2.5 Estimation of variance and confidence intervals
3.2.1 Sub-functions
QD guarda em si um aspecto bastante peculiar, diferenciando-se, assim, dos outros textos analisados nesta tese: a voz de quem constrói a identidade da protagonista é, exclusivamente, a mesma voz feminina autorial, ou seja, pertence a Carolina Maria de Jesus.
Os relatos dessa voz autorial feminina aportam ao leitor uma série de dados com os quais esse sujeito pode construir, em seu imaginário, o que seria a identidade da habitante do Quarto de Despejo, da escritora que fala de si. O corpo narrativo proposto dá conta de uma vasta quantidade de fatos identificatórios que auxiliam a formatação virtual do sujeito-autor, delimitando, desse modo, não só uma corporeidade que mimetiza aspectos do real, mas um locus ainda mais abstrato: a psicologia da personagem.
A narrativa em primeira pessoa não se priva de considerar, como se pode notar na leitura do diário, que esse ser dotado de corpo, voz e particularidades psicológicas está inscrito em um espaço e tempo determinados. Como fios, as características da personagem principal do livro acabam por tecer a teia que constrói a identidade da protagonista. Assim, Carolina Maria de Jesus, por meio de um relato que teima em se distanciar de uma fala oralizada e chula, escreve, confessa, denuncia. Não para ela e seu grupo, mas para o leitor imaginário que habita um espaço diverso do seu, e que ela acredita que será capaz de, ao lê-la, compreendê-la. A mulher fala para um outro bem distante de si, movimento flagrante se considerado seu esforço por escrever direcionada pelo que acredita ser um português culto.
Para analisar esse aspecto do processo de construção identitária de Carolina Maria de Jesus em QD, vale um breve diálogo com a suposta autora de A casa dos Budas ditosos47, a
partir de uma leitura da análise deste livro empreendida por Rita Olivieri-Godet. De acordo com a autora, o livro “é uma espécie de pastiche de uma tendência erótica e libertina da literatura.” (GODET, 2009, p. 166).
Ao abordar a ficcionalização da voz autorial nessa obra do escritor baiano João Ubaldo Ribeiro, a autora faz uma afirmação bastante contundente e que auxilia também na análise de QD: “Toda narrativa contém nela mesma, em níveis diferentes, as marcas textuais da presença do sujeito-autor.” (GODET, 2009, p. 163). De acordo com Godet, “o caráter auto- referencial de numerosas narrativas contemporâneas parece enfatizar a impossibilidade, para seus autores, de escreverem de modo ‘inocente’”. (GODET, 2009, p. 163-164). O sujeito- autor de QD é uma mulher que encontra na escrita a porta de saída de sua vida miserável. Por isso escreve. Para isso escreve. Ela quer deixar de pertencer a esse mundo. Mais do que transformá-lo, embora condene aqueles que considera responsáveis pelos descaminhos do povo que vive em situação de miséria, a autora quer deixar de habitar esse universo, quer ser alçada para a “cidade-jardim”, quer ser salva.
Conforme Godet, o autor, ao contar uma história, o faz acoplando ao “contar” uma reflexão sobre o ato de escrever, “reflexão que aliás não para de ameaçar o tênue fio narrativo que a ficção põe em funcionamento.” (GODET, 2009, p. 164). A autora destaca que essa “autoconsciência da prática romanesca” se apresenta por meio de características que se repetem. Uma dessas é o que ela chama de “inflação da figura do autor”, o que, destaca, remete “a todas as espécies de máscaras do escritor, como se pode observar em numerosas autobiografias fictícias, gênero privilegiado para explorar a construção simulada de uma identidade.” (GODET, 2009, p. 164).
QD não é um romance, é um diário, e nele o contrato de produção de uma obra muito próxima do real é explícito e firmado com o leitor bem antes das primeiras linhas. Mas Carolina Maria de Jesus ousa colocar sua narrativa autodescritiva e confessional em situação de diálogo com outros gêneros, notadamente a poesia, como se pode observar nas construções inundadas de lirismo e figuras de linguagem como as constantes metáforas. A autora não se priva, no entanto, de refletir sobre a própria prática. E nessa reflexão inscreve-se talvez como um ente distante da Carolina real, que segura o lápis: apresenta-se assim como uma
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personagem definida e delimitada. Mas essa personagem se caracteriza, principalmente, pelo uso da máscara da verdade.
Nesse aspecto, ela se distancia da voz feminina de ACBD, que quer falar, questionar seu próprio ato criador, mas não quer se identificar. A dissimulação do “eu” em ACBD se dá porque a escrita dessa mulher, descrita por João Ubaldo Ribeiro como a verdadeira autora do livro, propõe, com seu texto, uma “exposição desenfreada e crua dos instintos sexuais”. (GODET, 2009, p. 166). A decisão por um assunto considerado antagônico à moral vigente desvela um sujeito-autor desejoso de transgressão. Porém, assim como em QD, essa transgressão tem um colorido político. Isso porque, conforme analisa Godet,
a exploração erógena do corpo realizada pelo herói-narrador é um ponto de partida para expressar sua revolta contra as convenções hipócritas que oprimem e marginalizam as manifestações da sexualidade, segundo o pastiche da perspectiva libertina que está na base da construção do personagem. (GODET, 2009, p. 166).
Carolina Maria de Jesus inscreve-se também a partir de uma hiperexposição do eu por meio de uma escrita consciente e determinada, destemida e solitária. E sobretudo política. Ela não dissimula seu “eu”. Ao contrário, por meio de seu relato autodescritivo, coloca-se como pessoa real, como se somente assim pudesse ser “salva”. A autora de QD não quer abdicar, em hipótese alguma, de seu aspecto real. Se fosse possível, ela não só escreveria sobre si e sua rotina, mas, num ato surreal e apaixonado, talvez, colasse seu corpo às páginas encardidas dos cadernos para ser tomada em corpo e alma pelo leitor. Ao contrário da suposta autora de ACBD, a catadora quer se expor. O gênero autobiográfico não serve a ela como subterfúgio ou esconderijo. A catadora é como o náufrago e tem na escrita a sua tábua de salvação na qual se segura até chegar à terra firme, o que efetivamente acontece com a edição e grande sucesso do livro.
Apesar do forte apelo ao real proposto pelos escritos de Carolina Maria de Jesus, não há como não levar em conta que o livro é o resultado, não só da produção dessa mulher, mas é também fruto de uma edição em nada inócua, como se discute ao longo dessa tese. Edição esta que, conforme alguns estudiosos da obra de Carolina Maria de Jesus, finda por interferir no sentido do texto, transformando uma história real, em uma obra com um quê de ficcional. A voz da autora não é, pois, a única presente no texto. Conforme destaca Godet, “a ficcionalização da voz autorial encontra-se ... no cerne das interrogações formuladas pela obra sobre o valor da realidade que se pode conferir ao texto literário.” (2009, p. 167). Mas, se Dantas protagoniza esse processo de ficcionalização da voz autorial, Carolina Maria de Jesus
também o faz na escolha do que escreve, confirmando que, efetivamente, “mesmo numa escrita realista que se baseia intencionalmente na imitação do mundo referencial, o processo de sua representação produz novos sentidos que a fazem escapar das leis da realidade histórico-social.” (GODET, 2009, p. 169).