensar a democracia brasileira sem pensar na

atuação do crime organizado nos morros e favelas dos subúrbios das grandes metrópoles. Segundo a pesquisa da autora, o crime organizado mantém o controle da violência e da paz nas favelas, permitindo ou nomeando presidentes de associações comunitárias que os apóiam no controle de execução de ações locais.

154 O crime organizado e o tráfico de drogas também estão presentes nas outras entrevistas realizadas, mas aparecem de forma mais sutil, como panorama social, e, portanto, objeto de combate das organizações sociais locais, cujo trabalho socioeducativo ajuda a minimizar os efeitos.

A “sutileza” da autoridade das mulheres no comando das ONGs

Todas as organizações têm como gestoras de seus projetos locais, mulheres. Para nós, o fenômeno está ligado à agenda política em que essas organizações se formaram: luta pela moradia. Por ter essa característica, e estando as organizações em seus lugares de moradia, as mulheres se realizam profissionalmente como gestoras de seu espaço como uma extensão de sua casa. A confiança depositada nelas, dentro e fora da organização, fortalece a sua posição de liderança, possibilitando-lhes administrar as demandas locais, adequando-as às exigências das parcerias e fontes financiadoras.

Esse jeito feminino de tocar as relações internas pode ser visualizado em vários momentos: nas trocas garantidas pela refeição coletiva, nos acordos feitos com os fornecedores locais, nas mediações de conflitos externos, como o crime organizado, nas relações com os técnicos da prefeitura, com o CDI etc.

Os acordos para a manutenção da parceria

Para manter a parceria, as jogadas são feitas de forma muito sutil. D. Neusa briga, faz pressão frente à prefeitura para obter mais serviços para a sua região, mas não se mete no que acontece no Telecentro; Sônia utilizou de seu passado no Centro Comunitário para falar o que o CDI queria ouvir, a aceitação de sua proposta político-pedagógica e abertura do trabalho para jovens de fora dos programas internos, sem mencionar as dificuldades internas que estavam vivendo com relação à estrutura e a contratação de educadores160; O Mutirão do Pobre reclama da distância do programa Telecentro da realidade local e da organização, mas mantém

160 Em reuniões no CDI com os gestores e gestoras dos espaços esse problema só era revelado por

algumas organizações que se sentiam muito pressionadas ou que tinham outras parcerias importantes e não lamentava o rompimento com o CDI.

155 uma relação utilitária com a equipe para não desgastar a parceria, mesmo que a gestora ache necessária uma melhor adequação do trabalho à realidade local; no Projeto Anchieta, Talita e Felipa revelam os problemas que aparecem como se fossem incompetência da sua instituição, já os gestores abrilhantam os resultados ou os desejos futuros, como se não existissem problemas com a parceria CDI.

A necessidade de manter a parceria se revela no discurso cuidadoso das gestoras e mesmo dos outros funcionários que, apesar de falarem sobre as dificuldades, não as apresentam como resultante da relação com os parceiros. O medo de perder a parceria, seja porque recebem recursos em dinheiro para tocar as atividades, como no caso da relação com a prefeitura; seja porque reforçam uma imagem de estarem ligados a uma organização de grande porte que podem servir de ponte para outras parcerias mais importantes, a exemplo do CDI, é um indicador de que as organizações precisam das parcerias para existir; por isso, tentam moldar a sua prática às propostas defendidas por esses parceiros, mesmo que isso signifique distanciamento da proposta que lhe deu origem. Com isso, a prestação de serviços se torna, cada vez mais, a característica marcante dessas organizações.

O jogo para manter a sustentabilidade dos projetos locais

Resultante das parcerias formalizadas, mas não satisfatórias do ponto de vista da estrutura financeira das organizações executoras, o jogo para manter a organização um projeto sustentável é um fator relevante que reforça a criatividade, a perseverança para realização do sonho, ao mesmo tempo em que revela as condições precárias de trabalho em que as organizações se encontram, uma vez que a lógica numérica das fontes financiadoras não dá conta das demandas locais, acarretando uma série de arranjos informais, quase domésticos, a exemplo do jeitinho que as gestoras montam as equipes para a realização do trabalho, a partir de uma garantia de contratação futura.

Mas, é a confiança depositada nas pessoas que tocam o projeto e mantêm

o trabalho social proposto. Como o principal capital social das organizações, ela aparece quando pessoas se disponibilizam para realizar o trabalho, mesmo sem contrato firmado, com os acordos feitos junto aos fornecedores locais e no

156 envolvimento dos pais e jovens usuários como voluntários nos mutirões articulados pela gestão.

A sociabilidade como resultante dos arranjos informais

Resultantes das parcerias e do desenvolvimento das propostas na rotina do trabalho, os programas também suscitam uma sociabilidade, para além das definições que engendram as identidades coletivas. Essa sociabilidade se coloca entre os limites políticos como grupo e as decisões individuais, a exemplo da relação dos técnicos da prefeitura com a coordenadora da associação do Mutirão do Pobre e da integração dos técnicos do CDI com os espaços que acompanha etc. Por se realizar no universo das parcerias, ela é política; portanto, contingencial e flexível, moldando-se às oportunidades geradas. Podemos arriscar dizer que ela se concretiza pela esperteza de alguns indivíduos ou grupos que utilizam as táticas (CERTEAU, 2002) como resistência a uma situação não aceita, mas silenciada, para continuar assegurado o mesmo tratamento, pelas parcerias constituídas. Ela é localizada e, em nosso caso, atrelada ao ritmo das relações internas e externas ao espaço onde se realiza a inclusão digital.

Nesse universo, as trocas informais, que acontecem a partir das necessidades de uso do Telecentro e dos espaços CDIs, estabelecem conexões que

extrapolam o ciberespaço, ao mesmo tempo em que este se apresenta como o meio

potencial que estimula as relações presenciais, e a construção dessa sociabilidade, possibilitada pela convivência e demandas do trabalho.