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Buscamos, no presente texto, situar alguns aspectos que marcam a vida de mulheres em situação de pobreza no meio rural brasileiro. Des- tacamos que, a despeito de todos os investimentos para minimizar as

desigualdades nesse contexto, persiste um considerável contingente de pessoas que enfrentam duras condições de vida, notadamente mulheres trabalhadoras rurais.

A marca do latifúndio e do modelo de desenvolvimento adotados no campo brasileiro respondem, em grande medida, pelos trágicos efei- tos que se produziram na vida de inúmeros trabalhadores e trabalha- doras rurais, que foram preteridos de uma agenda de fortalecimento da agricultura de base familiar, tornando a terra de trabalho e de moradia cada vez mais uma utopia a ser alcançada pelas lutas dos movimentos sociais. Para as mulheres, acumulam-se a esses efeitos bases sociocultu- rais de opressão e invisibilidade em função dos papéis de gênero histo- ricamente construídos.

No âmbito governamental, a criação da Secretaria de Políticas para as Mulheres, no ano de 2003, tem possibilitado uma atuação no sentido de promover a igualdade de gênero por meio de políticas e programas com caráter interministerial que, no caso das mulheres do campo, tem construído formas de pactuação com o Ministério do Desenvolvimento Agrário, com vistas a superar os abismos e as desigualdades de gênero nos contextos rurais, marcadas pela invisibilidade do trabalho, preca- riedade do acesso à terra, créditos e assistência técnica, bem como a violência doméstica.

Essas conquistas têm sido mediadas pelas inúmeras formas de par- ticipação política das mulheres do meio rural que buscam, desse modo, reescrever sua história. Seu engajamento na luta pela/na terra e as múlti- plas experiências nos assentamentos rurais têm vislumbrando, em meio a permanências e rupturas, o desenho de uma autonomia que pode lan- çar perspectivas para outro lugar de gênero.

Cumpre destacar a necessidade de se desenvolverem investigações e avaliações voltadas para a detecção dos efeitos de programas sociais no incremento do grau de autonomia para as mulheres rurais, bem como na ampliação da compreensão do fenômeno da pobreza que, mesmo numa

perspectiva multidimensional, não contempla as singularidades, a histo- ricidade e os pertencimentos (socioculturais e territoriais) que agenciam modos particulares de habitar esse fenômeno.

Para tanto, a adoção de metodologias participativas permite in- corporar as formulações próprias desse coletivo para a construção de indicadores e ferramentas de análise que contemplem elementos diver- sifi cados, contextualizados e processuais, tal como se entende a questão da autonomia. Ou seja, avaliar autonomia implica em reconhecer dife- rentes dimensões, indo desde as condições de vida, cotidiano domésti- co e comunitário, relações conjugais e familiares, trabalho e renda, até aspectos dos modos de vida e posicionamento subjetivo.

Por fi m, aproximar o tema da autonomia às questões de gênero im- plica, desse modo, em dar relevo a processos de subjetivação, no sentido das rupturas microfísicas que podem estar operando a desconstrução das hierarquias de gênero mediante as conquistas e o protagonismo das mulheres rurais em torno de suas vidas. Mediante tal esforço, vão se tornando visíveis, lá mesmo onde pareciam ‘não existir’.

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