Nos relatos seguintes, o lugar do outro como instância governamental é marcado pela violência cometida pela polícia contra o eu/nós, MSR’s, ou seja, um lugar marcado pelo abuso do poder que, segundo van Dijk (2008, p.29), “significa a violação de normas e valores fundamentais no interesse daqueles que têm o poder e contra o interesse dos outros”:
(47) aqui em Porto Alegre eu acho que é muito errado tipo... eu como natural de Porto Alegre eu acho que eu tenho todo o direito de tipo de... dormir numa calçada, de ficar numa calçada de dentro de Porto Alegre sentado... e aqui acontece muito de a polícia correr né, os moradores de rua sair... fazer sair... tipo que nem ocorre no supermercado Zafare aqui... eles dão café e almoço ali pra eles, pra eles pega e correr nós dali, só que eu não fico na frente [...] É que tipo na calçada onde que eu quiser... tá entendendo tipo se eu quiser dormir ali na calçada, isso é... porque a maioria das pessoas não gosta... mas eu não tô usando droga... eu não tô cheirando loló... eu não tô bebendo
cachaça tá entendendo, respeito do menor ao maior...tipo qual é o mal que eu tô fazendo de tá deitado ali naquela calçada com meu cachorro? (014WMP)
(48) Me levaram um colchoado que a tia tinha me dado no dia que tava frio, que ela viu eu tremia de frio que eu sem nada... a tia pegou largou um edredom novinho em cima de mim... aí tá e era dia 7 de Setembro dia do desfile da pátria deles sabe, eles [policiais] pegaram me levaram pro nono aí tocaram meu acolchoado no lixo, novinho que eu tinha ganhado da madrinha... acolchoado coisa mais linda. (012LC).
Marcando a posição de cidadão de Porto Alegre, o enunciador do relato 47 reivindica o seu “direito” como tal. Ao fazer isso, pode-se observar uma oscilação, marcada pelas reticências e pelas expressões que indicam dúvida (“eu acho que”) e substituições do verbo dormir pelo ficar. Em seguida, apresenta uma denúncia contra a polícia que, corrompida por um supermercado da cidade, impinge-lhe maus tratos. A negação apresenta-se como um índice de polifonia. A expressão “eu não tô usando droga... eu não tô cheirando loló... eu não tô bebendo cachaça”, acompanhada por uma afirmação (“respeito do menor ao maior”) e pela pergunta (“qual é o mal...?”), responde a uma voz que, do outro lado, o acusa de estar usando droga, beber, desrespeitar o outro, fazer o mal.
O excerto 48 é estruturado a partir de um lamento em forma de narrativa canônica105. Em um primeiro momento, apresenta-se a cena em que ocorreu o fato. O vocabulário utilizado para apresentar a caracterização detalhada dos objetos, do tempo, das ações (“no dia que tava frio”, “eu tremia de frio”, “eu sem nada”) transporta o enunciador para uma cena de pobreza e sofrimento, mas que contém a presença de elementos reconfortantes ( “a tia pegou largou um edredom novinho em cima de mim). Em seguida, aparece a ação da polícia. Se anteriormente as palavras criam um sentido de afeto, o novo sentido é o da violência: os policiais tocaram fogo e jogaram no lixo. Fizeram tudo isso no dia da pátria deles e não do informante. Finaliza-se a narrativa retomando o tom afetivo para evidenciar que o acolchoado era “novinho”, “coisa mais linda”.
Se os dois últimos relatos denunciam a violência das autoridades policiais que correm, batem, queimam colchões dos MSR’s, os relatos seguintes também apresentam uma face negativa dos responsáveis pela saúde pública e dos seguranças contratados por empresas privadas:
105 Utilizo a expressão “narrativa canônica” para me referir à estrutura da narração apresentada em três
momentos: a) um cenário ou orientação, com a apresentação de personagens, lugar onde acontecem os fatos); b) a complicação com o início da trama propriamente dita; c) a resolução, o desenrolar da trama até o seu fim (KLEIMAN, 1989).
(49) Ô, tipo a saúde porque é “foda”... alimentação é difícil, “pô” tudo é difícil na rua pra ti chamar, esses dia chamei o SAMU, tava um amigo nosso passando mal o SAMU não veio, porque era morador de rua.[...] Ou às vezes quando chega tu já vê as cara assim “pá” sabe, de decepção assim, “pô, se soubesse nem tinha vindo” sabe aquela cara que se soubesse nem tinha vindo. Como também existe muita gente legal que não tá nem aí e pega e vem cumprimenta, às vezes até abraça nós sabe, que assim o preconceito é forte, o preconceito é forte... em certos lugares o cara não pode ENTRAR sabe, não pode...[...] Mc Donald’s, o shopping Praia de Belas aqui no…[...] tu nem entra, o segurança já nem deixa tu entrar, não dá tempo nem de pedir pra sair, eles não deixam nem tu... Mc Donald’s lá uma vez, assim uma história rápida assim, eu tô passando pela, porque o Mc Donald’s tem Drive Tru pro pessoal estacionar assim sabe, aí eu tô passando tem um copo de refri no chão, mas assim tipo ninguém tá bebendo, largaram ali... muito acontece isso e eu peguei e o segurança pegou e me chamou de “filho da puta” falou assim “que que é ‘filho da puta’ larga isso aí não sei o que” aí eu falei “é do senhor?” ele falou “não larga isso aí ‘meu’” aí eu falei “cara isso aqui vai pro lixo” falei pra ele “isso aqui vai pro lixo” ele falou “não quero saber tá retrucando ainda” veio pra cima de mim com um bastãozinho que cresce assim dá um choque, eu tenho marca até hoje aqui assim nas costas [...] Pegou me deu um choque nas costas, saí correndo e tava de chinelo, larguei o chinelo o segurança do Mc Donald’s pegou meu chinelo, tocou pra dentro dum... do terreno do prédio assim sabe, pra mim não pegar no caso, “pô’ aquilo lá me revoltou o cara me chamou assim, ele xingou, xingou minha mãe sabe, xingou minha mãe, pior foi isso... aí eu peguei xinguei ele falei um monte de coisa ele veio correndo atrás de mim, na hora eu tava com uma mochila pesada, larguei a mochila ele pegou minha mochila aí eu fui no tumulto lá no Mc Donald’s né “pô” não precisava tudo aquilo por causa de um copo que ia pro lixo sabe, porque muitas vezes quem tá na rua come do, vive do lixo né.(013RM)
O excerto 49 é estruturado a partir de duas denúncias: contra a falta de atendimento do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) e contra os seguranças de empresas privadas. Na primeira, uma breve descrição da expressão (“tu já vê as cara assim ‘pá’ sabe, de decepção assim”) e a citação das palavras dos agentes de saúde (“pô, se soubesse nem tinha vindo”) criam o efeito da negligência e discriminação com o MSR. O informante continua seu discurso justificando que há pessoas que o tratam de forma diferente. Entretanto, ao falar sobre isso, reforça a discriminação sofrida quando diz que “também existe muita gente legal que não tá nem aí e pega e vem cumprimenta, às vezes até abraça”, indicando que o esperado seria que esses se afastassem e não o cumprimentassem, como se faz com um “normal”, na terminologia de Goffman (2008).
A segunda denúncia é ilustrada com a narração de um fato que evidencia o abuso de poder do grupo policial contra a minoria. As expressões usadas no discurso criam a imagem de um MSR (eu) inicialmente submisso (que passa, pega um copo largado no chão
que vai para o lixo e que pergunta respeitosamente “é do senhor?”), que é confrontado pelo outro, que o xinga, machuca e agride. O informante conclui o relato avaliando negativamente a ação do segurança (“não precisava tudo aquilo por causa de um copo que ia pro lixo”) e se posicionando como aquele que come e vive do lixo.
As prefeituras também são alvos de críticas do grupo:
(50) Hoje a população de rua tá um pouco mais arredia justamente por causa do trabalho, antes quando era a Marta a prefeita esse trabalho era mais simplificado tinha resultado, depois que entrou o outro prefeito esse trabalho ficou só, vamos dizer assim só no superficial, então isso se você for entrevistar alguém na rua você vai encontrar isso, é vem a menina com a tabuleta “seu nome, ah se tiver vaga a gente vai arrumar pra você no albergue”, só que os caras faz tanto isso, todo dia faz isso que o morador de rua “ah é prefeitura, nem quero, nem quero dar mais meu nome, você já pegou meu nome cinqüenta vezes você quer o que, não me arrumou nada”, você entendeu? Então “ah, você é da prefeitura?” então quando alguém chega pra conversar com eles, “não, não sou da prefeitura”, “não você também é do grupo e tal você não vai me arrumar nada, não vai...” (02CBA)
(51) Aqui [mostrando foto na Ocas] é uma região central, aqui tem uma pessoa dormindo né, coisa ali os cara joga água “sem eira nem beira” né, em cima do cara mesmo... [...] Segundo o subprefeito da regional Sé, eles tiveram até uma reunião e ele argumentou o seguinte, ele né como subprefeito da Sé, ele falou: “mas as pessoas que usam o centro da cidade elas querem a cidade limpa... eu não tenho culpa que o senhor tá lá” ele falou bem assim né, eu tenho que prezar pela maior parte da população (06JFJ)
No relato 50, o informante posiciona-se ao lado da administração “simplificada”, porém efetiva, do prefeito anterior e contra o trabalho “superficial” da administração atual. O discurso direto traz a voz dessa última, que promete, mas não cumpre, e também a voz da minoria, cansada de ouvir promessas. Já o relato 51 traz a voz da indignação com as ações inescrupulosas dos representantes do poder (“os cara joga água ‘sem eira nem beira’”) e a voz da subprefeitura que, além de não assumir a responsabilidade de zelar pela população como um todo (“não tenho culpa...”; “tenho que prezar pela maior parte da população”), reproduz a discriminação: querem a cidade limpa e jogam água nas pessoas que são vistas como a própria sujeira.