A hora preferida da equipe e do público atendido nas organizações é a refeição. A mesa é um lugar de conversas e negociações, de manter o ideal coletivo, de fortalecer os laços para se constituir como um programa ou apenas um lugar de encontro para construir algumas pontes quebradas ou ainda inexistentes com a formalidade dos contratos. É lá, na mesa, que se conversa sobre o desempenho dos jovens nas oficinas, sobre os problemas com os equipamentos, sobre os recursos que não chegaram a tempo para garantir a merenda. Lá, encontramos sorrisos, as últimas notícias da vizinhança e do Jornal Nacional, as últimas do futebol e da novela das 7, das 8 e algumas angústias trazidas pelo esforço de responder às demandas do dia-a-dia. Também encontramos D. Neusa com suas histórias de conquistas no MST de Emerlino Matarazzo, tentando com elas manter a sua liderança e utilidade; encontramos Felipa com seu entusiasmo, contando a todos sobre as últimas conquistas da rede do Grajaú, justificando a sua colocação de agente comunitária; encontramos Leda se justificando com as visitas pela comida simples ao mesmo tempo em que conversa com alguém da equipe para resolver alguma pendência; encontramos Jader com os meninos do Telecentro do Jardim Fontalis negociando o fazer de algum trabalho com o computador, falando dos grandes feitos institucionais, justificando o fato de não fazer um trabalho mais ligado
150 Não pretendemos aprofundar a questão de gênero. Contudo, não podemos deixar de registrar a
importância das mulheres para o trabalho social, que ainda no século XX se destacava como gestora de obras sociais, trabalho assistencialista e filantrópico; e desde o final do século, tem feito carreira profissional na gestão social, caminhando junto com as mudanças que constituíram o terceiro setor no Brasil.
142 ao Telecentro. Na mesa, meninos e meninas se relacionam, descobrem que, além do desejo da mãe de não ter um desocupado em casa, o lugar é divertido e, de vez em quando oferece alguma coisa interessante para fazer.
Garantida pelo poder público, através de contrato formal, a refeição coletiva faz parte de todos os programas estudados. Comum a todos, o momento é base para as negociações, trocas formais e informais. Na mesa, as conexões são realizadas entre os responsáveis pelos Telecentros e os que fazem a associação parceira, entre O CDI e gestores locais, entre os membros e usuários das associações selecionadas para realizarem a inclusão digital tão sonhada pelo CDI, entre os membros de um grupo e suas lideranças políticas, entre jovens e educadores etc.
Esse recurso público repassado para as associações executoras das políticas sociais permite a construção de momentos coletivos, como um importante acesso para a realização das ações propostas, tanto para as instituições executoras, como para as instituições proponentes. Esse acesso acontece, formalmente, com a administração da associação parceira da merenda, obrigatória em toda a política de assistência voltada para a creche e o serviço socioeducativo. Nessa perspectiva, o que parece para muitos, apenas a garantia de que crianças e jovens sejam bem alimentados durante sua estadia nos projetos sociais, informalmente, com os arranjos coletivos construídos na hora da refeição, esse acesso se transforma em um eficaz instrumento para o estímulo ao diálogo e ao lazer em grupo, promovendo, com a proximidade diária, a construção de um fazer político peculiar, marcado pelas identidades151 que se estabelecem no interior das organizações socais.
Como podemos observar no discurso das mulheres, à frente dos programas (Leda, do Projeto Anchieta, de Jader do Mutirão do Pobre e de D. Neusa, do Centro Comunitário das mulheres do MST e Sônia Fonseca no Centro Comunitário Nossa Senhora Aparecida), o trabalho é realizado em família. Esse arranjo é fundamental para a sobrevivência econômica e política das associações, seja pelo fato da coordenadora necessitar de informações mínimas sobre o que se passa na sala do Telecentro para passar a imagem de que a Associação é a administradora daquele espaço; ou como recurso de Leda para a permanência de um grupo de profissionais sem remuneração; como também para dar continuidade ao projeto de vida de D.
143 Neusa e a retomada do sonho de luta perdido por Sônia; ou mesmo para educadores, monitores ou jovens atendidos para que possam desabafar as suas angústias pessoais ou sobre os problemas dos projetos, bem como fatos originados de suas relações com outros membros do grupo. Os encontros diários durante a refeição fortalecem uma imagem de coletividade necessária para a permanência das pessoas nos programas e, consequentemente, dos próprios programas nos lugares onde estão sediados.
As mulheres, por sua vez, usam os recursos que lhes são fornecidos para deixar o “seu” espaço bonito, prazeroso, com jeito de grande família, onde elas são as matriarcas, as líderes que vão fazer o trabalho acontecer, mesmo que precise se sacrificar ou sacrificar os outros. Ao utilizar o seu repertório, construído desde menina, como filha de uma família pobre que aprendeu cedo a tomar conta de uma casa, elas tomam para si as utopias que representam os projetos ali concebidos e tocam a vida prática, se realizando como gestoras daqueles sonhos.
D. Neusa sabe que o presente da sua luta se resume à gestão dos seus espaços e algum “temperinho” colocado de vez em quando com as brigas com a prefeitura; por isso, recorre às histórias do passado; Jader sabe que o Telecentro dos seus sonhos não é aquele, mas o serviço é útil à associação para fortalecer a sua imagem diante da gestão municipal e do bairro; Leda sabe que, do ponto de vista financeiro, a parceria com o CDI representa uma demanda bem maior que a oferta, mas se releva por um lado, já que a instituição decidiu por sua continuidade. Por outro lado, aproveita e coloca a filha para aprender uma profissão Sônia sabe que, voltar ao passado é nostalgia, mas fica feliz pelo CDI lembrar do que era o Centro Comunitário na época das rádios populares na zona leste de São Paulo e decide arriscar na retomada do projeto, em uma versão atual, informatizada. A importância delas no jogo das parcerias, colocada com as confissões das dificuldades, na afirmação da necessidade de um coletivo, ou nos relatos de sucesso e expectativas de futuro, é fundamental para a vida delas e para o próprio jogo. O jogo, por sua vez, se realiza com as intrigas geradas pelos conflitos diários, entre associações e CDI, associações e prefeitura etc, estejam eles abertos ou aparentemente fechados.
Segundo Certeau (2007), no jogo das relações de poder, estabelecidas no cotidiano, a tática se realiza com a inversão de forças, comparada às histórias dos
144 milagres, “que garantem ao oprimido a vitória em um espaço maravilhoso, utópico”. As táticas populares, segundo o autor, desviam para fins próprios “a ordem efetiva das coisas”, sem a ilusão de mudá-las em curto tempo.
A imagem de família, fortalecida pelo ambiente informal das conversas em torno da mesa, durante a refeição coletiva, permite que o jogo da parceria se realize, através das duas performances femininas: a de mãe, dona de casa, responsável por sua prole, e a de mulher bem sucedida, que consegue resolver as demandas da gestão que lhe foi confiada. Isso se realiza na prática, de dois modos: do ponto de vista formal, essas mulheres têm a necessidade de se manter no cargo; portanto, o discurso “somos uma família” é útil ao enfrentamento dos desafios diários da gestão; por outro lado, é importante crer na utopia do projeto político que ora estão representando. Portanto, faz-se necessário agregar valores coletivos que sejam aceitos pelo grupo para realização do trabalho.
Por trás das dinâmicas da formalidade dos contratos e da informalidade da convivência, a “obrigação de dar” manifesta-se na imagem de doar-se à causa que se coloca ali como motor do trabalho a realizar. No discurso das gestoras, a repetição de afirmações como a “comunidade é carente”, “se não fosse a falta de tempo poderíamos fazer mais”, nos mostra que ainda existe um fazer com heranças religiosas que as mantêm no poder e que ajuda na continuidade das parcerias realizadas com a prefeitura e CDI. Além disso, as mulheres tiveram por muito tempo na liderança ou no apoio de obras sociais de caridade, e aprenderam, como ninguém, a obter recursos para realizá-las.
Para Certeau (2007), “a política do dom”, praticada pela arte ordinária sobreviveu aos tempos e se encontra entre nós na sociedade liberal, silenciada muitas vezes, por sua condição marginal. Para o autor, a política do dom é “também uma tática desviacionista” porque se manifesta pela “obrigação de dar”; por isso, é uma transgressão à economia do lucro e à propriedade privada.
Ao mesmo tempo em que se coloca como “dom” que parece reverência a um modelo assistencial e filantrópico ultrapassado, baseado na obrigação de doar, também se coloca nesta experiência de mulheres, como manifestação de uma resistência sutil a uma racionalidade imposta.
Essa racionalidade arbitrária se coloca de forma indireta, com a prática de algumas instituições sociais, principalmente as de grande porte como o CDI, que
145 defendem a importação de modelos do setor empresarial para a profissionalização do terceiro setor152; ou direta, com a contratação de empresas com a IDORT para realizar o trabalho no Telecentro, completamente por fora do que acontece na região ou no local. Ambos deixam de lado experiências importantes, desconsiderando o conhecimento dos atores locais. Esse projeto racional autoritário se concretiza também nas políticas centralizadas e diretrizes fechadas dos planos de trabalho das políticas públicas, vindas de cima para baixo, que subestimam a capacidade dos setores populares, que há anos se utilizam da economia informal para sobreviver153. Outra importante afirmação política é com relação à conquista das mulheres por um lugar no mercado de trabalho e no movimento social. Grande parte das organizações sociais que atua nos bairros na periferia das cidades brasileiras foi liderada por mulheres e tem origem no movimento por melhores condições de vida: contra a carestia, pela moradia, por serviços públicos (DOIMO, 1995). Nesse contexto, a mulher se colocou como protagonista no movimento social, trazendo as necessidades de sua família e a sua forma de agir em casa para o mundo da política e do trabalho formal154. O fazer informal, muitas vezes contestado pelo setor empresarial, que vem ganhando força no terceiro setor, constrói arranjos internos mais flexíveis que possibilitam a adequação das metas formais exigidas pelos financiadores à realidade do trabalho local, garantindo a sobrevivência das organizações e de seus projetos.
Ao romper com as práticas formais, com a sutileza da tática, as mulheres promovem a manutenção do seu poder e do poder instituído, ao mesmo tempo em que se afirma como grupo para o poder de fora representado pela formalidade das parcerias: prefeitura e outras organizações que investem no espaço local.
Esse jogo de equilíbrio entre o poder de dentro e o de fora, nos revela, como as astúcias são flexíveis e servem apenas para quem as usa como ação para
152 Como a gestão social, em uma perspectiva administrativa e profissional é recente no Brasil, ONGs
como o CDI, por exemplo, importam modelos de fora do país e do setor privado e cobram resultados das ONGs de pequeno porte a partir desses modelos.
153 Segundo Zaoual (2003) algumas instituições ligadas à política de desenvolvimento já estão
prestando mais atenção aos arranjos que ocorrem na economia informal como os bancos populares ou a política de microcrédito, com o sucesso midiático do Gramen Bank de Bangladesh, que tem como protagonistas mulheres chefes de família.
154 Podemos tomar como exemplo em nossa pesquisa, os casos de D. Neusa e Sônia que se
146 continuar vivo sob aquelas condições (CERTEAU, 2007). Como vimos no capítulo 1 desta pesquisa, essas ações cimentam uma prática de resistência que pode ser hegemônica ou contra-hegemônica, a depender da posição política que indivíduos ou grupos se encontram (DOWNIG, 2004). No caso das mulheres, por exemplo, elas resgatam a família para manter os status co, assumindo um posicionamento hegemônico, e entra em embate com a prefeitura ou o CDI, quando necessário, assumindo o papel de sociedade civil que luta por melhorias, portanto, um posicionamento contra-hegemônico.