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2 Material and Methods

3.2 Sufficient sample size

Em nossa segunda categoria a priori, buscaremos analisar como a Comunicação é compreendida pelos sujeitos da Autarquia A, assim como a conduta da Organização para contribuir com estes processos. Dirigiremos nosso olhar sobre uma das partes da trama organizacional – a Assessoria de Comunicação Social da Autarquia A, voltando-nos especialmente ao núcleo de Assessoria de Imprensa.

A ACS é um setor relativamente novo, quando comparado à trajetória do órgão. Até 2011, o trabalho era desempenhado por profissionais com contratos emergenciais, voltados fundamentalmente ao atendimento das demandas da imprensa, o que impediu a construção de um projeto de Comunicação de longo prazo. Os quatro jornalistas e os dois relações-públicas que compõem a atual equipe são oriundos do concurso público promovido pela instituição em 2011 – três deles estavam no cargo há menos de quatro meses quando as entrevistas foram realizadas.

A ACS divide-se, hoje, nos núcleos de Relações Públicas e Projetos e de Assessoria de Imprensa, sendo que há uma distinção clara entre suas respectivas atribuições.

O núcleo de RP é responsável pela Comunicação interna, que consiste especialmente na publicação de dados nos murais da instituição e na intranet, criada em 2013. Nestes espaços são divulgadas informações de interesse exclusivo dos funcionários, como aquelas relacionadas aos horários de expediente, legislações ou avisos sobre eventos. Da mesma forma, estes profissionais promovem a divulgação e o acompanhamento de campanhas internas. “Ontem, por exemplo, a gente teve o lançamento de um programa de preparação para aposentadoria. Não é uma notícia que interesse à comunidade, interessa aos servidores”, cita o Coordenador A.

Ao núcleo de RP cabe ainda a produção de materiais institucionais, como caneta e pin, e a gestão dos eventos internos – as cerimônias mais expressivas contam com a presença do secretário e do governador, e por isso são organizadas

pela Secretaria ou pelo Palácio Piratini. Da mesma forma, trabalhos publicitários são desempenhados por agências licitadas pelo Governo, já que a ACS não dispõe de profissionais específicos de publicidade.

O núcleo de Assessoria de Imprensa tem sua atuação focada no atendimento às demandas de imprensa, recebidas basicamente por e-mail e por telefone. Os entrevistados qualificam como “muito grande” ou “enorme” o volume de informações e de entrevistas demandadas, ponto que é reiterado repetidas vezes ao longo das três entrevistas.

Em seguida, está a produção de matérias sobre a Organização, que inclui o acompanhamento dos gestores em viagens, entrevistas com funcionários na sede do órgão ou contatos por telefone e e-mail com os colegas do interior. Os textos são disponibilizados no site e enviados à imprensa. O núcleo é responsável ainda pelo

clipping8.

Diante deste quadro, observamos uma atuação baseada nas ferramentas clássicas de Assessoria de Imprensa. Quando questionado sobre as principais atribuições do setor, o Jornalista A2 destaca o atendimento às demandas de imprensa e a divulgação das ações do órgão. O Jornalista A1 citou a clipagem, o acompanhamento de eventos e viagens com o intuito de se produzir matérias jornalísticas para o site e o atendimento à imprensa. De forma similar, o Coordenador A conta que “os jornalistas estão mais voltados para a questão de Assessoria de Imprensa, produção de material, de notícias para o portal e acompanhamento de agendas”.

Mesmo algumas atribuições básicas de Assessoria de Imprensa sofrem dificuldades para serem implementadas. As respostas às demandas da imprensa não acompanham a velocidade exigida pelos veículos9. O Jornalista 1 admite:

8 Duarte (2008, p. 242) explica que o clipping “consiste em identificar rotineiramente na imprensa as citações sobre a organização ou temas previamente determinados, organizá-las e encaminhá-las para conhecimento dos interessados”.

9 Duarte (2008, p. 333) destaca a importância da disponibilidade para um bom relacionamento entre fontes e jornalistas. Ele diz que “o jornalista valoriza o relacionamento não só com fontes que oferecem boas informações, mas também com aquelas que atendem com rapidez, com eficiência, que conhecem os interesses e a forma de atuação da imprensa”.

A gente tem um delay muito grande entre o fechamento do veículo e o tempo que a gente demora para pegar a informação. Às vezes você fica uma semana para conseguir uma informação que o jornal disse que estava fechando ao meio-dia. Então, eles também, para lidar conosco, eles têm que mudar um pouco.

A falta de agilidade em responder às demandas dos veículos é apontada pelo Coordenador A como a principal justificativa para a não inserção da Autarquia nas redes sociais. Apesar de acreditar na necessidade de montar perfis em redes como o Facebook e o Twitter, ele projeta a concretização desta demanda para o próximo ano, tendo em vista a dificuldade de responder às questões que poderão ser enviadas pelo público através destas ferramentas.

Como vou ter um Face, um Twitter? Eu vou ter que ter gente para estar respondendo e eu tenho que saber o que está acontecendo. Às vezes, a gente leva três dias para conseguir falar com alguém, para responder para um veículo. Ali é na hora (COORDENADOR A).

A observação destes aspectos indica uma atuação funcionalista tanto no núcleo de Assessoria de Imprensa quanto no setor de Comunicação Organizacional como um todo.

Nossa proposta de análise sobre a categoria Comunicação é respaldada pela obra de Baldissera (2008), que a interpreta como muito mais do que um departamento, mas como todas as interações que se dão entre os diversos sujeitos ligados à Organização. Todos os diálogos, olhares, atitudes, enfim, todas as formas de Comunicação entre os stakeholders constituem-se em Comunicação Organizacional.

Segundo a perspectiva adotada pelo autor, são nessas interações que surgem as organizações. Elas não existem exclusivamente nos prédios, produtos ou serviços, mas são construídas e reconstruídas diariamente nas relações entre os diversos indivíduos a elas ligados. “É em/pela comunicação que ela materializa seus processos organizadores, comunica e faz reconhecer sua existência, instituindo-se” (BALDISSERA, 2008, p. 42). Trata-se de um ponto de vista amplo, que nos leva a compreender a Comunicação não como mera prática e fluxo controlável, mas como o emaranhado de relações que constitui a Organização.

Ao contrário da visão de Baldissera, os entrevistados da Autarquia A expuseram uma interpretação vertical sobre o tema. O Coordenador A define a Comunicação Organizacional não como aquela que ocorre entre os públicos, mas como a forma com que a Organização se comunica com seus públicos. “É a Comunicação praticada pela Organização com seu público interno e com seu público externo”, caracteriza. Esta interpretação dual entre Comunicação interna e externa é criticada por Baldissera (2008, p. 43):

A essa luz, considera-se necessário rever concepções que, mediante simplificações (algumas grosseiras), reduzem comunicação organizacional à ideia de comunicação interna e externa (planejada), relações públicas, marketing corporativo, propaganda, assessoria de imprensa e/ou comunicação administrativa, etc.

O autor ressalta, entretanto, que sua crítica diz respeito à redução do conceito aos fluxos controláveis e à exclusão de todos os processos sobre os quais não se tem gerenciamento, o que não implica rechaçar essas práticas. Essa postura é válida para a Assessoria de Imprensa, atividade sobre a qual nos debruçamos neste estudo. Sob a perspectiva complexa, ela precisa ser analisada a partir de todos os fluxos que estão de alguma forma relacionados à atividade, sejam eles controláveis ou não.

A Assessoria de Imprensa na Autarquia A foca-se especialmente na busca de espaço na mídia, seja através do atendimento às demandas de informações da imprensa, seja através da produção de releases. “A Assessoria tem que cuidar da imagem da instituição. Todas as ações têm que estar na mídia; isso é fundamental. Ela tem que aparecer, não tem como ela ter uma atuação relevante em qualquer área sem estar na mídia”, define o Jornalista A1. Os entrevistados apontam como o ponto forte da Assessoria de Imprensa o trabalho mais proativo de produção de conteúdo, que começou a ser desenvolvido a partir do ingresso de novos profissionais no setor.

Ver um site com várias matérias por dia, e antigamente eram duas ou três por semana. Por exemplo, tu acompanhas um ato, e daqui a pouco tu vês a matéria no site, e a diretoria vê [...]. É no dia a dia, principalmente com a publicação de matérias, que tu demonstras o teu trabalho (JORNALISTA A1).

Esse olhar mecanicista está presente também nas metas, projetos e ambições do setor, voltados essencialmente à produção de conteúdo. O Jornalista A1 projeta que o desafio é “se antecipar, não ficar só atendendo informações de veículos [...]. Que a gente possa gerar notícias, essa é a nossa ambição agora”. O Coordenador A reforça esta visão e acrescenta a ela a necessidade de análise do

clipping, também a partir de uma perspectiva funcionalista. “Nossa equipe agora

está não só reagindo, mas produzindo material, divulgando e até tentando fazer um trabalho mais analítico, olhar o que sai. Não apenas responder, mas olhar o que saiu, ligar de volta se sair algo errado” (COORDENADOR A).

Não se pode excluir o emprego das ferramentas tradicionais de Assessoria de Imprensa, e nem perder de vista que a função primordial da atividade é a intermediação do relacionamento entre a Organização e a imprensa. A perspectiva complexa que nos propomos a adotar, entretanto, defende que o contexto social contemporâneo demanda uma visão que vá além da dimensão mecanicista adotada nas primeiras décadas após o surgimento da atividade.

Duarte (2008) destaca a necessidade de avançarmos de uma atuação baseada na transmissão de informações para uma postura estratégica, capaz de apoiar o desenvolvimento da instituição como um todo. Isso implica a adoção de uma perspectiva que visualize a Comunicação de forma ampla e integral – não como uma atividade plenamente gerenciável, mas como uma teia de fluxos de sentido relacionados à Organização.

Mais do que a mera busca de espaço na mídia, aspecto de destaque na Autarquia A, cabe aos Assessores de Imprensa desenvolver um trabalho capaz de contribuir com este fluxo entre os stakeholders – já que é esta rede de relações que constituirá a Organização. O desafio não é acabar com as ferramentas de Assessoria de Imprensa, mas lançar um olhar para além delas, que seja capaz de combiná-las com a construção e reconstrução permanente de planejamentos que considerem o emprego dos diversos recursos disponíveis hoje para a qualificação do relacionamento entre os sujeitos envolvidos no processo.