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Subgroup B

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Este estudo3 confi gura-se por ser uma pesquisa qualitativa, de cunho

exploratório-descritivo. Participaram 26 mulheres ligadas aos programas ou atividades que compõem ações de combate à pobreza provenientes tanto do Estado quanto da sociedade civil. A parte empírica está caracterizada em dois momentos, sendo o primeiro com o uso de entrevistas narrativas e o segundo com o uso de círculos epistemológicos. Vejamos:

Na primeira etapa da coleta de dados realizamos 14 entrevistas aber- tas, do tipo narrativa ( Jovchelovitch & Bauer, 2002), com mulheres em situação de pobreza socioeconômica, que têm esse status reconhecido pelas políticas estatais, via inserção em programas de combate à pobreza. Dessas, onze eram vinculadas a Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) e três integravam atividades ligadas ao cooperativismo4

em comunidades periféricas, todas residentes em Porto Alegre/RS. Op- tamos pelo uso de entrevistas narrativas. pois, segundo Jovchelovitch e Bauer (2002, p. 91), “não há experiência humana que não possa ser ex- pressa na forma de uma narrativa”. As narrativas estão presentes no coti- diano das pessoas e das comunidades independentemente da educação e da competência linguística dos grupos. As pessoas contam histórias com palavras e sentidos que são específi cos à sua experiência e ao seu modo de vida e, ao fazê-lo, expressam suas crenças, seu mundo. Normalmente, utiliza-se este instrumento para reconstrução de fatos, histórias vividas. Nossa intenção foi atingir um maior nível de profundidade no relato da experiência investigada através da fala livre.

3 Aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, com registro número 09/04494.

4 A escolha por diversifi car as entrevistas, em relação a sua origem, foi tomada buscando analisar questões relacionadas à identidade social do sujeito “assistido”, uma vez que ela [a identidade social] sofre infl uências ao longo do processo (e tipo) de assistência às suas

Assim, nossas entrevistas foram planejadas em dois momentos. Primeiro, um convite à fala, com a apresentação do Termo de Consen- timento Livre e Esclarecido. Através desse documento, que continha o objetivo da pesquisa, a narrativa da entrevistada tinha início. Segundo, quando a entrevistada parava de falar, lançávamos questões que pode- riam dar continuidade à narração. As questões versaram sobre os se- guintes tópicos: relação com a política social (via CRAS ou cooperati- vas); principais problemas enfrentados no cotidiano presente e passado e relacionadas com a temática da pobreza; percepção da situação de po- breza e do que as políticas intitulam ‘pobres’; expectativas em relação ao futuro. Inicialmente, não estava prevista a realização de entrevistas apenas com mulheres. Contudo, essa condição se impôs, na medida em que esse era o público que procurava e participava dos programas de combate à pobreza citados.

Abaixo apresentamos uma tabela com alguns dados das entrevis- tadas.

Entrevistadas C. E. I. V. S. R. T. B. L. D. A. M. N. J. Idade 26 24 36 41 35 27 38 50 52 60 57 54 25 62

Número de crianças e/ou adolescentes

pelos quais são responsáveis 5 4 8 7 7 3 2 7 3 4 11 7 3 3 Situação conjugal (C: casada; S: separada; V: viúva) S C S C V C S V S V V S C V

As informações provenientes das entrevistas foram transcritas5 e

categorizadas tematicamente, pela frequência e relevância do conteúdo. Seguindo as recomendações de Jovchelovitch e Bauer (2002), proce- demos com uma redução gradual do texto até chegarmos às catego-

5 O material utilizado para análise dos signifi cados, ao longo do artigo, respeita o estilo e a linguagem coloquial das entrevistadas, ou seja, as transcrições revelam com fi delidade o

que foi e como foi dito.

rias. Utilizou-se, para tanto, a generalização e condensação de sentido, primeiro de passagens inteiras e, depois, de sentenças. Esse processo deu origem, concretamente, a dois documentos: uma categorização temáti- ca, com a fala das participantes e uma tabela representacional que pos- sibilitou um panorama geral das informações. De posse disso, passamos à interpretação das entrevistas, associando a fala e o sentido de nossas informantes à nossa perspectiva teórica6.

Essas informações e sistematizações contribuíram para, em um segundo momento, a realização de um grupo de discussão, conhecido como círculo epistemológico (Romão, 2006)7. Participaram dessa etapa

outras 12 mulheres vinculadas a um Centro de Referência de Assistên- cia Social do mesmo município. As temáticas abordadas que fomenta- ram a discussão foram as mesmas acima citadas nas entrevistas.

O círculo epistemológico deve ser compreendido como um espaço democrático e interpretativo, instituído por um tipo de pesquisa que desafi a as formas tradicionais de produção de conhecimento (Accorssi, 2011). O pesquisador é provocado a romper com representações natura- lizadas de que somente ele teria um conhecimento capaz de compreen-

6 Importante destacar que, conforme Jovchelovitch & Bauer (2002, p. 107), esse processo de redução “pode levar à análise quantitativa no sentido da análise de conteúdo clássica”. Contudo, por uma questão de afi liação teórica, optamos por não quantifi car os sentidos, mas sim dar visi- bilidade a todos aqueles elementos que, a nosso ver, possam contribuir para pensar e estruturar um entendimento sobre a RS da pobreza, bem com as implicações disso no mundo social. 7 Pesquisadores brasileiros (Romão et al., 2006) atentos à perspectiva de reinvençãoda obra freiriana propuseram a adoção dos Círculos de Cultura como um instrumento metodológico para a prática de pesquisa qualitativa, o que gerou a mudança do nome de origem para Círcu-

los Epistemológicos. Isso se deu em decorrência de dois aspectos: por um lado, marca a diferen- ciação necessária dessa prática voltada à pesquisa daquela voltada à intervenção no processo de alfabetização e de educação de adultos; por outro, amplia a concepção dos chamados

sujeitos de pesquisa, que, nessa proposta, engloba tanto os pesquisadores quanto os pesquisandos. Tal afi rmativa ganha sustentação nas refl exões e questionamentos de Paulo Freire (1987, p. 31), quando ele diz: “só o poder que nasça da debilidade dos oprimidos será sufi cientemente forte para libertar a ambos”, pois “quem, melhor que os oprimidos, se encontrará preparado para entender o signifi cado terrível de uma sociedade opressora? ”. Neste sentido, os opri- midos têm uma vantagem gnosiológica, não por uma suposta superioridade epistemológica ou ontológica, mas por sua posição no processo sócio histórico. “Somente aos oprimidos e às oprimidas interessa a refl exão sobre as relações de opressão, bem como somente a eles e

der a realidade analisada. Baseamo-nos, para isso, na premissa freiriana de que não há um que sabe mais do que outro, há sim, saberes diferentes, produzidos em contextos também diferentes (Guareschi, 1992). Uma vez que os participantes atuam ativamente no processo interpretativo – são, ao mesmo tempo, autores de sua história e da materialização das interpretações, das análises (Romão, 2006).

As informações decorrentes do grupo também passaram pelo pro- cesso de categorização temática e construção da tabela representacional, já explicitados acima. Em linhas gerais, tanto as entrevistas, quanto o círculo epistemológico procuraram estabelecer encontros dialógicos so- bre a problemática da pobreza, uma vez que buscamos conhecer e reco- nhecer a perspectiva do outro como legítima. Passemos agora ao debate dos dados produzidos ao longo de todo o processo acima descrito.

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